Sobre os mitos

O Célio era um mito. Quando as pessoas começavam a descrever aquele quarto-zagueiro, o faziam tal qual as crianças contando incríveis histórias sobre seus heróis. Alguns diziam que ele já tinha matado um volante e um lateral-direito com uma bolada. “É, em uma cobrança de falta. A bola explodiu o peito do segundo homem da barreira e o coração parou na mesma hora”, dizem. Tem gente que soma ainda um terceiro “assassinato”. “Não foi culpa do Célio. Ele correu para bater a falta e o segundo homem da barreira, um habilidoso meio-campista recém promovido do juvenil, morreu do coração antes mesmo do pé do Célio encostar na bola. Veja bem, um garoto de 17 anos”.

Ele sempre batia no segundo homem da barreira. Mesmo quando a posição era ruim – se bem que uma das lendas criadas em torno do zagueiro dizia que ele era capaz de transformar tiro de meta em gol certo – lá ia o Célio mirar o pobre coitado. E como sua fama já tinha corrido o mundo, herdando o apelido de “O flagelo de Deus”, antes aplicado ao rei dos Hunos, a cada falta cobrada pelo zagueiro o segundo homem da barreira sempre corria em direção ao técnico ou à torcida. Alguns, homens viris, canelas estropiadas pela prática do esporte, faziam a cena acima descrita chorando copiosamente.

Apesar de aparentar violência, o Célio era uma pessoa calma. Não tinha matado o volante, muito menos o lateral. O juvenil passa bem, mas mostrou que sua habilidade em nada acresceria aos times que atuou e hoje é dono de uma locadora de automóveis na cidade onde nasceu. A lenda criada em torno do seu potente chute – que chegou a ser estudado do MIT e foi tema de um programa inteiro no Discovery Channel – não fez com que ele fosse odiado no mundo da bola. Pelo contrário, Célio era ovacionado até pela torcida adversária. Chegou-se ao absurdo de um estádio inteiro comemorar um tiro de canhão dado pelo zagueiro do meio-de-campo. Quando o goleiro pulou, já era tarde, a bola estava na cal do círculo central, esperando  o time adversário, atônito, dar a saída de bola.

E as histórias cresciam em proporções épicas. Se o país entrasse em guerra, tínhamos a bomba H. Charges com Célio investindo contra exércitos, munido de muitas bolas, recheavam os jornais. Um jornalista escrevera, certa vez, que “se o Célio chutasse uma bola em direção à Lua, São Jorge desceria chorando e pedindo clemência”. A crônica esportiva sempre teve seus exageros, mas neste caso, todos acreditavam ser verdade.

E veio a grande final do campeonato. Jogo truncado, preso no meio do gramado. Os volantes dos dois times se mostraram excepcionais, o juiz cometeu um ou duas lambanças, mas tudo corria muito bem. Só aquela falta, a alça de mira do Célio, que não aparecia. A torcida estava aflita, o grito de gol entalado na garganta. Qualquer queda dos companheiros de Célio era seguida de um clima de histeria que antecede o gol certo dentro dos estádios. Mas o juizão mandava sempre seguir o jogo. O zero a zero era do time da casa, mas “com Célio em campo, nada de placar em branco”, dizia a faixa.

O Maneco era o centroavante. Dominou com o peito a bola lançada pelo Álvaro, o camisa 10, e partiu na direção do gol. Quarenta e quatro minutos do segundo tempo e o Maneco investiu tal qual um daqueles reis antigos, que destroçavam exércitos inimigos. Era como se fosse o Dario e a zaga era a pobre Bizâncio. Passou por um, dois, três. O quarto deixou o pé, o juiz apontou a cal. Penâlti e o título, porque o Célio fulizaria o goleiro tal qual Mao Tsé fazia com os dissidentes.

Bruno passara por momentos de turbulência naquele campeonato. Bom goleiro, falhou em algumas partidas, salvou outras. O de sempre na vida de um profissional que atua em uma das mais injustas posições do esporte. E agora estava Bruno, cara a cara com Célio, sem o segundo homem da barreira. Sem barreira alguma.

– Álvaro, Álvaro – gritou o goleiro.
– Que é?
– Diz pra minha mulher que eu amo ela e fala pro meu empresário cuidar da minha família.
– Porra, não fode Bruno. Na hora que ele correr, cai no outro canto!

O Célio ajeitou com carinho a bola. Olhou um Bruno atônito, correu  e encheu o pé. O estádio continuou calado, tenso. Bruno ouviu um baque surdo, caiu, sentiu os braços formigarem, a cabeça girar. Com esforço, olhou para cima e viu Maneco e Célio correndo na sua direção. Sentiu algo entre os braços e não acreditou. A bola, a bola chutada pelo Célio, dormia calmamente ali, no chão, envolvida pelo seus antebraços e protegida contra a sua barriga.

Aos 46 minutos o juiz encerrou o jogo. Zero a zero, o time do Bruno foi campeão. Célio, o vilão da noite, foi cumprimentado por todos, torcida, adversários, repórteres. O Bruno foi carregado durante a volta olímpica. Não morrera, mas confessou aos jornais que sentia uma dor absurda na região do abdômen.

O Bruno era um mito. Certa vez, um jornalista escrevera que só dois monumentos podem ser vistos da Lua: a Muralha da China e a Muralha chamada Bruno…

Anúncios

Um pensamento sobre “Sobre os mitos

  1. Leonor disse:

    Muito bom, Júlio. Altamente publicável em outra espelunca um pouco mais frequentada que esse blog!
    ;)

    Hahahahahahahaha, qualquer coisa é mais freqüentada do que esse blog…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: