A vingança é um prato que se come frio, vencido e sem sal

Oito anos. Você rumina aquilo todo dia por oito anos. Faz planos mirabolantes que só a Acme pode tornar real. Pensa em um título, em uma grande festa, nos jornais exaltando sua volta por cima. Pensa no rival engolindo o choro. Ou até mesmo chorando copiosamente. Pensa em não ser mais o segundo, em ir logo para o topo do mundo, sonha com o dia em que vão falar “libera a passagem, a corrida é dele”.

Oito anos e a vingança chega. Em uma prova que não vale nada para os dois. Disputa de décimo lugar. Ele está na sua frente. O espaço é curto, diferente dos longos oito anos em que você ficou preso em uma cela imaginária, elaborando sua vingança. Um Edmond Dantès em alta velocidade. Você olha para aquele espaço minúsculo. Cabe um carro? Não cabe? Caberá! Decidido, enfia o pé no acelerador como se fosse aquele queixo gigante, pisando cada vez mais fundo, atingindo velocidade como se os oito anos fossem oito milésimos de segundos. O rival tenta fechar a passagem, você passa rente ao muro, capaz de sentir o concreto roçando no capacete. A adrenalina vai a mil, você pensa na família, nos amigos, no Cleber Machado dizendo “HOJE NÃO, HOJE NÃO” histericamente. Talvez seja o Galvão narrando. Você não sabe. O carro do rival te empurra, você continua pisando, o muro passa, o carro vai para dentro, fecha na outra curva, o rival fica. Você respira aliviado. Oito anos.

Na reta, você pergunta: venci? Marcará um ponto. Está longe da liderança e não tem qualquer possibilidade de alcançá-la. Oito anos para isso. Você poderia ter enchido ele de porrada. Poderia ter sabotado o carro dele como no Corrida Maluca. Poderia ter comido a mulher dele e espalhado que o capacete do rival tem ares nórdicos. Mas aí invés disso, você esperou oito anos para pular do décimo primeiro para o décimo lugar. Você se sente o Batman, só que em uma cadeira de rodas.

Para você, a vingança é uma costela de boi feita no bafo. Só que, no final, você descobre que ela está sem sal.

PS: Se por um acaso alguém comentar que fracassado sou eu que não tenho a grana do piloto, eu não posso deixar de concordar.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: