Arquivos da Categoria: Contos

Adolf Hitler

Sabe lá por que cagada o pai do Adolf Hitler resolver dar a ele esse nome. Adolf Hitler da Silva. Ser Hitler era foda. Na infância era foda. As crianças da escola não ligavam o nome aos milhares de mortos, então Adolf ficou conhecido como o Peido. Aquele que com som sai tal e qual o nome do líder nazista, um leve suspiro do cu junto normalmente acompanhado de fritas, feijoadas e outras comidas de sabor incrível e cheiro não tão nobre. Adolffffffffffffffffffffffffff, dizia a molecada. Hitler dava de ombros.

A primeira namorada foi a Ester. O amor tem dessas. Ester nadava no Maccabi e o pai tinha “um lojinha”, como dizem seus pares do ramo religioso. Seu Saul enfureceu quando Hitler se anunciou em casa. Pensou no avô lá na Polônia, teve a mesma sensação. Lá estava Hitler, levando sua joinha. Enfureceu, gritou, proibiu, acendeu menorás e o que mais pudesse acender naquela casa. Mas Ester resistia como se estivesse em Stalingrado. O mundo é sempre cíclico.

A coisa com a Ester desandou, para alegria de Saul e dos amigos da família. Aquilo era um mau agouro do caralho, um desrespeito aos que se foram naquela guerra e em tantas outras. Chegou a faculdade e com ela os amigos babacas que riam porque Adolf Hitler militava com a turma da esquerda. Diziam que o nacional socialismo finalmente haveria de ser socialista. Hitler ficava na dele, como sempre fazem aqueles que carregam qualquer fardo. Pensava em mudar de nome, mas daí vem aquele momento de epifania que costuma foder a minha, a sua, a nossa vida. “E se eu fosse um Hitler do bem”, pensou. Ideia mais babaca não haveria de nascer nos próximos cem anos.

E lá foi Hitler concluir o curso de Ciências Sociais e militar pelos pobres na Somália, nas Filipinas, em Muzambinho e outros fins de mundo. Onde houvesse um pobre sofrendo, lá estava Adolf Hitler da Silva pronto para gritar que o povo não era bobo, abaixo a Rede Globo. Viajava de avião, de carro, de camelo, a pé. Onde houvesse injustiça social, lá estava o super Hitler pronto para combater o mal, com o perdão da rima pobre.

Os anos passaram e Adolf Hitler da Silva foi parar na ONU. O primeiro-ministro de Israel chiou, o da França riu. Pregando a paz, o fim do armamento nuclear e outras utopias, falando 17 dialetos e outras tantas línguas. A imprensa delirava, as organizações não governamentais ficavam confusas e a vida seguia. Sentia que as coisas mudavam. Que aquele nome, outrora sinal de intolerância, de maldade, de filha da putice sem fim, entraria para história agora como um anjo dos pobres, um santo dos desvalidos, a Madre Teresa que deixou o nazismo.

Até que Hitler morreu. Deixou esposa e dois filhos, João e Beatriz, porque essas coisas não são hereditárias. Os funcionários da ONU se juntaram no velório para lembrar o senhor amável que dava bom dia a todos. O premiê de Israel pediu que o nome não fosse mais citado na casa. O da França, riu. E alguns jornais, no dia seguinte, recordaram a história: “Morre Adolf Hitler. De novo.”.

Ao Serra o que é do Serra

José Serra vaga maltrapilho pelas ruas de São Paulo. Pouco cabelo, dentes podres porém afiados, vive a gritar com tudo e todos na região da Praça da Luz. Poucos lembram do dia da posse quando José Serra subiu a rampa do Planalto aos gritos e, para surpresa da multidão, agarrou a faixa presidencial e ficou a chamá-la de sua. Retirado pela segurança, foi diagnosticado com uma doença completamente nova na medicina, uma espécie de cleptomania política, e aos poucos acabou esquecido pelo país, pela cidade e pelo bairro.

