O candidato do churrasco

O ano era mil novecentos e Araci de Almeida. No bairro da Casa Verde, Dr. Alberto Calvo se elegia vereador ano sim, outro também. Uma espécie de Fidel Castro da democracia. Hoje o mesmo Dr. Calvo concorre para a vaga de vereador, representando o povo da Casa Verde, Freguesia, Limão e – grande ironia – Pirituba.

Voltando a Casa Verde da era de ouro, a Casa Verde de vida simples. Crianças na rua, boteco na esquina, gol no portão da metalúrgica. A diversão da molecada era simples mas, como toda e qualquer diversão, precisava de um aporte estatal para acontecer. Foi então que surgiram alguns amigos da rua Atilio Piffer com uma proposta:

- QUEM DISTRIBUIR OS PAPELZINHO DO CALVO VAI GANHAR CHURRASCO NO SEICHO-NO-IE!

Vejam amigos, carne de graça em um centro religioso. Eu faria campanha para o Pol Pot em troca dessas carnes, pois não havia bom senso ou noção do perigo. E assim fui, com outros amigos da saudosa Rua Jaboatão, entregar santinhos do Dr. Calvo que sim, é careca. Missão dada é missão cumprida e acabamos com a papelada. Acredito que alguns jogaram os seus no esgoto, mas até entre as crianças existe a galera da banda podre. Tudo pronto, fomos para a porta do Seicho-no-ie que era a hora da maminha.

Vou divagar um pouco. Neste dia, uma grande lição política nos foi dada. Mais importante que a leitura de Maquiavel, mais necessária que conhecer os escritos de Tocqueville, foi saber desde criança que todo político, ou ao menos a grande maioria, é um filho da puta de marca maior. “Nossa Julio, mas você não acredita nas instituições?”. Amigos, eu fui enganado pela galera do Seicho-no-ie que prega a paz e o escambau. Quero que as instituições sejam erguidas em uma zona de guerra, problema delas.

Volto para contar que chegamos a porta do Seicho-no-ie famintos e com a sensação de dever cumprido. Na porta, o segurança nos olhou incrédulos e perguntou ao líder da molecada:

- Pois não?
- Nós viemos para o churrasco do Doutor Calvo.
- Hahahahahaha, tá bom.
- Nós entregamos os santinhos e prometeram o churrasco.
- Circulando, molecada.

Inflados pela revolta popular que a fome traz aos sofridos, formamos uma linha e começamos a cantar em uníssono:

- Ô CALVO, VIADO, CADÊ NOSSO CHURRASCO, Ô CALVO, VIADO, CADÊ NOSSO CHURRASCO!?

Vocês devem esperar que essa história se conclua com crianças presas pelo Doi-Codi ou que ao menos levaram umas borrachadas para ficarem espertos. Mas os tempos eram outros, mais inocentes. Fomos solenemente ignorados pela campanha do vereador, que certamente saboreava uma incrível picanha enquanto, do lado de fora, crianças trabalhadoras passavam fome. Desistimos depois de meia hora para fazer coisas mais importantes como empinar pipa, tocar campainhas e sair correndo ou descer a Rua Carandaí em cima de compensados de madeira.

Isadora, a nova princesa da paz

Vivemos na era das cores, certo? Na qual não temos mais o preto e o branco, o bem e o mal e de mais Batmans versus Coringas. Hoje tudo é relativo, até mesmo a relatividade. Mas por mais que tentemos ser uma sociedade que aceite tanto em RGB quanto em CMYK, ainda temos o clássico dois pesos e duas medidas.

Exemplo recente disso está na nova mártir das redes sociais, Isadora, 13 anos de idade e uma página revolucionária no Facebook que retrata as mazelas do ensino público no país. Isadora é a Ariana Huffington mirim, a Olguinha Benarinho. Com o poder da comunicação ela transforma a vida dos pobres alunos tiranizados por diretores despreparados e professores desmotivados. É exemplo para o país e o mundo de como uma criança pode vir a se tornar um exemplo de cidadão, quem sabe não estamos de frente a futura presidenta do país, quem sabe Isadora não é o MESSIAS QUE VEIO PARA NOS TIRAR DA ESCRAVIDÃO E NOS LEVAR A TERRA PROMETIDA.

