“Bom pai, bom filho, bom marido, um merda”

Lendo O livro das vidas – obituários do New York Times tive uma daquelas idéias as quais só o dono considera serem brilhantes: acho que todo o morto deveria ter como direito inalienável escrever seu obituário. Ok, eu sei que isso é difícil, já que – exceção feita ao Padre Adelir – não temos a menor idéia de quando vamos morrer.

Também tenho ciência de que isso causará tensão nas pessoas. Você sai de casa com pressa, atrasado para o trabalho. Não tem tempo de escrever seu obituário, ou dar aquela retocada no texto pois, na noite anterior, dormiu com uma das mulheres mais gostosas que a espécie poderia produzir. Daí que você não tem grana para o táxi e não tem notebook. Pega o carro e, na pressa, espatifa o infeliz – onde você segura o volante com cara de “fodeu!” – no poste que fica bem em frente ao escritório. Além de coroar seu atraso, ainda terá parte do salário descontada por danos ao patrimônio. E isso seria um baita desfecho para o seu obituário. “Morri na guia, fodi com a chefia”. Isso é quase Shakespeare.

E tem os suícidas. Legal, você faz todo um texto citando Ian Curtis, Baudellaire, Kant, essa galera chegadaça em viver e ser feliz. Daí você arma o banquinho, pega a corda, um violão e – tocando João Gilberto – desiste da vida e de tudo o mais. Só que o negócio falha. Sei lá, o banco quebra, a corda estoura e você se vê tocando Gipsy Kings, Bamboleôôôô, todo alegrão. Com que cara você vai olhar para o seu obituário depois? Como você vai colocar em um texto sobre a sua vida e obra que você continua lá, “vidando” e “obrando”?

O certo é que alguns textos seriam memoráveis. Do Verissímo, por exemplo, seria magnífico. Aposto que muitos dos leitores iriam tocaiar o escritor, sempre deixando-o de sobreaviso uma possível morte. Em contrapartida, Paulo Coelho seria imortal com ou sem cadeira na Academia Brasileira de Letras. A morte de Fidel Castro seria lançada em cinco volumes, a do FHC seria folheada em ouro com um busto do ex-presidente. Já o obituário do Lula teria acabamento final do Maurício de Souza.

E com idéias como essa, de uma coisa eu tenho certeza: vou ter um obituário de duas linhas. Porque meu nome é comprido.

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2 pensamentos sobre ““Bom pai, bom filho, bom marido, um merda”

  1. Eric disse:

    Se nome comprido é sinônimo de obituário curto, o meu vai ter que ser igual a classificado de putaria.
    “Eric “insira mais metade do nome de Dom Pedro II aqui” mor, c s nrz gde mtu td mdo, fdp. LOL”

  2. classespt disse:

    Quem sabe Imperador, quem sabe… às vezes seu obituário vai ser muito maior do que vc imagina.

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