Atingir em cheio

Estar sozinho é querer ser atingido em cheio, pensava Pedro. Talvez não da forma na qual foi atingido, mas o destino costuma empregar seus eufemismos de forma estranha. Então lá estava Pedro, caído no chão, desconhecidos à sua volta, preocupados com alguém que nunca viram na vida. Ao ser atingido em cheio pelo carro de Sabrina, Pedro não estava mais sozinho.

Sabrina achava que atingir em cheio era o ideal para acabar com a solidão. Tinha a família e alguns amigos, mas estes não eram mais curiosos com as suas coisas, não se interessavam por qualquer ato que ela viesse a cometer. Seu pai com certeza ignoraria aquele atropelamento, diferente das pessoas que a cercavam em busca de explicações.

Então os dois, anteriormente sozinhos,  uniram sua avaliações sobre como dar fim à solidão. De forma um tanto trágica, é de concordar, mas o que é a solidão senão uma grande comédia revestida de tragédia. Sabrina pedia desculpas e Pedro fazia o máximo de esforço para acenar que estava tudo bem. Não poderia por tudo a perder com alguém que lhe acertou em cheio.

A afeição dos dois, óbvio, não nasceu naquele momento. Sabrina se guiava pelo culpa e Pedro por uma maca.

O problema é como se comportar em tal situação. Uma pessoa atrasada como Pedro, poderia ir embora. Não vamos julgar a ação, mas sim a condição de cada um. Perder a hora poderia significar perder o emprego. Além do mais, por ser sozinho, Pedro estaria vingando a condição que o destino – ou qualquer culpado convieniente – lhe impôs. Poderia dizer ao atropelado “bem vindo ao meu mundo” e cantar os pneus o mais alto possível. Já Sabrina, em cima da hora, resolveu ficar para que o destino daquele jovem atropelado não fosse o mesmo que o seu. Longe da solidariedade piegas, o que valia mesmo era não pagar na mesma moeda a solidão que o mundo lhe impunha. Agia por um impulso de bondade para com o mundo, mas ao mesmo tempo dando um tapa em cada um daqueles que a fizeram sofrer, como dizendo, “cá estou, eu não sou vocês, aqueles que viram as costas para mim”. Era uma vingança pessoal que caiu do céu. Ou, no caso dessa história, atravessou a rua na hora errada.

(continua)

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Um pensamento sobre “Atingir em cheio

  1. camila disse:

    Odeio novela, libera logo o final…

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