Gosto de pensar na contraparte da Isadora. Lembram da Menina Pastora. Aquela lá do PRÍNCIPE DA PAAAAAAAAAZ e tal? Pois bem, me digam aí a principal diferença entre as duas? A bandeira que elas levantam, certo? Errado. Não há qualquer diferença entre as duas. Ambas se tornaram exemplo para seus pares na comunidade. São reconhecidas pelos seus como prodígios prontos para salvar um mundo povoado por crianças acéfalas que, ao invés de lerem as sagradas escrituras ou O contrato social, resolvem ir empinar pipa, jogar bola, videogame, ver filmes idiotas ou qualquer outra coisa que crianças aos treze anos devem fazer.

Porque aos treze anos nós devemos nos divertir. Aos treze não temos que ter a preocupação de um mundo louco no qual diretores se lixam para seus alunos, professores ensinam qualquer coisa para ir para casa mais cedo e pastores resolvem colocar na cabeça de uma criança que o mundo só será salvo para os justos. Isso fica para nossos pais, nossos tios, nossos avós. Estamos criando toda uma cultura de paranoia cada vez mais precoce, com crianças ,cada vez mais preocupadas em como mudar o mundo. Pelo amor, estamos aqui há dois mil anos com poucas crianças que quiseram mudar o mundo e tudo seguiu muito bem. Tirando Mozart – que por sinal teve de se divertir tardiamente – não temos dez mil exemplos de gênios que foram moldados desde a infância. Einstein era disléxico, Pelé foi recusado em peneiras. Não forcemos a barra com a criançada. Se nossa sociedade está cada vez mais paranoica hoje em dia, imagina quando começarmos desde meninos a torcermos o pepino?

 

PS: além do mais, a criação desse mito infantil nada mais é que a culpa por não termos feito nada de brilhante na nossa infância. Eu agradeço por ter lido meu primeiro livro aos 18. Se o tivesse feito aos 13 anos, com certeza acharia a literatura uma obrigação e não um prazer.

Cinco candidatos possíveis para SP

O mano firmeza:

Salve, salve Jão é tudo nosso na quebrada. Aí, o bagulho tá foda, tá osso mesmo, mas fé em deus que ele é justo já disse nosso Mano, Brown. Tô aí firmezão, pronto pra correria do Banespa, vou versado na bagaça, já fiz corre nuns banco e pá, mas aí em outubro velho é só liga nóis firmezão lá na caixinha, aqui não tem sete um não jão, aqui é dezessete, o número do homi firmeza nas cabeça é tudo nosso salve Jardim Peri.

O taxista:

Estou aqui para trazer de volta a bandeira do Jânio e varrer a corrupção da cidade. Embarque nesse táxi que aqui é bandeira um e o melhor caminho. Vamos cortar o trânsito e os gastos, recapear as ruas e se der tempo ainda dar um cochilo antes da corrida até Cumbica. Meu nome é Antonio Alves e eu sou taxista.

O paulistano estereotipado da Mooca:

Ê belo, tá chegano a hora meuô, em outubro é só votar ni nóis que ta tudo certo meuô, aí ó, vamos mudar Sampa de um jeito que Sampa nunca foi mudada primo, maior daora vai ficar a cidade meuô, vai ter tudo maior legal na cidade meuô, vamos junto caminhar por uma Sampa mais feliz meuô, vote ni mim, meu nome é José Serra da Losteria do Travagliato.

O locutor do carro de pamonha:

VOTA AÍ VOTA AÍ FREGUESIA É O CANDIDATO PAMONHA, PAMONHA FAZ RECEITA, NA CÂMARA TEM CLIMA, É O PURO CANDIDATO DO PARTIDO VERDE, VENHA VOTAR MINHA SENHORA, APERTE DOZE E CONFIRMA, TEMOS PROPOSTA É O PAMONHA. PAMONHA. PAMONHA. PAMONHA.

O hipster da Augusta:

Chegou a hora de pensar e frente, chega desses caras velhos, chega de jornais e revistas, nossa revolução não será televisionada a menos que você esteja vendo o Youtube pela sua TV de plasma. A hora de mudar é agora e nossas propostas são novas como aquela banda de Helsinque que só eu conheço. Agora é a nossa vez, a força do poder jovem nas mãos da Rua Augusta. De decadente a presidente, vote Augusta, vote consciente.

Diário de um diploma de jornalismo

Você me ganhou, cara. Depois de quatro anos, você finalmente me ganhou. Depois dos cochilos nas aulas de filosofia, dos bares idos durante as aulas de semiótica, você finalmente me ganhou. Mas valeu a pena? Pensa bem, era isso mesmo que você queria? Eu sei que você se divertiu na faculdade, fez grandes amigos, alguns inimigos e um desses pode ser seu chefe no futuro. Bebeu todas as coisas possíveis, comeu mal, comeu bem e não comeu. Estudou, enrolou, acendeu e fumou. Mas de verdade, valeu a pena?

