O assassinato do Google Wave pelo covarde twitteiro

Noite de garoa. O vento estapeia o rosto com barba rala, acelerando a queima do cigarro. Aperta o paletó junto ao corpo, na vã esperança de diminuir o frio que sobe a espinha. Alguém assassinara uma ferramenta. Sem buzz. Sem nota no Mashable.

Sete pessoas se muito comentaram. Três lamentaram. Na mídia social é assim: vale a lei do maior pagerank. Quem não tem, se vira com um ou outro retweet. É uma cidade suja, fria, escura, chuvosa. Sem dono, sem lei. A justiça fica no processo, pulando de indignação em indignação como se fosse um macaco rejeitado pelo Stallone. No fim das contas, tudo acaba em nada.

Lembrou do gole de uísque dentro do bolso. Ganhara em uma ação entre outras tantas. Bebeu como se fosse o último gole da internet, sabendo que semana que vem teria outra. Aplacou o frio por instantes. Sentiu coragem de bater em blogs, de chegar chegando em sites, de apertar alguns MSNs. De fazer justiça e trazer de volta alguém tão querido. Não entendia como as pessoas conseguiam não gostar de uma ferramenta tão útil. Um porteiro que estava perto da cena do crime contou o que viu. “Foi um bando, nunca vi igual. Chegaram, atiraram, mataram. A sangue frio”.

O depoimento não serviu para nada. Eram todos rostos na multidão, navegando pelas ruas, parando de perfil em perfil e desaparecendo na grande rede. A única testemunha ocular tinha dois followers para contar. Lembrou do uísque vazio na jaqueta e lamentou ter trollado a ação de vodca semana passada. Podia ser barata. Mas aquilo era a internet, o lugar mais free do mundo. E não se trata de liberdade.

Puxou mais um cigarro. Tentou acender três vezes, impaciente. Conseguiu e a chuva apertou, socando-lhe o rosto como um pugilista desesperado em começo de carreira. Ele era o velho, o ultrapassado. Ele era uma das poucas pessoas que, naquele dia, choraram a morte do Google Wave.

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Um pensamento sobre “O assassinato do Google Wave pelo covarde twitteiro

  1. Trotta disse:

    Deu até pra ver a salinha iluminada com a luz que passava pelas frestas da persiana na janela. O detetive com os pés sobre a mesa.

    Uma mulher solitária e misteriosa deve entrar chorando por aquela porta a qualquer momento.

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