Não sei se todos que leem esse texto conhecem o esquema da banha do peixe elétrico. Pois bem, nos trens de SP era costume pintar o cara que vendia a banha do peixe elétrico, com propriedades curandeiras capazes de corar Jesus Cristo, Drauzio Varela e outros milagreiros. Com a banha do peixe elétrico você poderia curar dor nas costas, lombalgia, câncer, dinheiro curto no fim do mês e toda a sorte de enfermidades. E o vendedor da banha do peixe elétrico era uma espécie de Testemunha de Jeová do ramo. Uma olhada de cinco segundos e já era, o cara já estava lá besuntando sua pessoa com a banha do peixe elétrico. Dentro do trem. As vezes lotado.
Após duas horas andando a esmo pelo shopping, parei num quiosque de produtos do Mar Morto para perguntar se existia no raio de cinco quilômetros um quiosque, loja, barraca ou o que o valha da Mac, para comprar o presente de dia dos namorados da Amber.
Não sei vocês, mas acho esse lance de “produtos do Mar Morto” algo muito Rota da Seda. Parece que a bagaça veio de navio, enfrentou piratas, tempestades, tubarões e quem sabe o Kraken em pessoa. Ou em polvo. É como se fosse um produto místico, para lá de Asshai como dizem os personagens do Game of Thrones. São coisas do Mar Morto, logo é preciso que o intrépido funcionário de um comerciante da Companhia das Índias mergulhe, enfrente as almas penadas que lá habitam e volte com um creme, um esmalte ou outro produto feminino.
Pois bem, pare no quiosque dos produtos do Mar Morto.
- Moça, desculpa a pergunta indiscreta, mas você sabe se tem algum quiosque ou loja da Mac por aqui?
- É presente para namorada? Vem cá que te mostro um novo produto.
E súbito a vendedora pede para ver um das minhas unhas. Minhas pobres unhas, vítimas ferozes dos meus dentes em jogos do Corinthians e outros momentos de tensão.
- É bem simples, primeiro você passa esse lado para lixar, depois esse para aparar as pontas e por fim esse para passar a queratina, que vai fortalecer suas unhas. Você costuma tirar a cutícula?
Sério mesmo?
- Não…
- Então, tenho esse creme aqui para fortalecer a pela da cutícula. Feito tudo isso, você não precisa ir mais na manicure pois o esmalte fica na sua unha por duas semanas.
Hahahahahahahahahaha, vai vendo o diálogo. A moça quer me vender a bagaça, passa o trem na minha unha e diz que aquilo vai ficar por duas semanas. Por duas longas semanas terei uma unha esmaltada enquanto as outras vão continuar como sempre foram, feias como uma batida entre dois ônibus carregados de pandas felizes.
- Quer ver que legal, não sai nem com acetona.
Nisso a vendedora esfrega acetona freneticamente na minha unha e o esmalte continua lá, intransponível, o escudo do Capitão América. Já me imaginei ricocheteando tiros com as unhas, poderia até virar um super herói, o Doutor Esmalte, o Capitão Unha ou o que o valha.
_ Hahahahahahaha moça, vou ficar com isso por duas semanas?
- Vai.
Então a vendedora me explica que o produto é importado de Israel e todo o carma vindo do Ariel Sharon dá um pouco de contexto às coisas. Quatro horas depois, consegui achar uma loja da Mac, comprei o presente e ouvi as explicações da vendedora como se fosse o presidente do banco central grego escutando sobre austeridade econômica. E de cinco em cinco segundos olhava para aquele dedão brilhante, um gênio da raça dos dedos.