Pequim – China
Mais irônico que um Dalai Lama maoista é descobrir que daqui alguns anos essa singela blusa levantará discussões em um país a milhas de distância. O que vale dizer agora é que Lee tinha jeito com a costura e não era por ter o nome da fabricante de calças jeans. E que ele, com um esmero acima do normal, costurou as três letras naquela blusa de moletom como se estivesse pintando um afresco na Capela Sistina.
- Mas tá bom, hein?
- Brilhante Lee! Faz mais duas mil dessas em dois dias.
E Lee jogou sua obra de arte em uma caixa de madeira, como se fosse uma peça de pirataria qualquer.
Nápoles – Itália
É grave a crise. Mas ainda assim, milhares de produtos chineses desembarcam em Nápoles e de lá correm para as mãos da máfia como se fossem bolotas de carne suculentas com molho de tomate. Todos têm um produto chinês para chamar de seu e dali eles distribuem para todo o mundo como se fossem peças originais. Algumas têm sorte, vão parar nas vitrines das principais lojas de Milão. Outras são relegadas aos países africanos, aos mercados terceiro mundistas e à rua José Paulino, no Bom Retiro. A blusa costurada por Lee como se fosse o Santo Sudário veio parar no bairro paulistano, como milhares de conterrâneos, por conta de um erro em uma loja napolitana.
- Mas não me joga as blusa com as calça, Giuseppe!
- Mas que cazzo isso tá fazendo aqui ma va!
- Ma che!
- Ma va!
São Paulo – Brasil
O Alfredo estava a contragosto com a namorada na Rua José Paulino. A cada vitrine eram mais e mais vestidos. Foi puxado para uma das lojas antes de conseguir se safar com o terceiro cigarro consecutivo.
- Alfredo, aqui tem uma para você ó.
- Não curti, amor.
- Nah, ficou ótima, é presente.
E assim que chegou em casa, Alfredo jogou a obra prima de Lee ao lado da cômoda.
Os dias passaram lentos até aquele no qual o Alberto bebeu demais. Acabou dormindo no quarto do Alfredo enquanto a festa rolava solta. Deitou do jeito que veio a festa na primeira cama que viu e acordou horas depois com uma sensação de guarda chuva na boca e uma blusa repleta de vômito no corpo.
- Ô Alfredo, ô Alfredo!
- Que é, velho?
- Empresta uma blusa ae?
- Pega essa da cômoda, mas não zoa que é presente da minha mina.
- Firmeza. Playboyzão hein paquito, tá de GAP.
- Tá, tá, abraço.
São Paulo – Brasil
Na TV, a repórter dava as últimas notícias do cerco dos estudantes à reitoria de uma das principais universidades do Brasil.
- Amor, aquele não é o Alberto?
- Que Alberto?
- Aquele seu amigo da USP?
- Ih olha lá, é ele.
- E aquela é sua blusa da GAP que eu te dei?
- Claro que não, amor.
- Então cadê ela?
- Tá no quarto.
- Traz agora!
- Olha amor, todo mundo tá chamando ele de playboy, dizendo que ele esqueceu o Toddynho, hahahahaha.
- Alfredo, a blusa.
- Tá, é a minha!
- Porra, Alfredo!
- O cara veio aqui, bebeu demais, pediu a blusa emprestada, que tem demais?
- Vou dar meu presentes para alguém, vamos ver se você vai gostar!
- Para com isso amor, a minha blusa tá famosa! Tem gente dizendo que foi comprada em Nova Iorque!
- Sério?
- Tá aí, saiu no Reinaldo Azevedo, no Tas, em tudo quanto é lugar!
- Vamos contar para eles que é pirata?
- Para quê, tá tão boa que parece real!
E em algum lugar de Pequim, Lee sorriu involuntariamente. Tinha acabado de costurar uma bolsa Louis Vuitton que parecia a Pietá.
estou aos prantos
Genial!!!!
Sensacional!
pior é que esse também é o agasalho mais barato de Nova Iorque.
uhahuahahuauhuah mto boooom!