O mundo só acaba quando termina

O mundo estava prestes a acabar. Já tinham anunciado, alguns faziam festa, outros choravam o fim. Pessoas saqueavam lojas, outras tiravam suas fortunas de diversos bancos para comprar um iate, um disco do Djavan ou qualquer outro tipo de coisa inútil. O nosso personagem acordou como se fosse um dia qualquer e foi para o bar. Não que ele fosse todos os dias, mas é que naquele em especial, o mundo acabaria.

– Zé, manda duas cervejas.
– Opa meu caro, é pra já!

Os jornais tinham razão. O sinal de afeição do dono do bar corroborou a teoria de que tudo teria um fim.

– E ae, perdeu muitos clientes?
– Não tanto quanto perderei amanhã…
– Mas eu acho estranho isso, tudo acabar de repente. Precisávamos pelo menos ter deixado as coisas em ordem. Porque não sabemos ao certo como vai acabar. Sabe, pode ser uma explosão, ok. Mas e se for, sei lá, um vírus. E as pessoas ou coisas que virão para cá depois?
– É como mudar de casa e deixar tudo cagado.
– Exatamente! A gente não pode simplesmente mudar. Temos de arrumar algumas coisas, para não tomarmos multa e tal.
– Mas quem vai nos multar?
– Sei lá. Os mais católicos dizem que Deus pode nos multar, por exemplo.
– Por mim, não dou a mínima. Meu bar não tem alvará e eu vou morrer. E outra, não sou do tipo que acredita em Deus. Eu já vi muita gente perdendo ou ganhando a vida nas garrafas daqui do bar.
– Uísque, o Deus engarrafado.
– Nossa Senhora é a vodca.
– Mas e aí, quais os planos para o fim do mundo?
– Sei lá. Estava pensando em viajar para um lugar muito longe.
– Todo mundo vai fazer isso.
– Eu digo, um lugar longe mesmo.
– Mas vai morrer em um avião? Porque se é hoje, com todo esse caos, você vai ter sorte se chegar em outro bairro.
– Bom, morrer em acidente aéreo não é bem o que eu planejava.
– Eu vou morrer no meu bar.
– Isso é muito bonito de sua parte.
– Bonito? Bonito é morrer numa suruba. Vou morrer aqui porque não tenho outro lugar para ir.
– Posso morrer aqui também?
– Claro!

E os dois passaram a noite bebendo, como se não houvesse mais amanhã. E não haveria, se a afeição do Zé e as notícias dos jornais estivessem corretas. Só que o mundo não acabou.

– Falou Zé!
– Opa, e a conta?
– Como assim?
– A conta, oras. Dois mil reais.
– DOIS MIL?
– Eu não tenho mais uma garrafa cheia por aqui, tenho?
– Olha Zé, eu não tenho a grana agora e…
– Ok, vamos deixar em branco, afinal de contas, “o mundo acabou”.
– Opa, obrigado…
– Obrigado uma porra. Não pegou o sarcasmo?
– Eu não acredito que você vai ser filho da puta a este ponto.
– É o mundo em que vivemos. Se você não gosta, torça para ele acabar.

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