Subindo os créditos

A cena poderia ser muito bem de um filme, desses noir dos anos 50. Empurrei a porta com os pés, joguei a chave na mesa e, tirando os sapatos, avistei uma sombra sentada no sofá, fumaça de cigarro bruxuleando pela sala. A luz cinza da rua mostrava curvas. Pelo menos não era alguém que iria me matar, tal e qual acontecia nos filmes.

O interruptor falhou. Tentei lembrar da conta de luz, ou de algum desafeto disposto a derrubar o disjuntor de casa. A memória esqueceu os dois, mas se lembrou no mesmo instante da voz.

– Precisamos conversar.

Ela tinha uma arma apontada para o meu peito. Sempre teve.

– Sobre?
– Sobre nós, sobre tudo isso.

A fumaça cessou. O barulho dos carros foi substituido por um zumbido contínuo. O que era “tudo aquilo”? Aliás, “aquilo”? Precisava me informar melhor sobre. Precisava de fumaça, para dar clima. Acendi um cigarro.

– Você sempre soube, não é?
– O que?
– Que isso um dia poderia acontecer. Você preparou tudo isso. Essa luz, essa fotografia. Estava tudo no roteiro, era parte da trama toda.
– O contrário. O problema todo foi o improviso. Eu sempre gostei de histórias bem escritas. Nunca acreditei no dia-a-dia. É muito Tomates verdes fritos .
– O que você queria?
– Eu queria mais ação.
– Eu não tenho tino para Michael Bay.
– Ou mais emoção.
– Tomates verdes fritos é emoção.
– Emoção de verdade, não sono.
– Como Casablanca?
– Isso.

Eu sabia o filme preferido de cada pessoa. Mas esse não era o meu.

– Quer água com açúcar.
– Prefiro um café.
– Não, digo, o nosso roteiro.
– Eu quero ir para Paris.
– Mas nosso avião já partiu, certo?
– Já.
– E eu não estou nele, certo?
– Nós sempre teremos Paris.
– Não, não teremos. Eu nunca te levei para lá.
– Tá, nós sempre teremos Campos do Jordão.

Sempre incentivei o cinema nacional, qual o problema?

– Bom, eu vou.
– Para Paris?
– Não, para casa.
– É cedo.
– Sempre foi.

A porta bateu e me senti atingido por uma bala, como nos filmes noir dos anos 50. A diferença é que o roteiro era péssimo. Uma mistura de clichês de filmes bons e ruins. Mais ruins do que bons, é verdade. A única coisa que valia o ingresso era a fotografia. Aquelas curvas, a fumava de cigarro, a luz cinza dando o contraste entre o preto e o branco. Mas do que vale um Oscar de fotografia se nem na capa ele aparece?

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2 pensamentos sobre “Subindo os créditos

  1. falaaverdade disse:

    So sad…..Mas tive um Deja vu terrível!
    Eu já fui essa mulher na vida de um outro homem que não era sequer capaz de apontar Paris no meu mapa….
    beijos

  2. Eu tb já passei por isso, e me arrependo muito por não tê-lo abraçado nesta hora. Vou morrer com a dúvida… e se eu tivesse pedido p ele ficar?

    No mais sensacional… como todos os posts…

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