Tinha doze ou treze anos quando escutei Paranoid pela primeira vez. Foi no clássico Rock and Roll Racing, para Mega Drive. Lá estava eu, empolgado com o jogo e com aquela música sensacional que embalava curvas, armadilhas e toda a sorte de desgraças que acontecia nas corridas do jogo.
Tempos depois descobri o álbum, Paranoid. Para mim, é um dos melhores da história, senão o melhor. Tem a música que dá nome ao álbum, Iron man, War Pigs, Eletric funeral, Planet Caravan e Fairies wear boots. É um baita de um disco, parece até coletânea. Devo ter escutado, sei lá, três anos depois do jogo. Até então minha formação musical eram os CDs do Smiths e do Talkingheads do meu irmão, músicas da Rádio Globo que minha mãe escutava, rap e aqueles R&B farofas da Radio Cidade por parte da minha irmã e um ou outro pagodão por parte do meu outro irmão. Era tão Torre de Babel que tenho medo de olhar para trás e virar sal.
O Sabbath foi, pelo menos que me vem à memória, a primeira banda que fui buscar sozinho. Escutei o Vol. 4 e achei lindo. Spiral Architect talvez seja a melhor música do Sabbath Bloody Sabbath, e por aí vai. Depois disso, corri para a carreira solo do Ozzy. A primeira vez que escutei Bark at the moon eu pirei. Achei que Ozzy era, sei lá, um ser de outro planeta que veio ao mundo para nos dizer o quanto alguém pode ser foda. Perry Mason sempre tocava nos comerciais do Duro de matar quando o filme ia passar na Globo. Era aquela cena que ele joga a cadeira com C4 no fosso do elevador e começa TUM DUM TUM DUM TUM DUM DUM TUM DUM TUM DUM. Achava aquilo fantástico.
Quando a caixa preta chegou em casa, minha mãe pensou ser uma bomba. Explico: um dia antes ela recebeu aquelas clássicas ligações do PCC, cujo teor merece ser narrado.
- Alô.
- Alô, tia?
- Eu não tenho sobrinho!
- A senhora tem neto?
- Tenho…
- Alô vó!
- Seu lazarento filha da puta você é ladrão, vai se foder.
- Ah é? Vou mandar uma bomba para a casa da senhora!
- Ah vá para a puta que o pariu!
Contrariando as dicas de qualquer esquadrão antibombas do mundo, minha mãe abriu a caixa e assustou como se fosse um explosivo com peruca. Expliquei para ela que era uma promoção do pessoal do Oi Acontece, na qual eu concorreria à chance de conhecer o maior cantor do mundo. Pelo menos para mim.
Coloquei a peruca, os óculos, a cruz, o anel de caveira. Preparei, com a ajuda do Junior, um prato de morcegos de chocolate com catchup. Para fazer a vez de sangue, páprica, barbecue e mais catchup. Corri o risco de ter ficar com fissura labial, mas meu amigo, o bem maior era conhecer o Ozzy. Subi a foto na esperança de pelo menos participar. Quando recebi o resultado, no pátio de um shopping de São Paulo, parei atônito procurando alguém para falar “MEU AMIGO EU VOU CONHECER OZZY OSBOURNE MEU DEUS DO CÉU!”.
O maior espetáculo da Terra. Já devem ter usado esse termo para alguma coisa. A primeira sessão de cinema, talvez. Alguma apresentação de Houdini, sei lá. Eu uso para o show do Ozzy, no Anhembi. Fantástico não define.
Quando o Ozzy apareceu no Greet and meet, tremi. Não é sempre que você vê um mito na sua frente. Todos os olhos viram um senhor de um metro e sessenta, meio baleado pelos 40 anos de rock and roll. Mas meus olhos viram o que o Ozzy é: um cara de três metros de altura, com asas de morcego e cauda em forma de seta. Ou então um lobisomem de três metros uivando para a lua. Ao me aproximar, estendi a mão e balbuciei um “Hi, Mr. Osbourne”. Ele respondeu algo inteligível, do tipo “Sharonhowthefuckworkstheseremotecontrol” – igual às falas que víamos no The Osbournes. Perguntei se ele podia autografar minha edição da autobiografia “Eu sou Ozzy” e ele escreveu “Best wishes, Ozzy Osbourne”. Eu tremia feito um paranóico.
Na hora da foto, só sobrou a mão que segurava o livro para fazer o clássico símbolo do metal. Me confundi e em determinado momento mostrei sem querer o dedo médio. Para minha sorte, saiu os chifres, eternizados ironicamente por Ronnie James Dio. Ou para meu azar, porque um dedo médio apontado para câmera ao lado de Ozzy Osbourne me renderia grandes pontos no ranking “coisas fantásticas que alguém já fez na vida”. Mais maluco do que isso, só ver através da janela fadas vestindo botas.
Pontualmente às nove e meia Ozzy começou cantando Bark at the moon. Escondida, a lua deu lugar a uma chuva torrencial, daquelas que dá início a música Black Sabbath, do primeiro álbum da banda. Certeza que havia bruxas voando por perto. Não me importava com o aguaceiro mandado dos céus para talvez calar o Príncipe das Trevas. Ozzy também não e nos deixou mostrar o quanto somos fãs dele:
- LISTEN IN AWE AND YOU HE-HEAR HIM…
O microfone apontou para nós, os mais de 30 mil do Anhembi, que gritamos:
- BARK AT THE MOON!
Daí para frente tivemos Mr. Crowley, War Pigs, Shoot in the dark, Crazy Train, Fairies wear boots. Terminou com “Mama I’m coming home” e logo depois de “Paranoid” veio o famoso “ThankyougoodnightGodblessyouall!”. Ainda ali não acreditava que tinha apertado a mão de Ozzy Osbourne. Como não acredito até agora que tirei uma foto com Ozzy Osbourne. Olho para o autógrafo e penso que tudo isso foi um grande sonho. Daí eu lembro que, no meio de uma chuva torrencial eu estava fazendo o famoso chifre com as mãos, as mesmas mãos que cumprimentaram John Osbourne, nascido em Aston, na Inglaterra, que compôs Fairies wear boots, que mordeu a cabeça de um morcego, que estrangulou e casou com a Sharon, que tem uma filha que foi cocota e hoje é estranha e que, um dia, empolgou um moleque cabeçudo de doze anos que fazia curvas e derrapagens com carros tunados alienígenas.
LET THE CARNAGE BEGIN! TAM DAM DAM TÃRÃDÃDÃ TÃRÃDÃDÃ TAM DAM DAM.
PS: foram mais de 335 mil views na foto, e tanta gente para agradecer que eu já ouço a bandinha do Oscar subindo a música e eu com cara de tacho no palco. Mas de verdade, obrigado a todo mundo que me ajudou nessa história. Eu não sei nem mensurar como foi cumprimentar o Ozzy e devo isso às pessoas que divulgaram, que deram RT, que inventaram mensagens de apoio ao Japão ou de pornografia com o link da imagem, que desencanaram de participar para me dar uma força. Parafraseando o Príncipe das Trevas: ThankyougoodnightGodblessyouall!