Se engana quem pensa que o ex-candidato é um pobre coitado. Serra finalmente conseguiu um governo para chamar de seu. Com as caixas de papelão que recolhe nas ruas, constrói creches, escolas, instituições financeiras. A pouca comida que recebe distribui para as pombas da região. Perguntado se não é assistencialismo, Serra ressalta que hoje a ideia do Estado Mínimo se perdeu em uma cornucópia de grandes corporações e presidentes que posam para fotos em revistas semanais.

Quando um grupo de ratos novatos chegam ao feudo serrista, são saudados com festa pelo político. “Vejam, que belos novos cidadãos temos aqui”, diz. Apesar disso, o ex-governador entrevista a todos, como forma de saber se são bem vindos ao seu pequeno país. “Tenho que agir em reciprocidade a lei brasileira”, relata. Após uma rápida conversa, os ratos são aceitos pela imigração.

Uma característica dos tempos de governador permanece em José Serra: o cachorro Fleury está sempre a postos para manter a lei e a ordem nos cerca de cinco metros quadrados que o governo serrista ocupa. Vira lata com anos de experiência, Fleury costuma rosnar para todos que se aproximam do país. Segundo Serra, “o Fleury é uma figura enérgica, como todo Estado deve ser para manter sua soberania”. Questionado pela reportagem sobre possíveis crimes cometidos antes do cargo, Fleury abanou o rabo e saiu para ver frangos na padaria.

Os populares que passam pela rua têm sentimentos ambíguos sobre o ex-candidato. “Sempre foi um coitado”, diz Maria Almeida, 27 anos. Já para Jose Carlos, 30, Serra é “uma vítima do sistema cruel que é a política”. Opiniões a parte, Serra acredita que está fazendo uma ótima gestão em seu pequeno país de cinco metros. “Pode ver em qualquer pesquisa que meu índice de satisfação é maior que do presidente atual”, diz. Antes de sairmos, o ex-prefeito nos chama para mostrar sua joia da coroa: a faixa de presidente roubada anos antes. “Não é linda? E é minha. Só minha. MINHA PRECIOSA”.

Nas ruas sagradas de Jesus

Não basta morar debaixo da melhor ponte de São Paulo, ter um paletó de tweed de no mínimo dez anos e sapatos com sola inteira, conseguir comer pelo menos um virado a paulista por semana e ser mais um mendigo do Brasil. Jesus agora quer duas caixas de papelão para ter a melhor habitação da Cidade Jardim.

Com nome de filho de Deus e herdeiro de uma miséria a perder de vista, Jesus Nazareno da Silva não é um mendigo comum. Primogênito de mãe fugida e pai desconhecido, o jovem senhor de 25 anos vive em um mundo bem próximo ao do seu homônimo famoso. “Cada dia é uma cruz que carrego, em forma de carroça de papelão”, conta. Amante das guimbas de cigarro, tem em sua coleção uma bituca de John Player Special, conseguida em 1998 e conservada. Quando quer badalar, aparece no sopão da Sé para confabular com amigos a alta do preço das bebidas e os eventos da cidade nos quais o ILC (Índice de Latinha por Cachaceiro) é tão alto quanto o Dow Jones em dias bons. E assim como Jesus Cristo, Nazareno exibe a forma física de um flagelado: o peso é desconhecido há tempos, mas não deve passar dos 60 quilos bem conservados graças às sobras de restaurantes, sem contar o bíceps de 20 centímetros construídos com o dia a dia de carroceiro. Tal silhueta – e a falta de patrimônio – lhe garante sucesso com mendigas, crackeiras e outras figuras únicas da noite paulistana. Com poucos prazeres ao alcance, o mendigo poderia simplesmente circular pela cidade frequentando as melhores bocas e os melhores muquifos. Mas ele quer mais.

