O hipocondríaco

“As pessoas dizem que eu vivo fora da realidade, mas isso é muito fácil quando não se tem a menor idéia do que a realidade representa. Sabe, é fácil vir aqui, me amarrar nessa camisa – o termo me delicia, camisa – e dizer que eu sou completamente maluco quando não se tem a menor idéia de quem é são e de quem não é”. O médico continuava fazendo suas anotações, prestando atenção à planta que estava ao fundo da sala, o único objeto colorido naquele mar de brancura.

“Por que eu o matei? Não sei dizer. Não sei se foi vontade, se foi necessidade ou mesmo se foi por uma banalidade qualquer. Não vou alegar apagões de memória, dupla personalidade ou outro clichê do tipo. Eu simplesmente fui e matei o cara. Simples assim”. O olhar do médico desviou da planta por alguns instantes, uma súbita atenção lhe era visível nas têmporas errantes.

“Mas o que o levou a isso?”. “Posso te pedir um favor?”. “Claro!”. “Leve a merda da planta para sua casa. Analise ela, dê atenção ao caso dela. Eu estou perdido, condenado, fodido mesmo. Leve essa merda embora e me dê logo o maldito remédio”. A respiração do doutor começara a vacilar mais do que o normal.

“Porque é assim que se diagnostica alguém. Você fica olhando para uma merda de uma planta, uma filha da puta de uma planta, e não presta a menor atenção no que eu estou te dizendo, na minha ausência de motivos, na nossa busca por algo maior do que essa merda de diagnóstico que diz que eu simplesmente saí de mim e matei um desconhecido. Vai saber se não era uma maldita realidade, não sua, mas minha, que me fez jogá-lo do décimo oitavo andar depois de bater a cabeça dele no chão até que seus miolos se mostrassem”. O médico olhava receoso para os lados, em busca de ajuda do guarda mais próximo.

“E sabe o que é mais engraçado. Eu sinto um deja vu da coisa toda só de olhar para sua cara”. O médico correu até a porta e chamou os enfermeiros, que aplicaram doses incontáveis de sedativos. Em casa, o doutor não conseguia dormir, imaginando sua cabeça destroçada em um assoalho qualquer, seu cérebro reduzido a uma massa disforme misturada à urina de um beco qualquer.

No hospital, o paciente dormia o sono dos justos. Mesmo que a Justiça não fosse feita, seus problemas com insônia estavam curados. Ao menos por enquanto.

Anúncios

2 pensamentos sobre “O hipocondríaco

  1. paulo bono disse:

    De fudê.
    Médico filho da puta.

    abraço, imperador.

  2. charlotte disse:

    eu quase lembrei de mersault.

    :)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: