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Socialismo caboclo

Não tinha medo do Karl Marx e Socialismo
Era o que todos diziam quando o czar cedeu
Deixou para trás todo marasmo do papai
Só para sentir no sangue o calor das empregadas, daquele povo plebeu

Quando criança só pensava em comunismo
Ainda mais quando o soldo do pai não rendeu
Era terror da burguesia da cidade e na escola
Até o professor com ele se encheu

Ia pra igreja só para roubar o dinheiro
Que as velhinhas colocavam na caixinha do altar
Sentia as vezes que precisava de panfleto
Porque O Capital é grande e enche o saco recitar

Ele queria sair para panfletar
Falar mal de qualquer religião
Juntou dinheiro poder viajar
De escolha própria, escolheu a União

Comia todas empregadas da cidade
De tanto falar de igualdade
Aos doze filosofou
Aos quinze foi mandado para França
Onde estudou muito sobre o Termidor

Não entendia como a vida funcionava
A discriminação por causa de sua barba e Marilda seu amor
Ficou cansado de tentar achar resposta
Comprou uma passagem e foi direto para Bonn

Lá chegando foi tomar uma cerveja
E encontrou um comunista com quem foi falar
O comunista, tinha umas idéias, ia perder a viagem
Mas Marx foi lhe salvar

Dizia ele “estou nessa de comunista
Pra ser vagabundo melhor não há
Tô precisando escrever a minha bíblia
Te dou o nome e você vai me ajudar

E Marx aceitou sua proposta
E fumou um baseado pra aceitar a teoria geral
Ele ficou bestificado com a teoridade
Saiu de casa cantando com sua barba de Natal

Vou escrever a doutrinha socialista
No fim do ano, paro de trabalhar
Encher o saco de toda a burguesia
Virar camisa de comuna na Paulista

Na sexta-feira ia pro trem da cidade
Esperar as empregadas para curar o torpor
E conhecia muita gente ignorante
Até um neto bastardo do seu bisavô

Um alemão que vivia na berlinda
E queria com o comunismo se salvar
Seu nome era Engels e dizia
Nosso negócio, nós vamos começar

Mas Karl Marx até a morte amolava
Com essa história de igualdade para se alimentar
E via as sete horas o noticiário
Dizendo que o comunismo não ia vingar

Mas ele não queria mais conversa
E decidiu que com o Engels ele ia se virar
Elaborou mais uma vez O Capital
E com seu livro chato saiu para pregar

Logo logo os comunas da cidade souberam da novidade
“Tem bagulho social aí!”
E Karl Marx ficou rico e comeu todas as empregadas dali
Fez amigos, frequentava o Smolni
Ia pra festa do Lênin pra se libertar
Mas de repente, sob a má influência
Dos comunas da cidade começou avermelhar

Já no primeiro protesto ele dançou
E pro inferno ele foi pela 38ª vez
Capitalismo e leitura do Capital
“Vocês vão ver eu vou doutrinar vocês”

Agora Karl Marx é comunista
Destemino e temido no mundo oriental
Não tinha medo da burguesia,
de padre, capitalista, do Hegel, Smith e tal

Foi então que conheceu uma empregadinha
E de todo o comunismo ele se esqueceu
Marilza era uma operária linda
E o coração vermelho dele
Para ela prometeu
Ele dizia que não ia doutrinar
Capitalista ele voltou a ser
Marilza pra sempre vou te pagar
Te dar férias e cumprir a CLT-ê-ê

O tempo passa e um dia vem a porta
Um senhor capitalista com Torá na mão
E ele faz uma proposta ortodoxa
E diz que espera uma resposta
Uma resposta do alemão

Não cobro 10% por jornal
E não dou aula pra criança sobre Abrahão
E não protejo judeu de 10%
Que fica atrás da Torá com o cu na mão

E é melhor senhor sair da minha casa
Nunca brigue com um socialista com O Capital na mão
Mas antes de sair cobrando a visita o rabino disse
Você perdeu 10% meu irmão. Você perdeu 10% meu irmão
Esse dinheiro vai cair na minha mão
E vou vender meu kibuttz pro Aarão

Não é que Marx estava certo
Comunismo era o correto e ele não foi trabalhar
Estudou e no meio da aula de ciências
Descobriu que o Lênin tinha tomado seu lugar
Falou com Engels que queria um parceiro
Sabia escrever besteira e queria se armar
Engels trazia a propaganda da Bolívia
E Marx distribuia aos moscovitas