A coroa de espinhos do príncipe da paz

Quando repousa sua cabeça na edição de setembro de 2009 do Financial Times – “encontrei na Paulista, os gringos são os melhores” – Jesus sonha em repetir o sucesso do seu homônimo no pós-vida. E a partir desse sábado ele começará seu novo empreendimento. “Arrumei umas pedrinhas e vou começar a distribuir, na míuda, aqui na Sul. O mercado está em alta, com demanda e pouca concorrência”, explica, como se fosse leitor diário do Valor Econômico. “Cresci ouvindo minha mãe dizer que eu era um vagabundo e isso serviu de estímulo para meu modo de vida”. “Sempre engolia seco quando ela dizia isso, mas hoje engulo com uma dose de Sapupara”.

A grande referência para Jesus é o Tolói, o primeiro mendigo que lhe deu ajuda na vida. “O Tóloi foi um grande amigo e um grande mestre. Desde como conseguir uma grana para a pinga até a melhor roda para a carroça, aprendi tudo com ele”. Desde menino, o acompanhava em mendicâncias na Rua XV de Novembro e na região da Sé. “Eu sempre estava com o Tolói até o dia que uns playboys queimaram ele. Nesse dia resolvi deixá-lo porque na rua é a lei do que mais corre. Mas o que me fascinava no Tolói era o espírito empreendedor dele. Ele foi um dos primeiros caras a entregar as latinhas já amassadas para os caras da reciclagem”.

Além da figura paterna de Tolói, outro ídolo para Jesus é o escritor Charles Bukowski. “Não conheço muito da obra do cara, porque não sei ler, né? Mas uma vez uma noinha que eu dava uns pegas me contou que o cara era tipo eu, mendigão estilo de vida e daí curti”. Mas essa aproximação com Bukowski rendeu a Jesus um preço alto. “Outro dia fui falar dele na rua, lá na Paulista, quando estava andando, daí um monte de moleque riquinho chegou achando que eu era todo intelectual perdido, deu maior merda e nem me pagaram um rabo de galo”.

Apesar de não cuidar muito da aparência, Jesus tem fama entre as mulheres. “Amigo, nessa caixa de papelão do Magazine Luiza já deitou muita princesa”, conta. A atual, Vanderléia, tem 27 anos e o cabelo mais sujo já visto pela humanidade. Sorri com a língua entre os dois dentes e sofre de uma luxação no pé direito, possivelmente causada pelo excesso de álcool. “Quando conheci a Van, foi amor a primeira vista”, recorda. “Estava tão apaixonado que quis fazer um agrado, mas não queria mostrar que eu estava bem de vida na rua. Então comprei meio pão com mortadela, por R$ 1,25, porque não queria ostentar”. Algumas semanas depois, já com o relacionamento consolidado, Jesus deu de presente um skate para ajudar na locomoção da amada. “Consegui com um nóia, que veio aqui e empenhou por R$ 4, uma fortuna, mas vale tudo para a princesa”.

O universo que Jesus gravita é, de fato, um mundo paralelo, onde a lógica tradicional se encontra em suspenso. Sua estreia no mundo dos negócios começou como catador de latas na Praça da Sé. “Achava a escola muito puxada, por isso decidi ir para a rua”, conta. Hoje empresário de sucesso no ramo de entorpecentes, Jesus não nega seu passado empreendedor. “Sonho um dia em reciclar as latinhas que eu pegava e transformar em cachimbos para a clientela. É o que é chamado de venda casada, não é?”.

