Olha eu aqui

Começou a notar aquilo quando foi solenemente ignorado pelo caixa do supermercado. Perguntou uma, duas, três vezes se eles aceitavam o pagamento da compra no crédito. Pagou no débito e não ganhou nem um “obrigado”.

Na volta para casa a coisa tornou-se mais visível. Um carro quase o atropelou, três pessoas esbarraram como se ele não pudesse ser visto e um cachorro mijou no seu pé. O porteiro não lhe deu boa noite e o gato do vizinho fez que não o conhecia. Na secretária eletrônica, nenhuma mensagem. A caixa de email nem spam tinha. Zero followers no tuiter.

Quando finalmente chegou a conclusão de que era invisível, pensou em quantas oportunidades tinha perdido ao longo da vida. Os banhos da Alice, os banhos da Melissa e os banhos da Adriana. Claro que perdera também o dinheiro alheio em bancos que ele não dava a mínima, entradas furtivas no melhores bares da cidade e uma ou outra encoxada na Alice, na Melissa e na Adriana. Não há ética que resista a esses banhos.

Sem contar que pela ótica de quem não é visto, ética é algo que não faz parte do dia-a-dia. Afinal de contas se ninguém viu não foi feito. A sociedade passou anos se sustentando dessa forma e estamos bem, apesar de tudo. Porque ele, que como bônus não magoaria ninguém ou lesaria o próximo pelo menos aos olhos da sociedade, ia se furtar a detalhes tão mesquinhos? Se o mundo não o enxergava, melhor assim.

O dia amanheceu igual ao de ontem. As pessoas o ignoravam, não viam, passavam por cima. Desceu pela frente do ônibus sem qualquer tipo de protesto. Passou em uma loja de doces e pegou algumas guloseimas sem pagar. A loja de roupas não deu falta por duas jaquetas e três calças. Riu sozinho quando pensou o quão tolo era de roubar coisas que as pessoas não iam ver. Chegou duas horas depois no trabalho e o chefe não teve o trabalho de colocar um post it na mesa. Primeiro ônus da situação: ficar naquele emprego por uma eternidade.

Saiu para almoçar e não voltou. Comeu bem e não pagou a conta. Cobiçou com gula de glutão os seios da garçonete. Cogitou enfiar o nariz entre eles, como se estivesse a degustar um vinho. Desistiu pois não via como aquilo não poderia ser notado. Se tudo continuasse como estava, de amanhã isso não passaria.

Ligou para Andressa e sorriu ao ouvir sua caixa postal. Ela o notava. Quer dizer, quando estavam sozinhos, porque em público ele continuava a ser o invisível de sempre. Lembrou que nunca pagou contas em bares, mesmo na companhia de amigos. Ou melhor, de pessoas que pareciam enxergá-lo.

Chegou em casa e passou direto pela porta. A vizinha traia o marido com o zelador. Espiou um pouco, sem se sentir doentio ou repulsivo. O mundo já era assim com ele, sempre avesso à reciprocidade. Avistou o marido chegando, o bate boca e bate na cara. A vizinha saiu correndo, semi-nua,  atropelando quem via pela frente e quem não via. Pensou em ligar para a polícia mas vocês já sabem no ia dar. Resolveu dormir, porque amanhã seria o mesmo dia.

No café, olhou o decote da garçonete. Lembrou do dia anterior e, nariz empinado, adentrou o seio da moça como se fosse um bandeirante. Ela, indignada, deu-lhe dois tapas que seriam notados até por quem não via. Naquele mundo de “cegos” ela enxergara e não gostou do que viu. Já ele descobriu que o mundo apenas enxergava o que lhe convinha. E ele não tinha nada para ser mostrar.

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4 pensamentos sobre “Olha eu aqui

  1. Junior disse:

    O.O Seu filho da puta. Fóda o texto mano!!!

  2. Sol disse:

    Porque tem dias em que a gente se sente assim, tão transparente!?
    *suspiro

  3. Beijomeliga disse:

    Qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência?
    \o/

  4. Paulo Bono disse:

    Muito foda mesmo, meu irmão.
    Dava um curta.
    quem sabe.

    abraço

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