O Capital

Tudo estava perfeitamente arrumado. A bala fora disparada de um local que aparentaria suicídio. Nenhum vestígio de digitais, fios de cabelo ou qualquer outra coisa que o incriminasse. A vontade de fumar um cigarro era enorme, mas uma grande prova o impedia. Deixou o quarto intacto.

Andando pelas ruas, acendeu um cigarro. Precisava também de uma bebida, um pouco de contato com ninguém, como sempre ocorre nos bares. Parou no primeiro que viu, uma espelunca que só tem razão de ser para pessoas que não tem mais qualquer razão de ser. Pediu uísque, sem gelo.

No fundo do bar, alguém o observava. Notou pelo estado de paranóia que estava após o ocorrido. Matar alguém, por mais frio que seja o assassina, sempre deixa vestígios. Pensamentos que flutuam, uma pista, uma pisada em falso, alguém que lê mentes. Você conspira contra si mesmo, independente do crime ser justificável ou não. Uma vida – por mais desgraçada que seja – se foi graças ao seu tiro.

Saiu do bar as pressas, deixando uma bela gorjeta. Andou um pouco pelas ruas e decidiu desopilar tudo aquilo com sexo. Parou em um prostíbulo próximo ao bar. Cada mulher que o encarava oferecendo os serviços era uma espécie de juiz. Via em seus rostos o desagravo, o julgamento e a condenação. Qualquer “docinho” era encarado como “assassino”. Pegou a primeira que viu e no quarto negou-lhe qualquer tipo de ereção. Tinha a culpa espalhada por todo o corpo, cada veia transportava um sentimento de pesar. Estava péssimo.

Estava novamente andando sem rumo, pensando em que diabos teria eito aquele homem que ele matara. Era ele um molestador de crianças? Um ditador sanguinário que havia tirado a vida de milhares? Ou apenas um contador que tentou roubar um grande chefe do crime pela última vez? Seja lá quem ele era ou o que tinha feito, uma bala no meio da testa era um julgamento precipitado. Existem as leis, os juízes, os poderes para que este homem fosse condenado.

Foi ao telefone mais próximo e ligou para quem poderia resolver tudo.

– Alô?
– O serviço foi feito?
– Como você sabia que…
– Foi feito?
– Sim. Sem vestígios.
– Ótimo. Amanhã de manhã, sua conta estará com alguns zeros a mais.
– Quantos?
– Entre seis e oito.

Desligou o telefone e foi para o bara mais próximo. Com a consciência renovada por mais alguns zeros na conta bancária.

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3 pensamentos sobre “O Capital

  1. Beijomeliga disse:

    Todo mundo tem seu preço. Menos o Jack \o/

  2. Rafael disse:

    Angustiado ou feliz, a parada é sempre o bar.

  3. André HP disse:

    Todo mundo tem seu preço. Menos o Jack \o/ [2]
    hsuehsuheusheusehs

    Forte Abraço!

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