Pobre, desdentado e aparentando ser mais velho do que realmente é, Jesus gosta de badalar. “Sempre dou um pulo com os amigos ali na Paulista para dar aquela dormida no Parque Trianon depois de umas vinte doses de cachaça”. Para locomoção, ele as vezes tomas o skate da namorada emprestado. “Enquanto ela fica na batalha dos pedidos, eu tô exercendo meu papel de macho alfa”. Sucessor direto de ninguém, Jesus tem um longo caminho pela frente. Aos que duvidam da sua capacidade e destreza de viver sem banho, sem comida e sem uma cueca limpa, é bom lembrar que Jesus de Nazaré também foi desacreditado. Nada impede que o representante de sabe-se lá quantos milhares de crucificados, com seu nome de salvador, seus músculos mirrados, sua falta de empenho e a falta de capital, seja um dia chacinado nas ruas de São Paulo por uma gangue de malucos ou por moços ricos e entediados. Mas, se bebesse menos e lesse mais, mesmo que fosse apenas biografias de grandes mendigos como Bukowski, Joe Gould e tantos outros, suas chances – e sua vagabundice – seriam ainda maiores.

PS: Esse texto é uma homenagem à aula magna de jornalismo que a Veja Rio deu com essa matéria. Vão com deus.

Arrebatador

It’s the end of the world as we know it…

Alguns estavam no parque, deitados uns na vertical, outras com a cabeça apoiada na barriga, na horizontal, a apontar coisas e rir, a ler, a ouvir. Outros trabalhavam nas portarias, no transporte público, na Receita Federal. Tinha gente fumando, gente bebendo, gente cheirando. Uns que matavam e outros que morriam antes da hora. O fato é que ninguém acreditou, porque era a décima, décima primeira vez que o mundo acabaria?

A maioria passou alheia ao evento. As piadas surgiram, as reclamações das piadas surgiram. Teve meia dúzia de gatos pingados que acreditaram, para despeito dos escaldados. Esses diziam que agora ia, como se fosse a crença em um gol ou na loteria. O que é engraçado, porque parecem que torcem para morrer só para ter razão, mas devem se deprimir ao lembrar que não haverá ninguém para escutar um “EU DISSE” ou ler a placa “EU JÁ SABIA!”.

E o evento mais uma vez atrasou. Deixou para a próxima. Talvez nos ache gente boa. “Pô, matar aquela galera agora?”. Algum maldoso pode soltar “Mas se liga no que eles estão fazendo”, ao que o evento responde “Deixa os caras, eles estão se divertindo, larga de ser careta”. Porque o evento sabe que não somos planeta que se cheire. Mas vai, estamos melhor que nossos irmãos aí da galáxia que nem dão as caras na rua para falar “Olha só, estamos afim de um contato, um alô, um Follow Galaxy”. Certeza que ele volta daqui uns anos. E quando isso acontecer, vai mudar de ideia e arrebatar outras bandas pois as pessoas estarão cheirando, fumando, bebendo, trabalhando, apontando, lendo, rindo, odiando, amando, ou só bobolhando.

…and I feel fine.

O assassinato de Osama Bin Laden pelo chapado Barack Obama

Isalamabad – Paquistão

Osama: Ae mina, chega aí, vai aonde?
Mina: Vô ali Osama.
Osama: Traz um mojito, quebra essa pro Barba?
Mina: Claro, Barbinha!
Ahmed: DAE OBAMA!
Osama: Se liga ae, Sharon.
Ahmed: Tá nervoso sangue?
Osama: Tô com aquela coceira no calo, manja. Aquela que me dá um toque de que vai dar merda…
Ahmed: Ô, qual é Osama. Tá com o dominó aí?
Osama: Tá na mesa.
Ahmed: Ah, então é por isso que teu calo tá coçando nego, tá prevendo a tragédia do domi…

[barulho de tiro]

Osama: AHMEEEEEEEEEED? AHMEEEEEEEEED? SEUS PUTOS!

