Karamázov, cadê meu carro?

Não sei se é de conhecimento de vocês, mas estou na saga do Irmãos Karamázov. Saga não por ser um livro chato, ao contrário. Mas é muito difícil. Dostoiévski te joga num turbilhão de ideias sobre religião, pobreza, relações humanas, a porra toda.

Quando eu comecei Crime e Castigo, tinha alguns engulos com a descrição de São Petersburgo e do apartamento do Raskólnikov. Era tudo muito pobre e triste, até doentio. Mas um trecho do Karamázov superou tudo que já foi escrito. O trecho trata da discussão dos irmãos Ivan e Alieksiêi Karamázov sobre Deus e as coisas da religião. Em determinado momento, Ivan já havia dito que “o estranho e surpreendente não seria o fato de Deus realmente existir; o que porém, surpreende é que essa ideia – a ideia da necessidade de Deus – possa ter subido à cabeça de um animal tão selvagem ou perverso como o homem, por ser ela tão santa, tão comovente, tão sábia e tão honrosa ao homem”. Mas a parte mais genial da disucussão sobre a existência divina ou sua necessidade e existir está no trecho abaixo, tão desgraçado quanto qualquer outra coisa que já li do russo biriteiro e jogador de caxeta:

O pai e a mãe de uma menininha de cinco anos, “pessoas honradíssimas, funcionários públicos, instruídos e educados”, tomaram-se de ódio por ela. Vê, torno a afirmar positivamente que existe uma peculiaridade em muitas criaturas da espécie humana – é o amor à tortura de crianças, e só de crianças. Esses mesmos supliciadores, como europeus instruídos e humanos que são, tratam todos os outros sujeitos da espécie humana até com benevolência e docilidade, mas adoram torturar crianças, até gostam de crianças nesse sentido. Neste caso, é precisamente o lado indefeso dessas criaturas que seduz os torturadores, e a credulidade angelical da criança, que não tem a quem recorrer, é o que inflama o sangue abjeto do torturador. Em todo homem, é claro, esconde-se uma fera, a fera da cólera, a fera da excitabilidade lasciva com os gritos da vítima supliciada, a fera que desconhece freios, dessacorrentada, a fera das doenças, da podagra e dos fígados adoecidos na devassidão. Esses pais instruídos sujeitaram a pobre meninha de cinco anos a todo tipo de suplícios. Espancaram, açoitaram, chutaram sem que eles mesmos soubessem por quê, transformaram todo seu corpo em esquimosses; por fim, chegaram até o requinte supremo: trancaram-na uma noite inteira de frio e gela em uma latrina só porque, durante a noite, ela não pediu para fazer suas necessidades (como se uma criança de cinco anos, em seu pesado sono de anjo, já fosse capaz de pedir para fazer suas necessidades); por isso lhe lambuzaram todo o rosto com suas fezes e a obrigaram a comê-las, a mãe fez isso, a mãe a obrigou! E essa mãe conseguiu dormir, enquanto se ouviam durante a noite os gemidos da pobre criancinha trancada naquele lugar sórdido! Compreendes quando um pequeno ser, que ainda não tem condição sequer de entender o que se faz com ele, trancado naquele lugar sórdido, no escuro e no frio, bate com seus punhozinhos minúsculos no peitinho martirizado e chora as lágrimas de sangue, complacentes e dóceis, pedindo ao “Deusinho” que o proteja ali – tu entendes esse absurdo meu amigo e irmão, meu dócil noviço de Deus, entende para que serve esse absurdo e para que ele foi criado? Sem ele, dizem, o homem não conseguiria viver na Terra, pois não teria conhecido o bem e o mal. Para que conhecer esse bem e esse mal dos diabos a um preço tão alto? Sim, porque nesse caso o mundo inteiro do conhecimento não valeria essas lágrimas de uma criancinha dirigida ao seu “Deusinho”. Não falo do sofrimento dos adultos, estes comeram a maçã e o diabo que os carregue, e carregue a todos, mas elas, as crianças!

Eu queria até saber o que dizer, mas eu sou burro demais para entrar no mérito da discussão. A única coisa que consigo expressar é DOSTOIÉVSKI SEU DOENTE SE TRATA! Pena que o barba já morreu.

PS: segundo o tradutor do livro, tratam-se de histórias reais muito estudadas pelo Dostoiévski. Doente.

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6 pensamentos sobre “Karamázov, cadê meu carro?

  1. vanessa disse:

    obrigada por este trauma eterno na minha vida +_+

  2. grego disse:

    hahaha mas ate que o barbudo tinha razão. eu empaquei no meio do crime e castigo, nao consigo embalar nem fudendo. Joannis

  3. ap disse:

    fu.ti.to… todos temos nosso lado perverso e sádico. Uns menos, outros mais, outros BEM MAIS… uhauhahhua!

  4. roberta disse:

    vai lá, fala com ela, faz alguma coisa.

  5. I cannot believe that this can be true

  6. Alexandre Sousa disse:

    Imperador, precisas ler mais, ter muito mais bagagem de leitura para entender o “russo biriteiro e jogador de caxeta” (boa!). Vejo que você é um jovem bem intencionado, mas Dostoiévski não é para iniciantes…
    Não se prenda ao que está escrito e tente absorver as entrelinhas e lembre sempre que a mente criativa desse grande autor se baseava na sociedade russa do século XIX, tempos difíceis, mas não menos bárbaros que os de hoje.
    Está em um bom caminho, aproveite para ler mais livros e ficar menos tempo na internet… Abraços e boa temporada no time Roma para você!

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