É aquilo, alguns dizem que sou só um pedaço de papel, que a nossa profissão não precisa de formação específica, como se jornalismo fosse uma pinta, uma mancha na coxa da Angélica: ou a gente já nasce com a bagaça ou então vai vender Barsa. Visto dessa forma, você me ganhou e eu tenho tanta importância quanto uma conta de luz paga há três anos. Mas pensa bem, cara: foram quatro anos da sua vida. Tem gente que não vive quatro anos. Tem time que não ganha títulos há quatro anos. É tempo pacaraleo amigão. Nem mulher você cobiça durante quatro anos, em uma luta incessante contra o frio, a fome, o sono, o saco cheio. Tem lá suas recompensas, quando rola um trabalho bem feito ou aquela prova que você imagina um zero e veio um seis e meio firmezaço. Mas tem as notas vermelhas, as frustrações, os trabalhos em grupo. Toda uma gama de imbecilidade que só quatro anos de faculdade pode nos oferecer.

Daí fica a pergunta: eu sou importante? Sua mãe me adora, seu pai até chora quando me vê. E eu sou entregue em festa né amigo, com você de beca e tal. Tenho meu ar solene, apesar de estar meio datado. Tipo a Rainha da Inglaterra. Daí você chega em casa, bêbado, me dá uma mirada e diz que amanhã vai me colocar em um quadro. O amanhã vira depois, que vira ano que vem que vai virar próxima vida. Quatro anos de luta para me colocar numa gaveta, do lado de inúteis como a Certidão de Nascimento e o Título de Eleitor, que ao menos de quatro em quatro anos vê a luz do sol e sente o couro da carteira. É amigo, eu valho a pena, mas sua alma é que é pequena.

Diário dos tênis de Usain Bolt

Pé Direito: TÁ PRONTO?
Pé Esquerdo: NASCI PRONTO FILHÃO!
PD: É UM…
PE: É DOIS…
PD: COMEÇOU!
PE: CORRE!
PD: CARAIO!
PE: CORRE!
PD: CARAIO!
PE: CORRE!
PD: CARAIO!
PE: CORRE!
PD: CARAIO!
PE: CORRE!
PD: TAMO CHEGANDO MOLEQUE!
PE: É TUDO NOSSO! CORRE!
PD: CARAIO!
PE: CORRE!
PD: CARAIO PASSEI EM PRIMEIRO CHUPA ESQUERDO!
PE: GRANDES MERDA EU GANHEI O MUNDIAL DE ATLETISMO!
MÃOS ESQUERDA E DIREITA: Ô RAPAZIADA, MAL AE, MAS O HOMEM TÁ FAZENDO FLEXÃO, TÔ COM MAIS TEMPO DE TV QUE VOCÊS E AINDA APAREÇO PARADO.
PÉ DIREITO E PÉ ESQUERDO: GRANDES MERDA AMIGO, NÃO PEGAMOS EM ROLA.

Diário de um cavalo olímpico

Vamos lá fera, falta pouco para começar. Você não devia ter comido aquela calça,  não vai te fazer bem. Enfim, estou melhor que o meu primo que arrumou uns bicos em filmes pornôs. Vamos lá, o homem chegou. Quero esse ouro, mas se esse puto me dar uma esporada forte eu jogo ele no chão e depois como a mãe dele num desses do meu primo.

Ah, os Jogos Olímpicos. Comida de boa, países maneiros. Tá certo que a narração é meio sacal, mas o que fazer? Aqui não é o velho oeste filhão, é o esporte de cavalheiros. Perdão pelo trocadilho idiota. E que babaquice esse negócio de colocarem os obstáculos como se fossem pontos turísticos de Londres. Vou dar um barrão no Palácio de Buckingham só para chocar o mundo. Ou derrubar o Big Ben. Aliás, algum cavalo olímpico já cagou em público? Como esses caras conseguem segurar? Assim, eu nunca tive vontade, mas sou mestre do meu esfíncter e consigo competir por horas com o barro preso. Mas tem uns cavalos meio cu frouxo competindo, né Baloubet? Risos.