[barulho de coronhada]

Casa Branca – Washington – EUA

Obama: SE LIGAL BILL que vai passar aquele episódio do Family Guy que o Hitler fuma maconha é o melhor hahahahahahaahaha.
Bill: Só é presida! Agora libera o refém aí que tá osso.
Obama: Se liga aí Bill,  sou eu que mando nos goró e nas paranga.
Bill: Mal ae maconheiro-em-chefe.
Obama: Se liga, o BO tá tocando. Alô?
Bob: Alô presida se liga na fita pegamos o Mulambo!
Obama: Mulambo qual?
Bob: O Osama, seu xará!
Obama: Para de dar teco seu loco tô vendo seu nariz branco daqui!
Bob: Tô na real presida, o bico deu goela que o Mulambo tava em Islamabad com as mina e os mano!
Obama: MALANDRO VOU ESPALHAR O CAÔ QUERO VER ESPALHAR ESSA BRISA LOCA DO DOMINGO ABRAÇO BOB BOM TRABALHO SEU NÓIA.
Bob: Falou presida, aquele salve.
Bill: Que pega?
Obama: MATARAM O OSAMA CÊ TÁ LIGADO COMO TÔ VIDRADO NISSO?
Bill: HAHAHAHAHAHA TÁ NA MÃO DO PALHAÇO NÉ LOCÃO?
Obama: SE LIGA QUE SOU O PRESIDENTE TÔ FRITANDO VOU ALI COMUNICAR MEUS CHEGADOS QUE TÔ NA CRISTA DA ONDA ESCULACHEI NAS ARÁBIAS MAIS QUE O ALLADIN E O GÊNIO!
Bill: Puta filme maneiro para ver chapado.
Obama: Segura o VHS aí que eu já volto.

Eu sou ditador mas tô na moda…

- Sério, preciso te falar uma coisa.
- Diga lá!
- Posso mesmo? É que você é ditador e tal, e sabe como é, não é prudente falar as coisas…
- Fala ae, pô. Tô mandando!
- Bom, isso me coloca numa sinuca de bico porque agora é ordem e…
- Puta que o pariu…
- Tá bom. O lance é o seguinte: já pensou  em usar um terno?
- Como?
- É, um terno. Vê só, tava tudo muito bom, tudo muito bem. Só que você sempre sai na rua com essas roupas malucas. Parece que você é um dos filhos de Ghandi com o Jim Morrison, é tudo muito louco…
- E?
- Daí chama atenção né. Se fosse só um terno, sem aquele monte de condecoração que sabe-se lá como você ganhou,  tudo seria mais simples.
- Entendi…
- Ou uma coisa mais simples, sabe, não precisa ser necessariamente um terno. Pode ser, sei lá, uma calça social, uma camisa normal, nada com muita cor e com muito pano. Você tem uma ditadura, não uma festa a fantasia. Se fosse o segundo, era mais legal ir, sei lá, de Batman ou de Elvis.
- Mas eu curto, é meu estilo. Uns têm uns bigodões, outros um chapéu bacana. Eu tenho essas cortinas aqui.
- Sei, estiloso mesmo  se vestir como se fosse o Cauby Peixoto…
- Pô, pareço mesmo o Cauby?
- Para caraleo!
- Chama aí meu assessor para roupas especiais que vou dar um tapa no visual. Vou chegar na ONU com a cara do Chico Buarque e quero ver se a Hillary nnão vai se derreter. Ela vai me querer, eu sei.

O mundo seria mais pacífico se os líbios pudessem falar com fraqueza. Ou menos ridículo, vai saber.

Apocalipse humano

Capítulo 1 – O bar mais próximo

É desconhecido quando o primeiro zumbi virou humano. Sabe-se apenas que ele saiu a procura de um bar e, quando encontrou, bebeu cerveja vencida como se fosse recém fabricada.

O fato e que as coisas iam bem desde que o último humano teve o cérebro devorado e virou um ser que caminha como um bêbado em uma daquelas pontes dos filmes de Indiana Jones. Cerca de quatro anos após o ultimo ataque, os zumbis evoluíram e muito, criando escolas, centros de pesquisa e uma fábrica de cérebros com faturamento de fazer inveja a qualquer gigante de mercado quando os humanos ainda existiam. Isso sem contar, claro, a involução intelectual, responsável pelo fim dos dilemas, das religiões, das formas de pensar antagônicas e, principalmente, do fim da opinião. Esse retrocesso foi de suma importância para a, digamos, desumanidade, vez que sem divergências não há brigas e sem brigas a humanidade evolui pelo menos em qualidade de vida. Ou desumanidade, no caso em questão.

