Catador de sonhos

Uma casa simples que demonstra grande apreço pela arte kistch e por escolas decorativas que remetem ao século XIV, onde homens e roedores conviviam de comum acordo nas ruas londrinas. Assim é a morada de José Olimpio da Silva. Com 42 anos, José tem a seriedade dos senhores de 70, adquirida com muito suor e trabalho recolhendo peças que a sociedade desdenha e que ele transforma em arte. Seu Zé, como é mais conhecido, não tem um dente sequer na boca, mas isso não impede que suas palavras sejam melodiosas a ponto de se tornarem incompreensíveis aos reles mortais. Mancando de um lado para o outro da sala com a graciosidade daqueles que arrastam o pé em penitência à própria grandeza, Seu Zé explica um pouco do seu trabalho, enquanto o halo produzido pela luz solar que invade seu aconchegante barraco ilumina sua cabeça calva e sábia. “Eu cato papel na rua o dia intero. Quando não faço isso, estou bebendo em botecos”. Até as mentes brilhantes precisam de um hobby.

José desafiou o sertão ainda cedo, após ver a mãe e o pai convalecerem por conta dos males da seca. A mãe, esbelta, morreu aos 87 anos aparentando a jovialidade dos 86. O pai, um homem sábio que tinha cursado a primeira série do primeiro grau, era considerado a biblioteca da cidade por conta dos dois exemplares do Diário de Pernambuco que carregava para cima e para baixo. “Ele sabia ler bem pouco, então o jornal servia mesmo era para as necessidades. Como não tínhamos o que comer, meu pai ficou com o jornal por vinte anos”, explica José, relativizando a vasta cultura do pai.

Sua mulher, Aparecida, surge na sala que também é quarto e faz as vezes de banheiro e cozinha. Vinte anos mais nova que José, Aparecida faz jus ao nome se destacando em meio ao monte de lixo e às ratazanas que correm faceiras pelo cômodo. Seu caminhar descalço, desencanado e ao mesmo tempo firme é faceiro, desviando ora das poças de urina, ora de um pedaço de carne que será bravamente disputado com os roedores que adornam a decoração da casa. Os pés de sola negra demonstram um desligamento total das convenções blasés as quais a sociedade está acostumada. Aparecida é simples, mas ao mesmo tempo tem porte de rainha. Uma aspirante à monarquia daquele feudo que, pelas instalações, não deve em nada aos palácios da Idade Média.

Ciro, o filho mais velho de José, chega em casa carregando um aparelho de som. Perguntado pelo pai onde conseguiu o artefato, dá de ombros com aquela simplicidade de uma criança de 28 anos e explica que “achou na casa de alguém”. O ofício diário do filho é vasculhar a propriedade alheia buscando items que possam ter utilidade na casa de José. Quando não faz isso, Ciro vai ao Parque da Luz ajudar crianças com dificuldade em usar drogas como o crack. Esse trabalho filantrópico rendeu a Ciro o apelido de “Avião”, embora muitos acreditem que o título seja por conta da beleza sui generis: orelha cortada ao meio, fruto de uma retirada mal sucedida na casa de um inescrupuloso bancário da cidade, e um olho azul turquesa por conta da catarata.

Apesar da vida bem sucedida e da linda família, José acredita que a vida poderia ser melhor. “Temos sete filhos, minha mulher está um bagaço e não temos nenhum dente!”, reclama de forma humildade, quase messiânica. Calçando as sandálias de Cristo, José  diz que, de qualquer forma, a vida não é de todo ruim. “Pelo menos a gente frauda um programa de auxílio do governo e meus filhos pegam emprestado leite da escola, que revendemos para os vizinhos a preços módicos”. O que faz o empresariado paulista que não chama este homem para presidir a Fiesp?

Este texto é uma homenagem à matéria da Rolling Stone sobre a atriz Fernanda Machado. Um exemplo de puxação de saco do jornalismo brasileiro, onde os adjetivos para exaltá-lo me fogem pois o jornalista usou todos que existem nesta e em outras línguas em sua matéria. Se a pagação de pau tivesse limites, a Rolling Stone estaria naquele patamar que separa o release copiado de uma matéria escrita.

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Um pensamento sobre “Catador de sonhos

  1. Rachel Juraski disse:

    Os pobres coitados querem fazer literatura da entrevista com mais uma modelo-atriz-apresentadora. Dá um desconto :)

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