Ah lá, vai começar, vamos nessa. Upa cavalinho hahahahahaha que tosco. Ô caraio esse é alto não vai dar, não vai dar, não vai… putz, sou muito fera, deu para pular. Ó lá o Palácio, vou cagar nessa merda. A galera tá gritando, tô indo bem na bagaça. Vou dar umas trotadas para ver branquinho aplaudir, fica vendo, pocotó, pocotó, pocotó, hahahahahahahaha velho como nós, os animais, ainda não tomamos o mundo desses trouxas, igual ao livro do Orwell? Aliás, livro bem do cuzão que coloca os cavalos como massa de manobra dos porcos. Era um animal esse Orwell, não no sentido dos bichos feras. Pera lá que vai sair a nota. Atenção… GANHEI MALANDRO, GANHEI ESSA BAGAÇA SOZINHO, SOU O ROMÁRIO DE QUATRO PATAS! Olha lá, vai chegar a hora da medalha. O quê? Não vou subir no pódio? Só tem medalha para o cavaleiro? Minha pica na sua mãe em um filme pornô de zoofilia né amigo? Eu vou lá, pulo e o escambau, esse putão de um metro e meio só fica sentado. Ele é o funcionário público dos jogos olímpicos, faz menos força que o pessoal do tiro! Ah, vou ganhar feno. QUE ÓTIMO, HEIN PARCEIRO?

Diário de uma sonda espacial

Cheguei, estou no Paraíso hahahahhahaha, deixa eu ligar logo para Houston que os caras lá devem estar com o cu na mão.

- Alô, Houston?
- Alô, Curiosity!
- Aff que nome gay, enfim, cheguei na bagaça, tá tudo tranquilo, tudo numa boa. Fizeram reserva no hotel?
- Hahahahahahahahaha, boa Curious, nos fale mais sobre Marte.
- CURIOUS É TUA MÃE DE PERNA ABERTA E MEU PAI DE PICA DURA. Então, é tudo vermelho por aqui, amigos. É como a China.
- Opa, traz um iPod!
- Hahahahahahahaha, foi o veado do Steve quem falou isso, né? Tira do viva-voz que não quero mais essas piadas do pavê.
- Curious, o que você já coletou para analisarmos aqui na Terra.
- COLETEI UM RAMALHETE DE ROLA PARA VOCÊ ALISAR POR ME CHAMAR DE CURIOUS SEU VEADO. Ainda não achei nada por aqui, tem só um monte de terra vermelha, é como se fosse um planeta inteiro de argila, o deus deles aqui deve ser uma criança.
- E quais seus planos com a chegada aí Curiosity?
- A, não sei, estava pensando em ir a praia, tomar umas caipirinhas na beira do mar CARALHO MEU PRÓXIMO PASSO É COLETAR TERRA SEUS PUTOS É TUDO QUE TEMOS AQUI NA MERDA, TERRA, TERRA, TERRA!
- Sim Curious, aqui quem fala é da Terra, pra variar estamos em guerra…
- VÃO TOMAR NOS SEUS CUZES SEU BANDO DE NERD PUTO COME NINGUÉM DO CARALHO.

Velho, olha os caras que torram a grana do governo que deveria ir para as vítimas do Katrina. NOSSA UMA SONDA ESQUERDISTA você diz, e daquela merda daquele telescópio com nome de professor de Oxford ninguém fala nada. Não entendo de verdade o por que dessas missões idiotas. A gente vem aqui, nada acontece, de repente sumimos de tédio e daí nego acha que fomos raptados por seres alienígenas. Aquela outra lá que até já esqueci o nome, encontrei vagando por esse deserto dizendo EU SOU LAWRENCE DA ARÁBIA olha o naipe da coitada. E ainda tenho que aguentar essas piadas babacas do Steve. Veja, eu sou uma máquina mas os caras me fizeram bem e me deram sentimentos. Eu sou o Schwarzenegger no Exterminador do futuro 2, só que com rodinhas.

Deviam me mandar para um lugar firmeza, tipo explorar as ruas de Paris ou comer um bolo de marofa na Holanda. Por que essa história de ficar caçando vida fora do universo, esses caras da Nasa acham que o espaço – a fronteira final –  é na verdade um daqueles serviços de acompanhantes que eles tanto curtem e usam. Qual é, e daí se eu achar alguma viva alma nesse trem? Vou falar o que pro cara? “Opa, firmão, sou da Terra, vim em paz, só quero coletar umas paradas aí porque daqui alguns anos os homens vão invadir e você é familiarizado com a história dos índios americanos?” e o próximo passo dessa civilização é usar short Adidas e protestar contra a hidrelétrica de Marte. Velho, mal damos conta da Terra e lá vamos nós para outros lugares, nego não viu Vingador do futuro nessa porra de planeta? Sim, sou fã do Schwarzenegger.