Pois bem, agora o motivo era para pânico. Se um virou humano assim, quase do nada, outros poderiam virar. Em pouco tempo voltariam os tiros na cabeça, as caçadas sem misericórdia, toda aquela histeria com aqueles que eram e que voltarão a ser “os mortos vivos”. Algo precisava ser feito. Rapidamente.

Antonio Mascarenhas vestiu seu terno puído, beijou o lado da face que ainda restava da esposa, coçou com cuidado parte do crânio exposto do filho mais novo e saiu para o trabalho. Saiu de casa e avistou a pilha de automóveis destruídos, as casas caindo aos pedaços. Encontrou o vizinho a porta, também de saída.

“Booooooooooooom diiiiiiiiiiiiiiaaaaaaaaaaaa”, disse sôfrego.

“Diiiiiiiiiiiiiiiiiiiaaaaaaaaaaaaaaa”, respondeu o vizinho, como se estivesse a beira da morte.

Antonio foi andando a passos lentos e nem um pouco decididos. Para ele era uma bela manhã. Ele só não sabia o que estava reservado naquele dia.

O Escritório de Assuntos Zumbis amanhecera agitado. Funcionários corriam, ou melhor, andavam lentamente de um lado para o outro, preparando documentos para a declaração oficial sobre a novidade: um humano acordara entre eles aquela manhã e isso só poderia ser ruim. Estagiários colhiam todos os documentos que não foram destruídos, advogados discutiam como bater de frente com a Liga dos Zumbis Pela Humanidade que, ao que parece, começaria de novo a atuar em defesa dos “vivos-vivos” como eram sarcasticamente chamados. A equipe de relacionamento de imprensa do presidente preparava um discurso para acalmar a população e o serviço secreto trabalhava para descobrir se era um fenômeno mundial. Antonio deu bom dia a todos em sua sala quando chegou, mas quase não foi ouvido.

Quando acordou de um sonho estranho, Carlos teve a sensação de que precisava ir ao banheiro. Não que necessidades fisiológicas fossem uma constante na vida de um zumbi. Ao contrário, por não se incomodarem com o cheiro podre que emanava do povo mais do que o poder da constituição, suprir esse tipo de necessidade estava fora de cogitação. Mas uma estranha e súbita sensação fez com que ele partisse em direção a privada fora de uso há anos e despejasse dentro dela toda a urina que estava em sua bexiga. Deu descarga e, mecanicamente, foi ao espelho mais próximo. Um escorregão, próximo a um desmaio, quase causou um acidente. Carlos não tinha mais a órbita do olho esquerdo inteiramente a mostra. A sua bochecha direita estava inteira, como era antes. E seu cabelo, apesar de ainda um pouco ralo, estava maior. Bem maior. Sentiu um cheiro nauseabundo, como se estivesse no meio da maior pilha de podridão que o homem fosse capaz de fazer. E estava.

Correu em direção a sala e olhou para rua. Viu o vizinho da frente, o Aristeu, devorando um cérebro brilhante, não no sentido einsteniano da coisa, mas sim brilhante como o luar, um diamante, um quindim bem preparado. Sentiu vontade de vomitar, mas guardou para si junto com um grito de horror. Seria imprudente e deselegante atrapalhar o  jantar de um morto-vivo.

