O candidato

Levantei no susto, de um salto só, olhos piscos, cabeça doendo. Devia parar com essa história de beber em dia de eleição. Caminhei para o banheiro, mirei o vaso com dificuldade, fiz concha com as mãos, molhei o rosto, escovei os dentes. Da TV vinha um ruído distante. Algumas pessoas gritavam “Plínio, Plínio”, mas não prestei atenção. O repórter falava em momento histórico. Precisava de um café.

O Plínio acordou como se fosse outro dia qualquer. A agenda era ir no partido, dar um alô para os amigos, agradecer o apoio e voltar para qualquer lugar no ostracismo vermelho. Lembrou quando o Cavaleiro da Esperança disse que ele iria longe. E foi mesmo, pelo menos no que diz a idade. Parou para pensar na sua falta de sorte: em um regime que exige vitalidade de seu líder, ele estava lá, firme e forte, sem nunca ter instaurado uma revolta sequer em casa. Imaginou se tudo tivesse dado certo nos anos 60, ele tomando o lugar do Jango e ficando com seu Speer particular, o Niemeyer, por uns duzentos anos no poder. A medicina avançaria, a ciência poderia dar uma força. Desistiu dessa ideia enquanto tomava café.

Olhei para a TV meio as cegas, com a cabeça em outro lugar. Vi que bandeiras com o rosto do Plínio enchiam as ruas, os prédios. Vi o repórter repetindo o nome do candidato. Quando ele disse que, com mais de 70% dos votos, Plínio de Arruda Sampaio foi eleito o presidente do Brasil, eu derrubei café no chão e queimei o pé.

O Plínio não tinha mania de ver TV pela manhã. Saiu para comprar o jornal e lamentar com os amigos mais uma derrota. Não acompanhara a apuração pois estava com raiva dos concorrentes. “Quem pensam que são?”, perguntou. “O falso liberal, a stalinista de bigode e a Ho Chi Min da selva, hahahaha, Amazonas é o Vietnã. Para o inferno, todos eles!”. Foi dormir cedo porque uma coisa era certa: ia passar mais um ano em branco.

Corri e liguei o computador para confirmar a história. Estava todo mundo muito perdido, como se fosse o 11 de setembro com uma diferença: ao invés de terroristas sauditas, o EUA tinham sido atacado por pandas. As informações eram desencontradas, mas o resultado era o mesmo: Plínio era o presidente. Pessoas perguntavam quem tinha organizado a ação, quem tinha plantado aquela semente nas pessoas, quem gerou o buzz. Tinha gente culpando a Veja, o Paulo Henrique Amorim, o Bonner. Outros diziam que a culpa era da inclusão digital e havia quem encampasse a ideia de que os velhos finalmente resolveram votar e escolheram um igual. Desisti daquilo e fui fumar um cigarro.

Plínio foi recebido por uma avalanche de repórteres na porta do seu prédio. Não teve tempo sequer de fazer pose, atingido por dezenas de flashes e milhares de perguntas. “Vai mesmo fechar o Senado? É verdade que o senhor vai adotar o Livro Vermelho como a nova Caminho Suave? O senhor vai estatizar a Telefonica? Como ficará a situação de presos políticos como César Maia, José Sarney e outros?”. Atônito, Plinio bateu a porta na cara deles e correu para o televisor mais próximo, que passava a biografia do candidato e toda sua luta para chegar ali, naquele dia. Melancólico, olhou para a TV e bebeu com amargura aquela vitória.

[continua]

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Um pensamento sobre “O candidato

  1. […] agosto 25, 2010 por Júlio César A primeira parte desse texto está aqui. […]

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