A vingança é um prato que não se come

A Amélia era a menina mais estranha da escola. Claro, não que eu não fosse do tipo estranho. Mas se eu era estranho, a Amélia era de Marte. E como eu sempre tive azar no campo amoroso até a Imperatriz dominar o Império, a Amélia ficou afim de mim.

Imaginem a situação: você é um dos caras mais zoados da escola e, de repente, a menina marciana fica afim de você. Sério, se procriássemos à época, seria a criança mais zoada do mundo. O pai seria o nerd mais aloprado da escola. A mãe seria de Marte. A criança seria o Kurt Cobain, certeza.

Então eu decidi despistar a Amélia de todas as maneiras possíveis. Qualquer trabalho em dupla virava um martírio. E as poucas idas dela a porta da minha casa se transformavam em desculpas do tipo “em posso sair de casa, peguei ebola comendo um lanche na cantina”. Encontros ocasionais no recreio (era época do recreio ainda) rendiam escapadas dignas de Carlos Chacal correndo da Interpol. Foi uma sétima série tensa.

O tempo passou, Amélia desistiu e eu segui sem pegar ninguém na escola (em onze anos, um recorde imbatível até para quem estuda em colégios de freiras). Eu sei, eu devia ter ficado com ela, afinal de contas não podia escolher muito porque não era escolhido. Mas naquela época em não bebia, e este fator se mostra muito importante na hora de acordar – ou no caso andar de mãos dadas na saída da escola – ao lado de uma pessoa que veio de Marte.

Anos depois o Orkut apareceu e se tornou a principal ferramenta para procurar pessoas que estudaram contigo. Ou isso ou o Instituto Médico Legal, mas quem vai rever amigos bebendo leite ou vendo presunto, não é mesmo? Entrei em uma comunidade da escola e de repente vi o perfil de Amélia.

A história é mais ou menos de um filme de ficção científica. A marciana veio do seu planeta com aquele aspecto que causa repulsa. De repente ela vê uma mulher ruiva e resolve se transformar nela. Os humanos não ligam para o fato de ela continuar tão chata quanto as paisagens marcianas, graças ao poder de se transformar em qualquer ser animado que ela possui ou graças à bebida que te transforma em um mochileiro das galáxias. Pois é, Amélia tinha ficado bonita, muito bonita. Meia hora de conversa e ela tinha dado bola para mim. Eu deveria ter aprendido a ler os sinais, pois o plano de vendetta dela foi desenhado bem na minha frente.

Fui ao tal encontro pensando que sim, ela ainda teria aquela paixão maluca por mim. Eu tinha piorado ao longo dos anos, ela melhorado, mas eu era mais legal do que antes. Me vestia melhor, por exemplo, porque qualquer coisa é melhor que o uniforme da escola. E eu tinha conversa e paciência, armas necessárias para combater a ameaça que veio de Marte. Conversamos, recordamos histórias, falamos de pessoa da escola e, em certo momento, ela solta:

– Mas a coisa mais engraçada da escola é que eu era afim de ficar com você e nada. Agora você taí, doido para ficar comigo…
– E então?
– Então tchau, Júlio. Foi bom te ver de novo.

Eu queria ser abduzido, vejam a ironia.

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9 pensamentos sobre “A vingança é um prato que não se come

  1. Beijomeliga disse:

    Se você tivesse dado vodca pra Amélia, certeza teria sido diferente.
    \o/

  2. Junior disse:

    E cadê o link do orkut da Amélia???

  3. Eric Franco disse:

    Tinha uma mina que queria ficar comigo na sexta série. Armaram até um complô pra que a gente se beijasse numa encenação de um livro que a gente tinha que fazer. O problema é que ela era feia que nem o capeta e eu era o nego mais tímido da classe. Combinação explosiva.

    Eu tinha essa tática de evitá-la também, mas ela pagava coisas na cantina pra que os moleques me levassem até ela. Simplesmente ridículo. Aparentemente ela se curou dessa paixonite por mim ficando com uns 7 caras dentro de dois meses. Um recorde na época. =)

    Até hoje ainda tento encontrar aquele tribufu no Orkut, mas acho que ela morreu ou foi pra algum lugar sem acesso a internet, já que nunca a encontrei.

  4. Gabi disse:

    Imperatriz, mate a Amélia….
    Juliôôôôôô…. tome tenência menino…
    Beijos

  5. Gui disse:

    Nossa!
    Que coisa heim!!

  6. Gui disse:

    mas ainda acho que Amélia é um ET espião homosexual.

  7. Cintia disse:

    É parecido com o conto do “patinho feio”, por isso eu digo que é bom tentar ver a beleza interior da pessoa por mais que seja o exterior o que nos chame a atenção (traiçoeiramente).
    É curioso, mas quando revejo meus ex-colegas de escola constato que as que eram consideradas feinhas, como eu, atualmente estão mais bonitas que os garotões que torturavam os corações femininos em tempos de escola. A maioria dos garotos considerados lindos em minha época de escola, hoje estão barrigudos, calvos, andam mal-vestidos. E aí eu penso: quem te viu, quem te vê.

  8. Camila disse:

    Bem feito! Eu já fui Amélia! Rá!

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