Revirando as gavetas em busca de uma muda de roupa que não tivesse virado uma pilha de trapos fedorentos, Carlos encontrava fotos antigas. Via nelas o mesmo cara que viu no espelho minutos atrás, com um pouco mais de cabelo e uma cor melhor, mas ainda assim o mesmo cara. Precisava sair dali antes que fosse descoberto. Cérebro enlatado poderia ser bom, apesar da ânsia de vomito causada por sequer pensar em comer aquilo, porém um fresco, recém saído de uma caixa craniana era tão raro quanto um bife em uma situação como aquela. Pensou para onde poderia ir, se haveria mais alguém que tivesse passado pelo mesmo que ele passara há pouco, se haveria mais humanos. Riu quando se lembrou do termo “vivos-vivos”. Achou uma roupa decente e foi ao bar.

 

Fidel em deus quem é justo

Havana. Aquele sol quente, brisa fresca, clima caribenho, rum jorrando como água. Duas horas gastas num Cohiba e papo animado.

- Amanhã eu falo.
- Tem certeza?
- Ô se tenho. Não dá mais. Esse sorvete me cansa.
- Mas você tem do bom e do melhor. Até tênis Nike, uísque, essa porra toda você tem.
- Mas imagina nós de Audi, ou de Citroen, indo aqui, indo ali, sem essa de polícia.
- Você nem toma a porra do sorvete do Estado.
- Essa ilha tem o cheiro dessa desgraça.
- Mas vai dizer o quê?
- Que esse modelo econômico não dá mais. Vou abrir as portas para Miami.
- E o Che?
- Se fode.
- E o Raul?
- Pau no cu.
- E o Cienfuegos?
- Não tenho rima para esse não.
- Você vai jogar fora tudo que foi feito em Sierra Maestra?
- Vou, tô nem aí. Nem Marx pode me julgar.
- Mas pensa na molecada nas faculdades, que gosta de arrotar esse monte de coisa.
- Se deram Mao, hohohohohohoho.
- Tá bem Fidel?
- Tô morrendo. Tenho esse direito. Quando a gente ama qualquer coisa serve para relembrar. O Capital da mulher amada tem muito valor.
- Você tá é bêbado igual ao Stálin…
- Eeeeeeeeeeeeeeee hoje, o que encontrei, me deixou mais triste, um pedacinho dela que existe,  um Livro Vermelho no meu paletóóóóóóóóó…
- Sotomayor, fecha a conta!

E carregando o ditador, dois funcionários pensavam como será bom o dia em que toda essa história de comunismo acabar. Não para votar, ter parlamento, essas bobagens todas. Apenas para poder entrar no Pirate Bay e baixar o disco novo da Lady Gaga sem que o governo saiba.

O inferno em uma casca de noz

Pois o Stephen Hawking morreu. Foi aquela comoção no mundo da Física. Líderes de todo mundo exaltavam aquela mente prodigiosa presa a um corpo doente. O twitter bateu o recorde de piadas infames. Enquanto tudo isso acontecia, Stephen estava lá, cuidando da papelada toda para a grande prova.

- Assine aqui, aqui e aqui.
- E a minha cadeira?
- Mané cadeira, rapaz! Olha lá o Roosevelt jogando basquete.

E sim, o físico viu Roosevelt jogando basquete e não acreditou.

- Desculpa mas… que lugar é esse?
- É o Paraíso.
- Aham, e eu sou o Newton. Sério.
- Então, é o Paraíso
- Mas por que eu vim parar aqui se durante toda minha vida neguei a existência de deus?
- O chefe quer ter uma conversa contigo.

Eis que apareceu o senhor de cabelos brancos, barba rala e terno alvo.

- Dr. Hawking?
- Deus?
- Sim. Mas pode me chamar de Galileu.
- HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!
- Sempre quis fazer essa piada. Mas nunca apressei sua vinda para cá, viu?
- Eu sei. Você me deixou naquele corpo fodido por anos.
- Mal ae. É que é meio burocrático matar as pessoas agora. Nos tempos do Novo Testamento era bem mais fácil.
- Mas então você existe.
- Em carne e osso.
- Ou em algum tipo de matéria desconhecida. E agora?
- Agora o quê?
- Ora, tudo que eu disse foi para o ralo. Durante anos sustentei a hipótese de que você não existia e agora você está na minha frente.
- Ah, isso é passado. Senta aí, que a cerveja tá gelada.
- Posso fumar um cigarro?
- Meu caro, você pode até dançar se quiser.