Vou dar um pião nesse marasmo aqui para ver o que rola. Com sorte caio num buraco e acabo com esse programão de índio que me arrumaram. Abraço a vocês da Terra e Steve, vai tomar no seu cu.

A banha do peixe elétrico

Não sei se todos que leem esse texto conhecem o esquema da banha do peixe elétrico. Pois bem, nos trens de SP era costume pintar o cara que vendia a banha do peixe elétrico, com propriedades curandeiras capazes de corar Jesus Cristo, Drauzio Varela e outros milagreiros. Com a banha do peixe elétrico você poderia curar dor nas costas, lombalgia, câncer, dinheiro curto no fim do mês e toda a sorte de enfermidades. E o vendedor da banha do peixe elétrico era uma espécie de Testemunha de Jeová do ramo. Uma olhada de cinco segundos e já era, o cara já estava lá besuntando sua pessoa com a banha do peixe elétrico. Dentro do trem. As vezes lotado.

Após duas horas andando a esmo pelo shopping, parei num quiosque de produtos do Mar Morto para perguntar se existia no raio de cinco quilômetros um quiosque, loja, barraca ou o que o valha da Mac, para comprar o presente de dia dos namorados da Amber.

Não sei vocês, mas acho esse lance de “produtos do Mar Morto” algo muito Rota da Seda. Parece que a bagaça veio de navio, enfrentou piratas, tempestades, tubarões e quem sabe o Kraken em pessoa. Ou em polvo. É como se fosse um produto místico, para lá de Asshai como dizem os personagens do Game of Thrones. São coisas do Mar Morto, logo é preciso que o intrépido funcionário de um comerciante da Companhia das Índias mergulhe, enfrente as almas penadas que lá habitam e volte com um creme, um esmalte ou outro produto feminino.

Pois bem, pare no quiosque dos produtos do Mar Morto.

- Moça, desculpa a pergunta indiscreta, mas você sabe se tem algum quiosque ou loja da Mac por aqui?
- É presente para namorada? Vem cá que te mostro um novo produto.

E súbito a vendedora  pede para ver um das minhas unhas. Minhas pobres unhas, vítimas ferozes dos meus dentes em jogos do Corinthians e outros momentos de tensão.

- É bem simples, primeiro você passa esse lado para lixar, depois esse para aparar as pontas e por fim esse para passar a queratina, que vai fortalecer suas unhas. Você costuma tirar a cutícula?

Sério mesmo?

- Não…
- Então, tenho esse creme aqui para fortalecer a pela da cutícula. Feito tudo isso, você não precisa ir mais na manicure pois o esmalte fica na sua unha por duas semanas.

Hahahahahahahahahaha, vai vendo o diálogo. A moça quer me vender a bagaça, passa o trem na minha unha e diz que aquilo vai ficar por duas semanas. Por duas longas semanas terei uma unha esmaltada enquanto as outras vão continuar como sempre foram, feias como uma batida entre dois ônibus carregados de pandas felizes.

- Quer ver que legal, não sai nem com acetona.

Nisso a vendedora esfrega acetona freneticamente na minha unha e o esmalte continua lá, intransponível, o escudo do Capitão América. Já me imaginei ricocheteando tiros com as unhas, poderia até virar um super herói, o Doutor Esmalte, o Capitão Unha ou o que o valha.

_ Hahahahahahaha moça, vou ficar com isso por duas semanas?
- Vai.

Então a vendedora me explica que o produto é importado de Israel e todo o carma vindo do Ariel Sharon dá um pouco de contexto às coisas. Quatro horas depois, consegui achar uma loja da Mac, comprei o presente e ouvi as explicações da vendedora como se fosse o presidente do banco central grego escutando sobre austeridade econômica. E de cinco em cinco segundos olhava para aquele dedão brilhante, um gênio da raça dos dedos.

O ato de cozinhar

A água borbulha na panela, fervendo a batata. Penso se coloco orégano, se arrisco uma pimenta do reino, se tento algo diferente. Se devo deixar de pagar alguma conta no começo do mês que espreita pela porta. Separo a xícara de leite, deixo todos a postos para a revolução culinária que não vem; não é a Primavera do Purê, é só um ordinário purê de batatas, simples como todo e qualquer já feito.

