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Da boca do povo para a boca do sapo

Quando eu conheci a Lelê, na faculdade de jornalismo, ela estava de camisa do Corinthians e calça big. Não olhei porque achei que ela ia sentar a mão na minha orelha. Eu não sei nem pregar prateleiras, quem dirá a paz. Mas enfim, a gente foi conversando e quando vimos já estávamos fazendo trabalhos juntos, faltando a algumas aulas importantes onde o professor falava que Van Helsing era melhor que Kill Bill e tomando cerveja por aí.  Eu já sabia que ela entendia do riscado e, por isso, não é surpresa ver uma das melhores matérias do jornalismo esportivo assinada por ela na edição do Meia Hora de hoje.

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Deu um puta orgulho ter dividido aqueles bancos leprosos da São Judas com ela.

Meu primeiro jornal enrolou um mendigo

É quase certo que um texto “sério” nunca baixou por estas bandas. Mas como recordar é morrer de vergonha, achei duas matérias minhas que foram publicadas em um caderno especial do jornal da faculdade, o Expressão – nome ridículo é mato – sobre os 60 anos da Segunda Guerra Mundial. Se a memória não erra, a sugestão do tema foi minha. Na época eu era fissurado pela Guerrona e pelos comunas. Mas não era muito fissurado pelo estudo vez que, dos entrevistados, só o Junior existe. Os outros são fontes imaginárias da minha mente nada brilhante. Aviso de antemão que o texto é uma droga pois, se escrevo mal hoje, imagina nos tempos de estudante de jornalismo afimzão de mudar o mundo wannabe?

Stalingrado ou Normandia

Júlio César Soares

Durante as comemorações dos 60 anos do fim da Segunda Guerra Mundial, o presidente russo Vladimir Putin declarou que o mundo foi liberto a ameaça nazista graças ao levante soviético contra a Wermacht, o exército alemão. Putin, de certa forma, trouxe à tona um dos debates mais conturbados sobre a Guerra: afinal de contas, sem os soviéticos o mundo sucumbiria ao Terceiro Reich?

Para o historiador Márcio Alvarenga, as declarações do presidente russo têm “certa razão, principalmente se levarmos em conta a resistência soviética em Stalingrado e o contra-ataque em Kursk. Sem o poderio do Exército Vermelho para atacar a frente Leste da Wermacht, dificilmente os Aliados que atacavam a Oeste resistiriam a blitzkrieg (ataque maciço e coordenado contra alvos definidos) das unidades nazistas”.

O debate sobre o vencedor da guerra entre os Países Aliados sempre é suscitado por pontos diferentes. Para alguns historiadores, a vitória do exército aliado só aconteceu graças ao empenho dos soviéticos, que depois da batalha de Kursk atravessaram a Europa e, em menos de um ano, fizeram praça nas ruas de Berlim.

Já para outros, o empenho norte-americano na frente Oeste – apoiado pela Inglaterra, França, Canadá, Brasil, entre outros – contra os ataques eficientes da Wermacht, foi fundamental para o desvio das tropas nazistas do Leste para o Oeste da Europa, ajudando os soviéticos. “Os Aliados que invadiram o Oeste da Europa, em especial os norte-americanos, anularam as provisões nazistas. Um Tiger (tanque nazista) por mais resistente e aterrorizante, não funciona sem gasolina. Neste ponto os americanos foram eficientes, sem contar as resoluções econômicas que ampliaram a influência norte-americana sobre a Europa no Pós-Guerra”, diz o especialista em Segunda Guerra
Mundial, Álvaro Martins.

Posterior à guerra, o conflito entre soviéticos e norte-americanos durante à Guerra Fria aumentou as especulações sobre quem foi fundamental para a queda de Hitler. A definição do especialista em Segunda Guerra, José Costa Júnior, talvez seja a mais livre de propaganda de ambas as partes. Para Júnior, “ao aliados venceram a Guerra. Americanos, ingleses, soviéticos e as outras nações que combateram o nazismo”.

Berlim é vermelha

Foram 2.195 dias de guerra. Mais de 50 milhões de mortos (cerca de 20 milhões de soviéticos e quase 6 milhões de judeus assassinados nos campos de extermínio nazistas). Entre 100 e 110 milhões de pessoas envolvidas em batalhas, provenientes de 61 nações. Batalhas que se estenderam
por mais de 11 milhões de quilômetros quadrados.

