Duplicidade para um personagem

Saiu mais cedo do trabalho pensando no quão sortudo era. Depois de três turnos seguidos, conseguira um pouco de tempo para si. Pegou suas coisas, ligou o carro e parou no trânsito. Milhares de pessoas cercavam a solidão do veículo. Pensava no paradoxo: algo feito para andar não conseguia sair do lugar. Viu sua vida diante dos olhos e praguejou não ser a morte.

Chegou em casa, afrouxou a gravata e sentou no sofá. Ligou a TV mecanicamente, já sabendo que não acharia nada de bom para ver. Parou em uma sitcom qualquer e esperou que o sono o abatesse.

Vinte minutos foram suficentes para fazê-lo levantar. Foi até a cozinha, o quarto, abriu a geladeira procurando alguém. Encontrou batatas, duas cervejas e um pouco de arroz do dia anterior. Riu das duas cervejas para um só personagem.

Abriu uma lata e sentou de novo em frente a TV. Dois cinzeiros na casa, só um deles usado. No quarto dois travesseiros, apenas um amassado. Olhou em volta buscando a segunda pessoa para tomar a outra cerveja, sujar o outro cinzeiro e dividir com ele o travesseiro. Pegou a gravata, voltou para o trabalho e praguejou, como sempre, a vida de assalariado.

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Um pensamento sobre “Duplicidade para um personagem

  1. Sol disse:

    Seria eu se eu usasse gravata.

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