Breguices

Há anos a humanidade busca o conceito de arte. Tem gente que vê arte nos quadros do Picasso, gente que prefere os desenhos do John Romita. Alguns acham que toda e qualquer expressão cultural é arte e ponto, desde o axé até as árias de Mozart. Cada povo tem a arte que melhor lhe convém e enrolações do tipo.

Agora, se existe uma arte que o cara tem de ser bom é a arte brega. Porque ser brega está além da compreensão humana, além de toda e qualquer convenção, técnicas e afins. Ser brega é falar com o coração e esperar ser ouvido pelo coração de outro (olha eu tentando).

Porque tocar o coração daquela empregada que rala para ganhar R$ 300 por mês, depois de percorrer metade da cidade enfurnada em um ônibus com outras 299 pessoas (a única paridade que o salário dela tem, livre de impostos claro) é tarefa hercúlea. Quando Amado Batista canta sobre o amor por uma menina de cadeira de rodas, aquilo soa infeliz, desgraçado e tocante para a pessoa. Pelo menos alguém no mundo está pior que ela, mas ainda assim ama e tal.

Outro ponto do brega é o humor. Nenhum outro tipo de música faz você rir com a desgraça ou a cafonice alheia. O rock é experimental demais para isso (se bem que nos anos 80 houve uma aproximação). O punk, muito político. O bolero é o bolero e ponto. A música brega não, ela ri de si mesma e ri de você. Vai que alguém te pega escutando Odair José? É chacota na certa.

E se tem um cara que faz isso muito bem é o Latino. Porque além de ser brega em tudo: no jeito de se vestir, no jeito de se portar no palco, Latino tem letras absurdamente bregas, com frases como a “desgraça da Katiaça”. Mesmo quando flerta com o sofrimento do amor, ele solta um “baby me leva” e você se pergunta: por que diabos eu tô ouvindo isso, rindo disso e principalmente gostando disso?

O Latino é antigo demais para os padrões de hoje, com suas batidas Double You e seus trocadilhos infames. Ele é um Eduardo Dusek menos perspicaz, ou menos elitizado se o termo convir. No seu nicho, o povo brega, ele é rei. Dusek é mais intelectual do ponto de vista povão (mas como gênio que é, fala das coisas do povo).

No top cinco de coisas toscas que eu acho foda, Latino está presente. Pois como já disse antes: se o Latino fosse uma pizza, seria mezzo batidas toscas dos anos oitenta, mezzo começo dos anos noventa, com borda recheada de funk (tem troco para cinquenta… centavos?).

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3 pensamentos sobre “Breguices

  1. Sol disse:

    E vc é o gato-mestre em termos de breguice, mesmo sem ser brega. Putz, o cara sabe tudo!!!!!

  2. Paulo Bono disse:

    Um cara de bigodinho cretino cantando
    “Só você que fascina aa
    Só você que me alucina ôô
    Só você que me faz delirar…”
    Vai tomar no cu com tanta breguice.

  3. Camila disse:

    hahahah
    Nunca vi tanta verdade em um texto. adorei.

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