É só um dia em junho

Ele preparou tudo com muito esmero. E ela, conforme ele imaginava, estava a se preparar com muito esmero. Era noite de 12 de junho, Dia dos Namorados. Apesar de todo dia parecer especial, aquele era o especial do especial. Jantar pronto, velas à mesa, CD com músicas babonas só esperando algum dedo apertar a tecla Play. Tudo como manda o figurino.

A campainha toca e ele corre esbaforido. Era o síndico, perguntando se ele já tinha candidato para as próximas eleições do prédio. Pela empolgação demonstrada ao abrir a porta, ganhou meia hora de conversa, um discurso de Fidel Castro sobre os problemas do prédio e sobre como aquilo seria solucionado. Sem prestar muita atenção, assinalou seu voto no homem à porta, vencido pelo cansaço.

Quinze minutos além do horário marcado e nada. O telefone toca, ele novamente chega esbaforido ao aparelho. Precisava parar de fumar.

A voz da atendente de telemarketing enganou por alguns segundos, mas a farsa caiu logo no primeiro de muitos gerúndios. Não, ele não queria o novo plano da sua operadora de celular. Para que diabos ele ia querer dois mil torpedos? Para ser uma potência bélica maior que os EUA e a Rússia juntos? “Poderia bombardear ela de amor” pensou, e corou sozinho com a sua canastrice.

Uma hora depois, uma carta por debaixo da porta. Desta vez não correu, não queria estragar uma eventual surpresa. O ineditismo da carta não deixava dúvidas: ele não tinha nenhum interesse em adquirir um jazido no cemitério Saudade. Se bem que, após todo esse tempo de espera, era algo a ser avaliado. Alguns publicitários têm o timing perfeito.

Três horas depois, completamente bêbado, ele desiste. Ia reclamar a ausência no dia seguinte, dizer que preparou tanta coisa para nada, que ela nao se importava com o que ele sentia. Lembraria que sempre fora assim, ele movia mundos e ela nunca aparecia. Resolveu dar a cartada final, o all in. Pegou o telefone.

– Alô?
– Oi, tudo bom?
– Tudo, e você?
– Melhor agora. Escuta, onde você está?
– Na casa do meu namorado, por que?
– Ah… é… bem… por nada…

Daí ele lembrou que não existe Dia dos Namorados Platônicos. Maldito calendário.

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4 pensamentos sobre “É só um dia em junho

  1. ivym disse:

    Caiu até uma lagriminha… Texto ótimo, com muita sensibilidade + seu senso de humor peculiar :-P

  2. Renan disse:

    Você por acaso anda me espionando? AUHAHUAUH XD

  3. Silent B disse:

    Te respondi nos tuíter da vida, mas dá um pulo lá no meu e diz oq vc achou! =D

  4. biti disse:

    um cara (hetero) bota comida na mesa e acende velas? CHUTA QUE É MACUMBA! HAHAHAHA

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