Sobre a realidade

Quando achou que não tinha mais nenhuma história para contar, Álvaro conheceu aquele que salvaria sua vida literária. A maneira foi das mais insólitas possíveis: o personagem tinha matado a mulher e o filho e ligado para ele logo após o duplo homícidio.

A primeira coisa a fazer foi procurar uma história do passado que pudesse ao menos justificar o ato. Nada demais na busca, homeme de classe média, estudou em boas escolas, cursou metade de uma boa faculdade e tinha um emprego que não era o pior dos trabalhos. A família não apresentava histórico de qualquer desvio de conduta, ao contrário, era formada por gente simples e trabalhadora. Álvaro folheava páginas e mais páginas buscando algo tão escabroso quanto os cinco tiros – três na esposa e dois no filho –  dados por aquele personagem comum demais para ser ficção.

O negócio então foi inventar fatos que dessem margem para o crime. Um pai beberrão, uma mãe ausente, um irmão viciado. Clichê demais, pensou. Talvez o pai pudesse ser um homem bom, mas a mãe – pilar de alguns desvios de caráter – a mãe tinha de ser uma megera sem fim, daquelas que colocam os filhos em situações inescapáveis de vergonha. Focou sua mira na mãe e, teclado em mãos, começou a descrever a mais cruel de todas as mulheres.

Ainda assim, faltava um motivo. Por que atirar na própria família? Brigas de casal, finanças no vermelho, o time perdendo mais uma na rodada do campeonato nacional? Não, nada disso, o personagem tinha atirado a esmo, nem por diversão foi. Perguntado por que fizera aquilo, ele não soube responder, e agora Álvaro tinha que narrar o inenarrável.

Talvez ele quisesse mostrar-se para o mundo. Sim, ele queria seus quinze minutos de fama, tinha cansado daquela vida mais ou menos de sempre. E se ele, para completar seu banho de sangue, matasse o autor do livro? As honras póstumas, os prêmios, as sessões de autógrafos perdidas porque o escritor, no momento de escrever sua dedicatória, encontrava-se sete palmos abaixo do seu leitor fiel. Sim, o personagem mataria o autor, passaria por cima da história, seria maior do que todos e, enfim, teria seu motivo.

Álvaro foi até a gaveta e pegou a arma. Na folha em branco, digitou seus últimos parágrafos, sua últimas linhas. Mandou por email para seu editor, dizendo que ele ligasse na manhã seguinte.

“A mesma arma que ceifara a viada de toda a família estava apontada para mim. O mesmo olhar frio, a postura de quem faz aquilo que quer, sem remorso. Dois, três, quatro tiros. Era irônico: eu chegava ao meu fim e minha história não tinha terminado”.

O personagem que nunca existiu acabara de matar o autor que era real.

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