Recordar é viver e deixar morrer

Encontrá-la assim, depois de tanto tempo, seria estranho. Porque desde aquele “tchau” seguido de uma porta batida com louvor, ele não sabia direito o que sentiria quando a visse de novo. Todas as coisas que foram embora, os discos, os livros, as fotos, as panelas herdadas pela mãe, tudo aquilo voltaria. Mas ele não queria saber mais da coletânea “Coisas que eram nossas”, porque tinham virado o acervo “Coisas dela”. E tinha esquecido. Ou pelo menos tinha parado de lembrar, algo que difere da primeira sensação.

Mas marcaram de se ver. E a dúvida o consumia. “Compro uma arma? Uma flor? Uma cartolina e um pincel atômico, para grafar um sonoro ‘vá tomar no cu’, cicuta?”. Resolveu comprar uma flor, mas levou a arma que tinha em casa, por precaução.

No caminho foi lembrando do fim. De como teve vontade de descer os dez andares e, lá embaixo, com a chuva molhando a camiseta de super-herói que usava, dizer que ainda a amava e que suportaria qualquer coisa desde que ela ficasse. Achou a cena um tanto Meg Ryan encontra Kevin Smith e desistiu. Teve a brilhante idéia de ligar mas, maldita tecnologia, não foi atendido. Comprou a arma e se deixou vagar por diversas situações que envolviam sangue, risos e um “eu avisei”, vindo do escuro. O tiro sairia do claro pois, apesar de noir, ainda era romance dramalhão.

Pensou em chegar atirando, no melhor estilo O.K. Corral. Nada melhor para curar o frio assassinato de um coração do que um banho de sangue. Não, não era isso. Ele queria apenas Justiça, sem ser brega. Olho por olho, dente por dente. Deu azar porque chegou no horário. Perdeu todo o elemento surpresa sentando a mesa.

Ela chegou minutos depois. Continuava bonita, melhor até do que antes. Deu um olá respeitoso, ajeitou de forma muito da filha da puta a saia na hora de sentar. A arma cutucou-lhe o estômago. Ele ainda tinha boa mira e não precisava esperar que Greddo atirasse primeiro. Riu sozinho ao lembrar de Han Solo.

Então começou a parte chata da conversa. O famoso “como vai você?”, onde normalmente as pessoas que saíram por cima esfregam a vitória àqueles que foram obrigados a assinar a rendição. Hitler e Roosevelt tomando um café.

– Estou ótima. Casei há dois meses.
– Como?
– É, lembra do Carlos, aquele nosso amigo de faculdade?
– Sim, lembro… – um cara pior do que ele, inaceitável.
– Então…

Deu um gole no café buscando calma. A calma não veio e, arma a mão, levantou da cadeira com rispidez:

– Que merda!

Dois tiros secos. Ela olhou indignada. Todos olharam indignados e com medo.

– Mas o quê? Por que diabos você fez isso?!
– O café daqui é uma merda! Vamos para minha casa tomar uma coisa melhor.

Ela levantou, deixou dinheiro em cima da mesa e foi. Tinha deixado de ser dele, mas não tinha deixado de ser promíscua.

O pobre garçom morreu a caminho do hospital.

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7 pensamentos sobre “Recordar é viver e deixar morrer

  1. Leonor disse:

    Seria melhor se ele tivesse estourado a xícara com dois tiros. Terminar o texto com algo do tipo: “Ela levantou, deixou dinheiro em cima da mesa e foi. Tinha deixado de ser dele, mas não tinha deixado de ser promíscua. E ninguém chorou pela xícara estraçalhada em cima da mesa. Tinha sido ganha em uma promoção da Revista Caras.”

    :P

    Vou mandar todos os meus textos para você finalizar, Lelezoca. Sensacional!

  2. Marcia disse:

    Muito bom! =)
    Isso prova que mulheres podem ser tão fpd quanto os homens… Hahahahaha

    Mas ela seria FDP se saísse sem pagar a conta… =P

  3. Silent B disse:

    Nick Hornby meets Bukowski, hahahahahaha..

    Prefiro o final original mesmo.

    E, Dra. Pucca, mulheres normalmente são bem mais fdp que os homens.

    Hahahahahahahaha, pô, o final da Lelê é genial! \o/

  4. F. Schüler disse:

    “Hitler e Roosevelt tomando um café” é a cereja no sundae.

    E nem pediram bomba de chocolate, veja que encontro pacífico… *tum dum psh*

  5. disse:

    Você sabe que uma pessoa é nerd quando ela escreve que Greddo atirou primeiro. Depois você chora porque sabe do que ele está falando, e percebe que é um nerd também.

    Mas você é um trekker maldito… =P

  6. Eric Franco disse:

    Eu não sei o que é melhor. O texto do Julio, o final da Lelê ou o comentário do Zé.

    Fernando Henrique Cardoso, saia desse corpo… =P

  7. Monicake disse:

    E eu nem pensei em te revistar qd a gente se encontrou /heh
    hahahahaha :P

    Só ia achar armas pequenas… /heh hahahahahahaha

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