Quando a Segunda Guerra Mundial chegou ao fim, a população mundial não tinha sequer noção desses números. Apenas chorava por ter presenciado as maiores atrocidades até então já vistas.
Hoje, 60 anos depois, o mundo ainda se assusta e se indigna com o que aconteceu de 1939 até 1945.

“Os números poderiam ser ainda mais assustadores se o Reich tivesse durado todo o tempo prometido pelos alemães: mil anos”, conta o historiador Paulo Pereira. Foram apenas 12. “A derrocada do nazismo de Adolf Hitler começou com as batalhas de Stalingrado, Kursk e da Normandia (Dia D). Em Stalingrado, o exército alemão viu que poderia ser derrotado”, explica o historiador.

Cerca de 185 mil aliados invadiram as praias francesas. No dia 6 de junho de 1944, o Dia D, 75.515 soldados britânicos e canadenses e 57.500 americanos desembarcaram pela costa da Normandia. Outros 7.900 e 15.500, respectivamente, foram pelo ar. Hitler deslocou as tropas que controlavam a área de Kursk, na União Soviética, e mandou seus tanques cobrirem a invasão americana na Sicília, a oeste. Com isso, deixou que os comunistas batessem a porta do Führerbunker, abrigo de Hitler em Berlim. “Daí para o fim foi um questão de meses”, diz Pereira.

Ao perceber a aproximação das tropas soviéticas, em 30 abril de 1945, Hitler preferiu a morte. Seus restos jamais foram encontrados e há quem diga que ele tenha dado ordem a um cabo para que o matasse com um tiro e enrolasse seu corpo em pneus, incinerando-o e tornando qualquer identificação impossível. O suicídio ainda é a versão mais provável.

No mesmo dia, o exército vermelho chegou a Berlim e os homens do marechal Georgi Zhukov invadiram a sede do Reich. “Quando a bandeira com a foice e o martelo já tremulava no topo do Reichstag (Parlamento Alemão), os nazistas, sem Hitler, se renderam. No dia sete de maio, o general Alfred Jodl assinou a rendição”, conta o historiador.

Depois do fim da participação alemã na Guerra, faltava a desistência do Japão, último do eixo. A Itália já havia se rendido em 1943. Com o lançamento da bomba atômica pelos norte-americanos, o imperador do Japão foi obrigado a assinar o ponto final da guerra e declarou na época: “O inimigo começou a lançar uma nova e aterrorizante bomba, capaz de matar muitas pessoas inocentes e cujo poder de destruição é inestimável. Se continuássemos a lutar, isto significaria não apenas o fim da
nação japonesa, mas também levaria ao extermínio completo da civilização humana.” Hirohito, o imperador, não exagerou. Os bombardeios castigaram suas cinco principais cidades – Tóquio,
Osaka, Nagoya, Kobe e Yokohama – e destruiu Hiroshima e Nagasaki.

“Ei Cabral, pega minha nau”, disse Colombo

Não tinha como dar certo, não é mesmo? Afinal de contas, o descobrimento do Brasil já começou como feriadão na Imigrantes: dias de viagem capazes de corar qualquer programa de índio como rave em uma oca, por exemplo. Daí o Pedro Álvares, sem poder usar o salvador Goolge Maps, ainda erra do caminho e vai parar em Cubatão. Pior que isso só se ele descobrisse a Argentina.

Mas Pedrão é paulistano e não desiste nunca, nem mesmo em um feriado. Chegou e pediu para o Caminha postar alguma coisa decente sobre o país, para que o Rei de Portugal visse o post três dias depois. Grande Speedy!

Pero Vaz – ou Peroba como preferiam os índios – viu aquele vasto território de bacanal e vaticinou que “nesta terra, em se plantando, tudo dá”. E qual nome dar para o país que acabara de nascer sob o auspício português?

- Ô pá, por que Brasil?
- Oras pois, porque sim!
- Não podemos chamar de Augusta? Vila Mimosa?
- Tá vendo aquele índio ali?
- Tô.
- É belo.
- É. E forte.
- É impávido.
- É colosso.
- É o Brasil.
- Diz aí pro Rei que a cá neste pedaço de terra, inspira-se a veadagem.