Mas acontece que o tal do trotskista
comunista sem vergonha apareceu por lá
Ficou sabendo dos planos do marxismo
E decidiu que com o Marx ele ia acabar

Mas Engels trouxe o Capital versão 2
Trezentos quilos sem ainda editar
E Marx decidiu usar a arma só depois
Que o trotskista começasse a declamar

O trotskista comunista sem vergonha
Organizou a passeata e fez todo mundo cantar
O trotskismo salva gente inocente
E quem for marxista vai pra Sibéria trabalhar

E Marx há muito não ia pra casa
E a saudade começou a apertar
Eu vou me embora, eu vou ver o Engels
Já tá em tempo de a gente se casar

Chegando no partido então ele chorou
E comunista ele virou pela segunda vez
Com o troskista o Engels se casou
E uma nova doutrina ele fez

E Marx era só homem planfeto
Então o trotskista pra um duelo ele chamou
Amanhã as duas horas na Praça Vermelha
É pra lá que eu vou

E você pode escolher o seu discurso
Que eu vou falar sobre o trabalhador
E falo sobre mais -valia
E sobre a relação empregado-empregador

E Marx não sabia o que dizer
Porque comia empregadas de montão
Viu um editor de jornal e disse-lhe
Que tinha um discurso para civilização

No sábado então as duas horas
Todo povo sem demora
Foi lá só para ouvir
Um barbudo que falava umas lorotas
E confrontado pelo trotskistas começou a sorrir

Sentindo a batata assando
Olhou as empregadinhas e tocou a aplaudir
E olhou pro jornaleiro e pros comunistas
E a gente do Comitê que perdia tempo ali

E se lembrou de quando era uma criança
E de quantas empregadas comeu até ali
E decidiu entrar de vez no comunismo
“Se o capital virou circo, eu vou para ali”.

E nisso sossegou seus olhos e então Engels ele reconheceu
Ele trazia O Capital Edição 2
Livro chato que ele concebeu

Trotskista eu sou comuna, coisa que você não é
E não exploro as empregadas em vão
Olha pra cá seu trotskista sem vergonha
Dá uma olhada nesse povo e chama logo de União

E Karl Marx com o Capital Edição 2
Deu cinco batidas no trotskista traidor
Engels se arrependeu depois
E escreveu mais chatices a dois

O povo declarou que Karl Marx era santo porque sabia escrever
E a alta burgesia da cidade juntou todas as coisas e foi pra América ver TV
E Karl Marx não conseguiu o que queria
Quando foi para a Lapônia com o Papai Noel ter

Ele queria era falar pro Bom Velhinho
Pode ir tirar férias que eu sou seu…

COOOOOOOOOOOOOVEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE-EEEEEEEEEEEEE-ER!

“Ei Cabral, pega minha nau”, disse Colombo

Não tinha como dar certo, não é mesmo? Afinal de contas, o descobrimento do Brasil já começou como feriadão na Imigrantes: dias de viagem capazes de corar qualquer programa de índio como rave em uma oca, por exemplo. Daí o Pedro Álvares, sem poder usar o salvador Goolge Maps, ainda erra do caminho e vai parar em Cubatão. Pior que isso só se ele descobrisse a Argentina.

Mas Pedrão é paulistano e não desiste nunca, nem mesmo em um feriado. Chegou e pediu para o Caminha postar alguma coisa decente sobre o país, para que o Rei de Portugal visse o post três dias depois. Grande Speedy!

Pero Vaz – ou Peroba como preferiam os índios – viu aquele vasto território de bacanal e vaticinou que “nesta terra, em se plantando, tudo dá”. E qual nome dar para o país que acabara de nascer sob o auspício português?

- Ô pá, por que Brasil?
- Oras pois, porque sim!
- Não podemos chamar de Augusta? Vila Mimosa?
- Tá vendo aquele índio ali?
- Tô.
- É belo.
- É. E forte.
- É impávido.
- É colosso.
- É o Brasil.
- Diz aí pro Rei que a cá neste pedaço de terra, inspira-se a veadagem.

Sem contar que, imaginem a situação de Pedro Alvares Cabral: feriado de Tiradentes e o Rei o manda explorar umas águas aí, para quem sabe achar algo. Quem sabe, nem era certo se o Brasil existia ou não (afinal, não sabemos de nossa existência até hoje, quem dirá nos tempos das naus portuguesas). Ou seja, Pedrão ia passar na locadora, pegar uns filmes, chamar a Maria e encher a cara de vinho do Porto. De repente o Rei, este puto que vai passar o feriado com os frescos da França, resolve por o homem para trabalhar. Só podia dar merda.