Os dois conversaram por horas, cada um tirando dúvidas sobre o outro. Deus então pediu dois minutos, precisava resolver um problema pessoal. “Deve ser o menino, sempre foi espoleta”, pensou Hawking e riu.

- Alô, Lúcifer? Aqui é o Joevá, manolo.
- Dae cabeça branca, beleza?
- Tranquilo. Escuta, aquele porra chegou aqui e tô mandando aí para você. Tá tudo pronto?
- Tudo beleza rapá!

Deus voltou com seu melhor sorriso. Encontrou Hawking maravilhado, em pé. Assim que o Todo Poderoso entrou, o físico voltou a sentar e tomou mais um gole.

- Sabe o que mais me deixa intrigado?
- O quê?
- É como você vai viver lá embaixo, com uma  uma cadeira sem rodas e uma Olivetti.

Dito isto, Hawking caiu de uma altura incalculável e chegou ao Inferno.

- Niestzche?
- Te conheço?
- Prazer, Dr. Stephen Hawking.
- Outro herege?
- Sim. Provei que aquele puto não existia.
- Hahahahahahahahahahaha…
- Que foi?
- Você tem voz de máquina de escrever.
- Cala a boca.
- Que música é essa?
- HA HA HA, música, muito engraçado, seu velho babaca.

Do Paraíso Deus ria, mas não desacreditava não.

Detalhes tão pequenos…

Cabelos escuros, pele clara, estatura boa, peso desconhecido porém bem distribuído. Caprichava sempre no vestido, em especial nos dias de calor. Belo decote. Uma amiga anã.

- Qual o problema?
- Como assim “qual o problema?”.
- Ué, qual o problema dela ter uma amiga anã?
- Tá louco? Imagina, você chama ela para sair e ela diz “vou levar uma amiga”. Pensa na tensão que isso vai gerar.
- Ué, pode ser que ela não leve a anã.
- Claro, mas pode ser que ela leve. Você vai no cinema e a menina do caixa pergunta “a filha de vocês tem quantos anos?”.
- Drama…
- Nada! E se for num bar. Todas as mesas obedecendo a ordem das coisas e a sua  mesa com uma anã!
- Pô, puta preconceito!
- Pode ser, e nem peço desculpas. Agora pensa, você vai em uma balada.  Você, a cocota e uma anã…
- Cocota?
- Não perde a linha do raciocínio. Você, a cocota e uma anã. Você tá lá, maior curtição, de repente a anã vai no banheiro e não volta. COMO DIABOS ACHAR UMA ANÃ?
- Hahahahahahahahahaha! Procura no jardim mais próximo, eles sempre ficam por lá.
- Pô, você ri. Tô falando sério!
- Arruma um amigo para ela, oras.
- Você topa?
- Tá louco, não sou do circo.
- Pois então. Eu não tenho amigos anões. Aliás, você conhece algum anão?
- Meu sobrenome é Vostok?
- E o pior de tudo, o pensamento que não sai da minha cabeça: se elas forem daquele tipo de amigas que topam tudo juntas e rola um papo de ménage?
- Pô, eu ia!
- É UMA FUCKING ANÃ!
- E?
- Como “E?”. Uma anã, seu doente! E você disse que não topava.
- Ah, mas aí entra a “cocota”. Falando nisso, meu sonho é arrumar uma cega.
- Cega?
- É, só para falar que a gente não se vê há muito tempo.
- Hahahahahaha, puta merda, por que eu ando com você?
- Sei lá, vai ver porque eu não sou anão…

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 33 outros seguidores