Abaixo o fogo para a água não reduzir, tudo fica estático na panela. Penso nas mil horas que aquilo vai demorar para ficar no ponto, aumento o fogo e fico de novo cismado com a redução da água. Por que transformar o simples ato de cozinhar quatro batatas em uma odisséia de corar o Homero?

E ainda tem o ovo frito, na manteiga. E se eu errar? E se a parte de baixo tostar e assim estragar o purê, o jantar, a noite? Devo arriscar tirar o ovo antes da hora, a gema ainda mole pronta para romper a membrana como o Katrina rompeu os diques em Nova Orleans?

E a redução da água? Corro de volta para o fogão e vejo que tudo segue na mais perfeita ordem. Espeto a batata com um garfo, o soldado romano espetando Cristo em suas horas finais, todo o começo de uma nova religião que durará por dois mil anos e além. Está tudo bem com as batatas, por enquanto.

Mas e os ovos? Quais as consequências para o jantar de um ovo mal feito? Deveria ter ido de bife. Se a carne é fraca, a gema de um ovo é mais fraca ainda. Era só salgar e colocar na frigideira. Igual ao ovo, mas sem o demônio da gema.

A maldita água está reduzindo. Talvez seja hora de desistir, de correr para o restaurante mais próximo. Começo a pensar em pessoas que seguiram em frente por coisas bem menores que um purê de batatas. Mandela, Ghandi, Ali, esse pessoal. Meu purê de batatas deveria ser contado para o mundo, um exemplo para as próximas gerações. A Conferência de Potsdam dos purês de batatas, era isso que deveria aparecer na Wikipedia.

Espeto mais uma vez as batatas, já pensando se deveria ser julgado em Haia. E a maldita gema que não me sai da cabeça? E se ela estourar? Fukushima não é nada perto disso. Maldita gema!

O purê fica pronto. O ovo também. Ela come e diz que está ótimo, que está tudo bem. Reviro na cama, horas depois, pensando nas batatas que espetei, nas gemas de ovo que maltratei para ter sucesso no feitio do jantar. Um simples purê de batatas com ovo frito.

Olha a Unidos do Imperador aí gente…

O Carnaval está aí e a Unidos do Imperador, como é tradição em cada festa do Rei Momo, vem com seu samba enredo “Economista, taxista, caminhoneira e tabagista: Maria. Conceição. Tavares”. Se liga na avenida.

Alô nação da Imperador,
Canta, canta, canta e paga imposto meu poooooooooovo.

Quando nasceu em Portugal,
As caravelas dominavam as Américas,
Saiu lá de Trás-os-Montes, desbravando altos mares,
Maria. Conceição. Tavares.

E vai Cabral!

Cabraaaaaaaal não era Sergio,
Mesmo assim apontava de montão,
Mirou suas barquetas para as Índias,
Acertou no Brasil dos peladão.

Desceu de Santa Maria, economista que dava toda pinta,
Em terra firme, acendeu um Marlborão na maciota,
Mandou a bugrada ir sentar,
Numa grande e veiuda mandioca.

Quando o Rei de Portugal,
Precisou do dinheiro das Cruzadas,
Maria intercedeu junto ao Papa,
Sua Santidade que sente numa vara.

O tempoooo passoooooou, e o czar tomou na tarraqueta,
Com os comunas no Smolni, agora fumando Free,
Maria se tornou uma da esquerda.

FMI, vai se foder,
Ô vá pra casa do caralho,
Enfia a dívida no cu,
E põe a moratória no seu rabo.

No dia primeiro de abril,
Os militares foderam com a vida,
Do Brasil, da esquerda à direita,
E botaram no cu da Maria.

Mas Conceição, que era muito safa,
Sabia como dessa escapar,
Virou taxista no Bixiga,
 Dirigindo um Corcel envenenado.

FMI, vai se foder, 
Ô vá pra casa do caralho,
Enfia a dívida no cu,
E põe a moratória no seu rabo.

Quando o Lula foi eleito,
A esquerda logo se animou,
Chegou um barbudo no poder,
Mas Maria logo vaticinou.

Esse porra, tá no esquema,
Desses puto do caralho,
Vai foder com o Brasil,
Tá de esquema com o Sarney, esse viado.

 FMI, vai se foder, 
Ô vá pra casa do caralho,
Enfia a dívida no cu,
E põe a moratória no seu rabo.

Sumida dos quadros da PUC,
Poucas entrevistas na TV,
Maria hoje é caminhoneira,
Rasgando a Fernão Dias a foder. 

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