O pulo

Parado em frente à janela no décimo sétimo andar – alto para caraleo, ele pensava – João ouviu as últimas palavras antes do dia fatídico:

– JOÃO PULA! JOÃO PULA!

Não que a vida estivesse ruim, mas também não estava boa. Uma hipoteca aqui, uma conta atrasada acolá. A ex-mulher com os filhos e o pouco do dinheiro que sobrava. Ou seja, quase nada. O trabalho seguia o ritmo incessante de sempre, com o salário mais ínfimo do que nunca. Nenhum amigo no escritório ou fora dele. A bebida começava embaralhar os pensamentos, vez que cachaça é mais barata que cerveja e era uma época de garrafas magras. João olhou para baixo e mais uma vez escutou:

– JOÃO PULA! JOÃO PULA!

Respirou fundo como que para tomar coragem. Pensou nos amigos, nos filhos, na ex-esposa e no finado cachorro. Adorava aquele cachorro, o mais esperto entre todos os que pensara. Seu melhor amigo depois da bebida.

Lá embaixo, o movimento de sempre. Pessoas de um lado para o outro da rua, preocupadas com as suas coisas, as suas vidas. Hesitou por instantes, pensando que poderia acertar alguém na rua, alguma pessoa com a vida melhor que ele, sem hipotecas, com as coisas em dia e com os filhos. Ao mesmo tempo imaginava que boa ação faria se acertasse outro fodido tal qual ele. Duas sobreviências salvas. Quem sabe alcançaria o Reino dos Céus, ou o que o valha, pela boa ação de hoje. Ao divagar, ouviu o último aviso:

– JOÃO PULA! JOÃO PULA!

Os poucos segundos entre o décimo sétimo e o chão pareceram horas. Longe de hesitar, João achou que morreria de tédio antes do corpo se chocar contra o chão, espalhando jorro de sangue no tailleur de uma moça que passara a poucos metros. Lamentou o ocorrido e queria pagar pelo prejuízo. Se tivesse dinheiro e vida, claro.

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Office-boy há dois dias no escritório, Carlinhos não conhecia quase ninguém do décimo sétimo. E estranhou ao ver um malote aos cuidados do senhor João Pula. “Que tipo de gente tem um nome desse?”, pensou, imaginando como seriam as festas de Natal da família Pula, devaneio recheado por camas-elásticas e afins. As baias impossibilitavam que Carlinhos sequer enxergasse se estavam ocupadas ou não. Atrasado em dois andares, com o horário do expediente quase estourando, Carlinhos apelou ao vozeirão que lhe acrescia uns sete anos ao telefone:

– JOÃO PULA? JOÃO PULA!!

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5 pensamentos sobre “O pulo

  1. disse:

    Rá, esse Carlinhos tá sempre aprontando com o pessoal do escritório.

  2. Gabriel disse:

    inevitável pensar no João do Pulo.

  3. Gabriel disse:

    inevitável NÃO pensar…

  4. Mariana disse:

    Olá, seu blog foi indicado para o Prêmio Dardos. Veja mais detalhes no meu post mais recente. Parabéns!!

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