Carlos trabalhava no tema do seu mestrado, Dostoiévski e a criminalidade nos morros cariocas, quando foi interrompido por uma súbita falta de luz. Foi aos interruptores, olhou na vizinhança e viu que todos continuavam seus afazeres com a incandescência que nos foi dada por Edison. Ou Tesla, vá lá.
Pegou o celular e ligou para a companhia de luz. Precisava terminar logo o capitulo do seu livro para se dedicar a releitura de Os miseráveis, agora em edição especial. Depois disso, ia curtir o mais novo filme de um diretor islandês obscuro, um thriller no qual o assassino costumava deixar referências à Kant em seus assassinatos. A atendente disse que estava tudo bem na região e ele, que havia decorado o Código Civil, resolveu que era hora de fazer valer a condição de pessoa esclarecida quanto aos seus direitos.
Meia hora depois a polícia chegou ao local. Empolado como se fosse discursar na ONU, Carlos atentou aos agentes da lei que pagava o condomínio em dia e, por isso, merecia respeito enquanto consumidor. O zelador do prédio, sempre zeloso, solicitou a polícia que liberasse a entrada dele no apartamento, entrada essa proibida por Carlos que, com um mestrado na mão e um bom filme islandês na cabeça, imaginava que o ocorrido era culpa da administração predial, da companhia de luz, do estado, de deus.
Meia hora depois a polícia foi embora. Carlos, ruborizado, agradeceu ao zelador que, sem mestrado e ansioso para ver o jogo do Corinthians que já estava para começar, notou que o disjuntor do apartamento tinha caído.
Quem respira aliviado agora é o outro Carlos, pois sabe que agora as pessoas estão enchendo mais o saco do outro do que dele.