O homem que tomou Naldecon

Papéis voavam pelas ruas. Carros virados, prédios em ruínas. Em uma rua deserta um ser metade homem, metade porco, chafurdava em busca de comida.

Casas, bares, locadoras de vídeo. Em todos os lugares não se via uma alma viva. A cidade não pulsava mais como antes, o caos cotidiano fora substituido por um silêncio sepulcral. Naquele canyon urbano, o vento tinha o som amplificado pela quietude. Havia cinco anos que nenhum celular tocava, que nenhum carro buzinava, nenhum político pronunciava a palavra epidemia. Livros pararam de ser publicados, jornais emporcalhavam as ruas.

Andando em duas patas o ser metade homem, metade porco revirava lixos, espiava dentro dos carros, olhava afoito para os lados sem saber se era homem ou se era porco. Avistou um bar com as mesas reviradas e uma porção de pururuca caida no chão. Guinchou algo que, tanto na língua dos suínos quanto na língua dos homens, denotava asco.

A poucos metros dali alguém espreitava. Carregando um rifle, aguardava o momento certo. Olhava fixamente para o homem-porco, esprando um vacilo, ou um som no meio da quietude que auxiliasse na caçada. Era o último homem do mundo, sedento por uma feijoada ou mesmo por um toucinho frito. Rastejou mais um pouco, colocou o olho na mira e viu o ser que, ao mesmo tempo que lhe causava asco, lhe dava pena e fome. Pensou que poderia ser seu irmão, seu pai. Mas não enxergava mais nada além de uma bizarra mutação. E um belo porco no rolete. Engatilhou o rifle, prendeu a respiração, prestou atenção no movimento do vento e atirou.

Um gincho gutural se espalhou. Como vendedores de água em meio ao trânsito, dois homens porcos apareceram para ver o ocorrido. Guinchavam algo que, tempos atrás, seria uma conversa sobre assassinato e as maselas da sociedade capitalista. Naquele dia, porém, não passavam de porcos. Malditos porcos que atrapalhavam o pernil e a costelinha de alguém faminto.

O último homem do mundo aguardou, apesar dos protestos de seu estômago. Acostumado aos sons que não aprendemos a entender – guinchos, roncos de estômagos, a barbárie no meio da noite – ele ouvia os protestos da barriga enquanto sonhava com suculentos pedaços de carne suína. Acompanhou com atenção a conversa entre aqueles homens que hoje eram animais. Não tinha tempo para pensar se tinha levado desgraça à família alheia, se tinha matado o amor da vida de alguém. Quem ia julgá-lo? Um porco? Em uma terra sem lei e sem ordem, vale o que diz o mais forte. E o mais forte dizia, naquele momento, que a ghora era proprícia para um churrasco.

Aguardou pacientemente até o começo da noite, quando os homens porcos desistiram do amigo abatido. Seriam eles policiais quando ainda eram homens? Estariam procurando uma prova criminal, realizando testes de balística? Ou eram apenas porcos chafurdando na desgraça alheia, indiferentes a qualquer outra coisa, tal qual animais que haviam se tornado? As perguntas lhe deram dor de cabeça. Levantou, arrumou o rifle nas costas e foi em direção ao jantar. Esta noite teria bacon, pernil e linguiça. Assim como ele, o cardápio era único em todo o planeta.

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