Desopilando traumas do passado

Talvez seja implícito que eu fui um moleque muito do cuzão. Nunca fui de brigar e, apesar de aprontar uma aqui e outra acolá, normalmente fugia das brigas na praça – religiosamente realizadas depois da escola. Porque eu era meio bobo (meio?) e só não me tomavam a lancheira pois eu não a tinha. Assim como não me tomavam o dinheiro do lanche porque eu não tinha dinheiro do lanche. Menos ainda me tomavam a merenda da escola pois eu era um dos poucos que tinha coragem de mandar para o estômago o rango do Estado.

Um aparte: se servissem a merenda da minha escola em Auschwitz, o mundo tomaria uma atitude contra o Holocausto. Incluindo aí nesse “mundo” a Alemanha.

Pois bem, haviam duas coisas na escola que me faziam tremer mais do que os notórios valentões que batem nos moleques mais nerds: o dentista e a Loira do Banheiro. O dentista, todos conhecem, é o profissional filho de uma puta que ganha uma grana violenta para te fazer passar por sessões que transformam as torturas no DOI-Codi em um passeio pelo vale encantado.

Já a Loira do Banheiro é um mito que muda de escola para escola. Na minha, por exemplo, tratava-se de uma professora muito da burra, porém déspota. Certo dia essa professora humilhou uma de suas alunas e foi ao banheiro (!?). Ao chegar no recinto, sentindo-se pesarosa pelo ocorrido, foi encostar a cabeça na parede, aquela clássica cena de filme brega. Só que o vergalhão que estava bem onde a mestra encostou a cabeça fazia figuração para o Hellraiser. Voilá, a mulher morreu e, puta da vida com os pupilos, resolveu que ia atanazar a vida de qualquer estudante no banheiro.

Certa vez, ciente de que o dentista ia para a classe “aplicar o fluor”*, disse para a professora que ia ao banheiro fumar um cigarro e pichar a parede para depois ser repreendido pelo Sidney Poitier. A mestra acreditou e lá fui eu comemorar a minha alforria. Só que, mal cheguei no páteo, o torturador descia com as pobres vítimas da “aplicação do fluor”. Única solução encontrada por esta besta: se esconder no banheiro.

Daí que eu fiquei na porta. Por um lado, me cagava de medo da sessão Josef Menguele. Do outro, me borrava com o caso do poltergeist que assombrava as escolas aqui e alhures. Encurralado e sem encontrar solução para o problema, não pensei duas vezes.

Mijei na porta do banheiro da escola. Nem para a Loira, nem para o dentista.

* Aplicar o fluor: técnica hitlerista usada pelo dentista (reparem, rima com nazista) da escola, que seguia os preceitos das chuveiradas de Ravensbrück. Eu acredito piamente que os alunos “expulsos” da minha escola foram aniquilados sumariamente por conta de sua insurreição contra o Sistema opressor que não deixava os caras mais velhos fumarem unzinho em paz no banheiro da escola. Mas não, a Loira do Banheiro não é uma invenção do Sistema. Eu mesmo a vi e deixarei este trecho para um outro dia.

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4 pensamentos sobre “Desopilando traumas do passado

  1. ivym disse:

    Uma coisa me consola: a menina que ficava perseguindo este pobre ser humano japonês embuxou e casou com um qualquer aí… Hahahaha

    Eu tb ODIAVA a aplicação de flúor. Ficar bochechando aquele negócio até quase vomitar, argh!

    Droga, vc me lembrou que semana que vem eu tenho limpeza + flúor de cereja from hell… ¬¬

    Então, mas não era bem uma “aplicação de fluor”. Envolvia extração de dentes e limpeza étnica. Milosevic era uma criança perto dele…

  2. Nayara disse:

    huahuauh toda merenda de escola tem gosto de frango. A carne, salsicha, frango, peixe, arroz, tudo tem gosto de frango. Se bobear, até as frutas que serviam de munição pra eventuais guerras no pátio tb tinham gosto de frango hauhau.

    Uma vez distribuiram a broa de milho mais dura do Universo. Nunca vi tanta criança com escoriações… =P

  3. RodOgrO disse:

    hahahahahahahah

    Cara, se esconder no banheiro era regra! rs! Na minha escola a loira do banheiro só assombrava as meninas… a gente podia cabular em paz. \o/

    Pô, tem alguma explicação para isso? A loira era lésbica? =P

  4. ivym disse:

    Merenda clássica na escola era macarrão parafuso com carne moída, “sucrilhos” com leite morno, ovo cozido ou banana (mas só um deles de cada vez, claro).

    Agora eu entendo meu estômago semi-chumbado =P

    Junta tudo isso e coloca em Teerã para você ver se não vira uma bomba nuclear… =P

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