Pedrão, cheio de má vontade no coração, navegou, navegou, navegou mais um pouco e, quando pensou ter achado algo, navegou mais porque já estava na paranóia do crack. Muito louco de pedra, Pedro (pega eu, Vinicius de Morais) escuta alguém gritar “Terra à vista” e, pouco se fodendo para a forma de pagamento, resolve atracar seus barcos neste país.

Vejam, Pedro Alvares Cabral era o Chevy Chase lisboeta. A culpa é dele. Não do Sarney, do FHC, do Lula ou da Mulher Moranguinho. Única e exclusivamente de Pedro Alvares, o Cabral.

A história do Morro do Alemão

Otto von Haffengraf chegou ao Rio de Janeiro em 1954. Integrante da Juventude Hitlerista, desembarcou em terras cariocas fugindo do Julgamento de Nuremberg e de um peteleco dado na orelha do Fürher quando este ainda mandava em alguma coisa na Alemanha.

Diferente da maioria dos turistas, Otto não foi logo à procura de diversão fácil e barata na noite carioca. Como militar que era, decidiu estabelecer-se no Rio de Janeiro tendo como base três pontos, a saber:

1 – Definir um local para a base de operações.
2 – Montar a base de operações.
3 – Captar fundos para manter sua base de operações.

O local foi fácil de encontar. À época, os morros do Rio de Janeiro eram pouco habitados. Bastava convencer três almas pueris de que o nacional-socialismo funciona e pronto. Estrategista que era, Otto achou por bem arrumar um local alto, com vista para a cidade que, caso lograsse sucesso, se chamaria Polônia de Janeiro. Em pouco tempo o Alemão, como era mais conhecido, conseguiu arregimentar quadros para seu plano de dominação em terras cariocas. Dali tentaria São Paulo e, mais tarde, iria até o Acre. Segundo documentos encontrados no Bracarense, o plano de Otto incluia mudar o nome daquele Estado para Acrechswitz.

Um dos grandes problemas de Otto durante sua estada em terras brasileiras foi a língua. Tanto que o nome do morro, hoje conhecido Morro do Alemão, quase ficou como Morro Bikernau. Alguns funkeiros protestaram, dizendo que teriam sérios problemas com a rima. Um deles, MC Vaustengraf, conhecendo quão ególatra era seu comandante, não pensou duas vezes e fez a rima que ainda hoje ecoa em corações teuto-cariocas:

Morro do Dendê é ruim de invadir, nóis do Alemão vamos nos divertir.

Otto aquiesceu, notando definitivamente que Bikernau não era uma boa. Apesar disso, algumas palavras em alemão ainda ecoam nas vielas deste complexo industrial. Exemplo disso é que para o transporte de drogas – único meio de arrecadar fundos para o sucesso do nazismo no Rio – não é feito pelos famosos aviõezinhos, mas pela temida Luftwaffe. Fato comum no Morro do Alemão são diálogos como:

- Ae Luftwaffe, tem de cinco aí?
- Guenta ae playboy, que eu já volto.

Outra peculiaridade do Morro do Alemão é que nenhum Übertraficantefürher (traficante) toma a boca de outro. Pelo menos não com esse termo.

- Ae galera, vamo apavora geral agora. Bóra pra blitzkrieg na boca do Cenoura.
- Formô aí, já é!

Para garantir a paz no morro, Otto implantou a temida SS. O grande problema foi que, devido ao dialeto falado no Rio, a sigla mudou ao longo dos anos e hoje é mais conhecida como ShSh. A princípio, Otto pensava se tratar de um problema com os comunicadores. Assim sendo, reuniu os Übertraficanteführer, os Luftwaffes e os Wermachts (soldados encarregados pela segurança do morro) e fez o teste “isqueiro – biscoito – porta – extra”, o mesmo adotado em campos de concentração na Europa.

Otto von Haffengraf morreu em 1987, durante uma blitzkrieg no Pavão-Pavãozinho. Segundo pessoas que estavam quando da morte deste líder teuto-carioca, sua frase de despedida foi:

- Por que diabos esse judeu fica de braço aberto, tirando nós de mané? Bóra geral fazer uma blitzkrieg na boca do Jota Cê!

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