Somos todos jornalistas perante deus

A característica mais absurda do brasileiro é, sem dúvida, o gosto pela calamidade. Nós, os nascidos em terras antes portuguesas, adoramos fazer drama, chamar violinistas e a coisa toda de quando o barco está afundando. Se, por exemplo, alguém espalhar que nunca mais será fabricado um balde no Brasil, as pessoas entrarão em pânico como se fosse o fim, sei lá, da cerveja. Grupos de discussão, comunidades, blogs, jornais, todos vão exclamar “MEU DEUS, E AGORA QUE NÃO TEMOS BALDES!?!?!?!?!”. Uns culparão o Lula, outros a Secretaria da Fazenda por segurar o Imposto de Renda (afinal de contas é preciso ESTOCAR baldes!), outros o pai que não o fez nascer na Europa e por aí vai.

Agora o balde da vez é o diploma de jornalismo. Se você vive em um mundo legal, supimpa, daqueles onde vale a pena viver, deve não ter a menor ideia de que o Supremo Tribunal Federal derrubou ontem a obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão de jornalista. Pomposo, não é? Mas essa história do diploma é mais ou menos como a Lei Seca. Chegou, gelou o obrigatoriedade do oríficio alheio e depois acabou em papo de mesa de bar. Grande parte dos veículos de imprensa não exige que seus profissionais tenham diploma. E você maniqueísta que vier com aquela história de “ah, então é por isso que ninguém em jornal sabe escrever!”, vai ter como resposta o seguinte: essas pessoas estudaram jornalismo. Por um bom tempo até. Mas fazer um jornal diário não é fácil. Se fazer uma revista, com menos páginas e um mês de prazo já é doentio, imagina as sessenta páginas de um jornal? O cara não tem tempo de estudar e acaba por aprender o ofício na redação. Como um aprendiz, que nada mais é do que aquilo que você vai fazer na faculdade. Só que ganhando para isso.

Outra história boa é a minha: eu fiz quatro anos de jornalismo e não tenho diploma, mas trabalho na área. Afinal de contas, não é todo dia que você acorda empolgado e pensa “puta merda, que lindo pagar R$ 800 de faculdade!”. E olha, meu caso não é isolado – existem milhares de incompetentes como eu que não conseguiram passar na USP e acabaram no banco do SPC, extensão dos bancos das faculdades privadas. Então,eu não sou capaz de exercer a profissão? Eu estudei quatro anos, fiz provas que iam desde o separe as sílabas até a influência da Escola de Frankfurt no caso da Escola Base ou uma merda dessas. Não preciso dizer em qual me dei bem, preciso?

O que o país diz com o fim da exigência do diploma não é “school’s out for ever”, tal e qual o Alice Cooper. O que dizemos é que não é necessário passarmos quatro anos no banco dos reús para aprender jornalismo. Você pode ser especialista em economia e dominar a escrita e maneirismos jornalísticos. Você pode ser cozinheiro, como bem lembrou o Gilmar Mendes, e escrever em um caderno de gastronomia. Você pode até ser deputado e escrever na parte de classificados de putaria sem problema algum! O jornal não vai te escolher pelo pedaço de papel que você tem na parede do quarto. Ele vai te escolher pelo que você escreve, pelo quanto você vai corresponder – em diversos sentidos – para com o perfil do jornal. Se você cativa o público, se domina a escrita, se tem boa apuração, se bebe cerveja com a turma. E para isso não é necessário passar quatro anos ouvindo três frases do Marx, duas do Keynes e uma do Weber e sair dizendo “eu sei sociologia”. O mundo não é uma matrix, filhão. O conhecimento não chega com três frases. Aliás, tem momentos em que ele não chega com duas mil páginas.

O curso deve ser repensado? Claro. Acabará aquela história de “vou fazer jornalismo para ter um diploma e dar carteirada”? Óbvio. Mas acima de tudo, a qualidade dos nossos jornais – que por mais que reclamemos está muito bem em relação a outros lugares do mundo – não vai cair com o fim da exigência do diploma. O que não podemos é ficar cozinhando o assunto para sempre. Por mais que Gilmar Mendes diga que somos tal e qual cozinheiros.

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3 pensamentos sobre “Somos todos jornalistas perante deus

  1. Gênio, gênio. Penso exatamente isso. Curso de redação vc faz até com o Instituto Universal Brasileiro. Traquejo de jornalista, não se pega em bancos escolares!

  2. Rodogro disse:

    É muito barulho por nada (/Shakespeare). Como se fazer jornalismo e separar sílabas fosse tão difícil assim. heheh

    Agora, cozinhar é foda bagarái, sei que vc concorda.

  3. Lara disse:

    Faculdade de jornlismo é a coisa mais fail évar! E olha que eu tenho diploma, MTB e o escambau. Não ensina a ninguém a ser jornalista, aliás, não ensina nem a escrever. Sou a favor do fim do diploma e do fim desse engodo de curso.
    Gente, tô ficando muito na USP, acho q to rebelde.

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