Sem contar que, imaginem a situação de Pedro Alvares Cabral: feriado de Tiradentes e o Rei o manda explorar umas águas aí, para quem sabe achar algo. Quem sabe, nem era certo se o Brasil existia ou não (afinal, não sabemos de nossa existência até hoje, quem dirá nos tempos das naus portuguesas). Ou seja, Pedrão ia passar na locadora, pegar uns filmes, chamar a Maria e encher a cara de vinho do Porto. De repente o Rei, este puto que vai passar o feriado com os frescos da França, resolve por o homem para trabalhar. Só podia dar merda.

Pedrão, cheio de má vontade no coração, navegou, navegou, navegou mais um pouco e, quando pensou ter achado algo, navegou mais porque já estava na paranóia do crack. Muito louco de pedra, Pedro (pega eu, Vinicius de Morais) escuta alguém gritar “Terra à vista” e, pouco se fodendo para a forma de pagamento, resolve atracar seus barcos neste país.

Vejam, Pedro Alvares Cabral era o Chevy Chase lisboeta. A culpa é dele. Não do Sarney, do FHC, do Lula ou da Mulher Moranguinho. Única e exclusivamente de Pedro Alvares, o Cabral.

Desopilando traumas do passado

Talvez seja implícito que eu fui um moleque muito do cuzão. Nunca fui de brigar e, apesar de aprontar uma aqui e outra acolá, normalmente fugia das brigas na praça – religiosamente realizadas depois da escola. Porque eu era meio bobo (meio?) e só não me tomavam a lancheira pois eu não a tinha. Assim como não me tomavam o dinheiro do lanche porque eu não tinha dinheiro do lanche. Menos ainda me tomavam a merenda da escola pois eu era um dos poucos que tinha coragem de mandar para o estômago o rango do Estado.

Um aparte: se servissem a merenda da minha escola em Auschwitz, o mundo tomaria uma atitude contra o Holocausto. Incluindo aí nesse “mundo” a Alemanha.

Pois bem, haviam duas coisas na escola que me faziam tremer mais do que os notórios valentões que batem nos moleques mais nerds: o dentista e a Loira do Banheiro. O dentista, todos conhecem, é o profissional filho de uma puta que ganha uma grana violenta para te fazer passar por sessões que transformam as torturas no DOI-Codi em um passeio pelo vale encantado.

Já a Loira do Banheiro é um mito que muda de escola para escola. Na minha, por exemplo, tratava-se de uma professora muito da burra, porém déspota. Certo dia essa professora humilhou uma de suas alunas e foi ao banheiro (!?). Ao chegar no recinto, sentindo-se pesarosa pelo ocorrido, foi encostar a cabeça na parede, aquela clássica cena de filme brega. Só que o vergalhão que estava bem onde a mestra encostou a cabeça fazia figuração para o Hellraiser. Voilá, a mulher morreu e, puta da vida com os pupilos, resolveu que ia atanazar a vida de qualquer estudante no banheiro.

Certa vez, ciente de que o dentista ia para a classe “aplicar o fluor”*, disse para a professora que ia ao banheiro fumar um cigarro e pichar a parede para depois ser repreendido pelo Sidney Poitier. A mestra acreditou e lá fui eu comemorar a minha alforria. Só que, mal cheguei no páteo, o torturador descia com as pobres vítimas da “aplicação do fluor”. Única solução encontrada por esta besta: se esconder no banheiro.

Daí que eu fiquei na porta. Por um lado, me cagava de medo da sessão Josef Menguele. Do outro, me borrava com o caso do poltergeist que assombrava as escolas aqui e alhures. Encurralado e sem encontrar solução para o problema, não pensei duas vezes.

Mijei na porta do banheiro da escola. Nem para a Loira, nem para o dentista.

* Aplicar o fluor: técnica hitlerista usada pelo dentista (reparem, rima com nazista) da escola, que seguia os preceitos das chuveiradas de Ravensbrück. Eu acredito piamente que os alunos “expulsos” da minha escola foram aniquilados sumariamente por conta de sua insurreição contra o Sistema opressor que não deixava os caras mais velhos fumarem unzinho em paz no banheiro da escola. Mas não, a Loira do Banheiro não é uma invenção do Sistema. Eu mesmo a vi e deixarei este trecho para um outro dia.

Tu te tornas eternamente responsável pela trepada que não liberas

Devem existir duas coisas nas quais eu sou bem sucedido. E eu desconheço completamente uma delas. Talvez eu seja bom, fodão mesmo, em aquecer urânio nas usinas do Irã. Mas e aí, como eu vou descobrir isso? Na terra dos Aiatolás não se toma cachaça e nisso, modéstia a parte, eu tenho momentos de glória (bem como grandes fracassos, ok).

No mais, sempre que possível eu me fodo. Aliás, até quando não é possível, quando tudo está mais do que certo, eu consigo me foder. Ou eu estrago tudo ou o mundo conspira. Mas o da reta é sempre o meu.

E se existe um tópico no qual eu me fodo bonito, de verde e amarelo, são as mulheres. Eu já vi grandes fracassos com mulheres e a maioria eram meus. E eu me fodo mais ainda quando se tratam de mulheres muito bonitas.

Em contrapartida, existe a Lei do Retorno. Uma grande a amiga, a Lelê, me explicou certo dia como funciona o lance: quando alguém te fode, o Destino, o Acaso, o Grande Fodão ou você - por meios que envergonhariam Don Corleone – acabam por foder essa pessoa mais tarde. É como Kill Bill, porém sem os cinco pontos que explodem um coração.

E hoje o tema Lei do Retorno vai tratar de uma menina da faculdade, que chamaremos de Lorena (homenagem a Lorena Bobbit. Entendam como quiser). Lorena era linda, mas linda mesmo. Acredito que ainda seja, porque não se perde aquilo tudo que ela tinha nem com maré de azar em Vegas. Pois bem, eu era afim da Lorena. Sonhar não custa nada e pobre adora uma boquinha livre.

Ela, por sua vez, não dava bola para mim. Desculpem, falo o óbvio. E eu, sempre tive essa virtude dos trouxas, fazia de tudo pela mulher. Trabalho de faculdade, assinatura na lista de chamada. Se ela precisasse dar fim em alguém, eu ia numa boa. Sempre achando que um dia meus préstimos seriam reconhecidos e eu finalmente poderia comê-la dos pés à cabeça. Quatro anos se passaram e o saldo disso foram noites de masturbação e a certeza de que ela nunca daria para mim.

Além disso, ela chegou a ficar com um amigo meu. Esse amigo pegou e tal, mas depois foi embora pois, reza a lenda, Lorena era doida. Nunca quis ficar comigo, índice de sanidade 100%, mas era louca. Acredito que ainda seja, porque não se perde aquilo tudo que ela tinha nem com maré de azar em Vegas. Daí esse amigo viajou para um país do outro lado do Pacífico e, meses depois, ela foi atrás. Isso rendeu o seguinte diálogo:

- Caraleo, ela atravessa o Pacífico para dar para o cara! Eu tô aqui doido pra comer e porra nenhuma!
- Júlio, você é muito loser…

Para dar uma piorada na novela, a Lorena tinha uma vibração de Angela Rô Rô. Piorada uma ova, puta fetiche e tal. Ela “era afim” de uma amiga minha e eu passei o quarto ano todo de faculdade pedindo para pelo menos ver a cena. Já que eu não ia comer mesmo, tinha que ter algum bônus na coisa toda. A história não rolou, as pessoas se formaram e Lorena sumiu.

Quer dizer, até hoje, quando a Lei do Retorno bateu forte. Lorena era uma bem sucedida assessora de imprensa de uma grande companhia de vinhos. Lorena viajava a trabalho e tinha acesso ao produto que vendia a imprensa. Lorena era linda e tinha fetiches lésbicos. Era o sucesso estampando sua beleza na minha cara. Eu, por outro lado, trabalhava como vendedor e fazia jornalismo. Dã.

Já hoje, Lorena trabalha no call center de uma empresa qualquer. O namorado, herdado do último ano de faculdade, terminou com ela diversas vezes ao longo dos últimos três, quatro anos, e recentemente deu a cartada final. Lorena continua apaixonada pela a amiga da faculdade, mas nunca vai pegar pois esta tem uma reputação a zelar com os pintos do Brasil.

Eu continuo um merda. Mas não estou sozinho no mundo.

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