Sobre o riso

Súbito comecei a rir. Não entendia por que, não queria um por que. Apenas comecei a rir, como poucas vezes ri na minha vida. E olha que esta vida é a coisa mais engraçada que já me aconteceu.

As vezes lidamos de forma estranha com o repentino. Lembro de uma vez, um momento muito feliz, onde chorei copiosamente. Não sei explicar, estava tudo muito bem, na verdade tratava-se de um dos poucos momentos onde tudo estava realmente bem. E eu, de forma inexplicável, chorava como se fosse o fim do mundo. Não de alegria, por mais que este mundo seja uma grande merda, onde qualquer coisa é grande coisa.

Rindo muito, peguei a arma. Seria o quinto “click” ou o primeiro – e único, derradeiro – “bum”.

Horas antes de me sujeitar aquilo, pensei que estava apenas antecipando o plano, seja lá quem o tenha planejado. O cigarro faria o mesmo comigo qualquer dia desses. Um caminhão. Um piano. Ou um marido traído, independente de eu ter comido a mulher dele ou não. Tudo neste mundo, cedo ou tarde, faz “bum”.

Peguei a arma. A palpitação era errônea, as mãos tremiam. Pensei em acender um cigarro, tomar uma cerveja, comer uma mulher desejada. Sei lá, matar uma foca bem bonita, com um arpão bem afiado. Precisava de um prazer verdadeiro, precisava justificar aquele riso teimoso e sincero. Não tinha tempo. Enfiei o cano gelado goela abaixo. Não pensei em qualquer outra causa – diversas doenças, a pólvora, enfim – que pudessem me matar. Apertei o gatilho, “click”. Só restava o “bum”.

Meu amigo de roleta, conhecido recentemente do grupo de auto-ajuda – e isso sim é um bom motivo para o riso – caiu em desespero. Despedimo-nos, tentei confortá-lo, mas ele tinha uma doença terminal e, que diabos, o “bum” dele estava próximo. Súbito ele riu. Um riso sonoro, com gosto, daqueles que parecem uma piada antiga contada por grandes e velhos amigos. Tirou a arma da boca por alguns segundos. Olhou para mim e, rindo, justificou:

– Desculpa, mas eu preciso dar uma razão para este riso!

Tudo nesse mundo, cedo ou tarde, faz “bum”.

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2 pensamentos sobre “Sobre o riso

  1. Monicake disse:

    Com tanto bum só consigo pensar em pum.
    OK. péeeeeeeessema essa. :P

    Puta merda, sabia que infâmia era transmissível. Você não era assim há quase dois anos… =P

  2. Silent B disse:

    Já esteve em vésperas de bum’s? Ou achou que naquele momento encontraria o bum da sua vida?

    Eu já… felizmente eram click’s =D

    Hahahahahahaha, eu não teria coragem de dar um “bum” em uma vida tão engraçada quanto a minha. Melhor do que a que eu tenho, só se eu fosse o Stephen Hawkins, para poder fazer piadas de cadeirante… =P

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