De volta para os tempos verbais

No futuro os carros não voavam, as pessoas não vestiam  roupas dos anos 80 com  tema futurista. A única coisa realmente nova é que elas podiam voltar para o passado. Não era caro, não causava efeitos colaterais e, muito importante, você não ficava pelado durante a viagem. Pedro resolveu voltar aos 25. Lembrava da idade, não fazia tanto tempo assim. Mas queria dar umas dicas.

Fato importante é que não tinha esse negócio de não poder contar o futuro. O que tornou tudo uma bagunça ordenada, porque era algo sem regras. Todos voltavam, davam os nomes dos cavalos e acordavam milionários. O governo até incentivava essas coisas, porque previdência, poupança, ações na Bolsa, tudo isso era oneroso demais. Que custa imprimir dinheiro, pagar apostas e ficar tudo bem? No começo houve um colapso grande e as regras econômicas deixaram de existir, para facilitar as coisas. Pedro chegou e foi logo atrás dele, então com 25 anos. Encontrou no bar, pois já o conhecia de longa data.

– Posso?
– Er… não?
– Prazer, eu sou você amanhã.
– Opa, prazer, a andorinha européia leva três cocos sem cair.
– Como?
– Não é um código secreto?
– Não, se liga. Eu sou você, o Pedro, amanhã.
– Sério?
– É. Por quê?
– Tô mal.
– Se foder!
– Mas é.  O que foi isso? Cigarro? Bebida?
– Mas que filho da puta…
– Se você é mesmo do futuro…
– Eu sei, xinguei minha mãe, blábláblá. Mas escuta, eu sou do futuro.
– Ah tá, legal…
– Não te abala?
– Amigo, tô tão bêbado que você pode vir do futuro, do passado, montado em um unicórnio. Mal ae.
– Você não quer saber o que aconteceu com você?
– Tá, o que aconteceu comigo?
– Nada.
– Como assim, nada? Você tem o que, 57 anos?
– 42.
– QUARENTA E DOIS? Que cigarro você fuma? Tá pior que Chevette leproso!
– Não importa. Mas enfim, nada mudou. As coisas continuam as mesmas.
– A cara mudou. Infelizmente.
– O importante é que eu vim do futuro para te dar uma força. Seguinte, depois de amanhã você joga esses números na loteria. Ninguém vai ganhar nesse sorteio. Vai ser uma bolada toda sua.
– Ah tá…
– “Ah tá” não, porra! Presta atenção: vá na lotérica depois de amanhã e joga essa merda. Eu tenho que ir embora porque viagem no tempo é por hora. Vê se cuida de você, seu merda.
– Hahahahahahahahahaha…
– É eu sei, eu sou você, blábláblá.

Pedro voltou para o futuro e viu que a ida ao passado não mudara nada. Tentou mais duas vezes, sem efeito. Restou torcer para que o Pedro do futuro voltasse ao passado que é presente, já que o Pedro do passado continuava sem futuro.

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