Trinta desarmes não valem meio gol

Meu pai dizia que vida de zagueiro não era fácil. Quando ele deu aquela espirrada de taco na final de 68, ficou dois meses sem por a cara na rua. Dois meses completos. Parou de fumar nessa época, não por ter de amolar minha mãe, mas porque ele ficou dois meses completos dentro do clube. Sem ver a cara da rua.

Quando eu era pequeno, o esforço para que eu me tornasse atacante era Baltazariano. Uso o termo porque papai era fã do Baltazar, o artilheiro de Deus. Ele achava que a alcunha era real, que em algum momento o homem desceu do céu para marcar gol e subjugar zagueiros infiéis. Algumas vezes, eu também acreditava. Pois bem, por mais que papai rezasse por Baltazar, eu não marcava gols. E em um dos muitos perdidos, descobri a vocação para ter vida díficil.

O Alberto, que mais tarde seria um camisa 10, cruzou na medida. Eu medi velocidade, preparei o peito do pé e ela foi para trás, ligando o contra-ataque do adversário. Alguém na torcida gritou, decidido, que eu era mesmo filho do meu pai. Assim, sem exame de DNA nem nada.

E agora estou aqui, na final do campeonato, pensando se escolhi a profissão certa. Eu poderia ter estudado, aprender física para escapar daquela esfera que me dava um baita trabalho. Poderia ter sido um bancário, ao invés de largar meu emprego de office-boy no banco para cruzar a cidade no emprego mais difícil do mundo. Não adianta, eu não conseguiria fazer outra coisa. Sempre seria um atacante em qualquer outro trabalho.

Quando o Alcir veio para cima, eu juro que gelei. Lembrei do meu pai preso no centro de treinamento do clube, envergonhado até de me ver. O Alcir tem 18 anos, cruzou o país para estar aqui, nesta final, e agora vem pedalando, jogando as doze pernas que tem de um lado para o outro. Me sinto como em uma daquelas provas de resistência da Idade Média, vendo as foices de um lado para o outro protegerem o doce beijo da princesa. Abri os olhos a ponto de saltar as órbitas a qualquer impacto, olhei o Alcir e tirei a bola. Conquistei a filha do rei.

Mais tarde foi o Luiz, o cérebro do time. Ele me deu um corte tão bonito que eu quase bati palmas. Só deu tempo de olhar e secar para que ele chutasse a bola em Marte. A força de vontade era tanta que ee acertou um fotográfo. Se eu pensasse em Urano, não teríamos mais bola para jogar.

Perto do fim do jogo, estava feliz pela boa atuação. O empate era nosso e, com esse resultado, o título. O Lima, meu companheiro no trabalho infernal, era um Baltazar na zaga, atuando como se fizesse parte do time dos arcanjos. Isso, clao, até o Alcir meter a bola no meio das pernas dele. Estabanado, Lima correu atrás de Alcir como se ele fosse Lucífer em pessoa, prestes a furar a rede do gol divino. Alcir armou o chute e tomou uma pancada criminosa. O Lima, coitado, olhou para mim com aquela cara que meu pai olhava, dizendo que vida de zagueiro não é fácil.

Coitado do filho do Lima, vai ser mais um zagueiro no mundo.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: