O eleito

A primeira parte desse texto está aqui.

Janeiro chegou e com ele a posse. Após três meses ainda era difícil acreditar naquela vitória, no primeiro turno. Lembrou de ver na televisão o resultado e balançar a cabeça em desacordo. A campanha tinha sido pífia tal e qual sempre e o Ibope dava menos de um por cento de chance. Era mais fácil o mundo acabar do que aquilo acontecer.

Plínio levantou animado. Já que a merda aconteceu, o negócio era nadar de braçada. Saiu sorridente, encarou os fotógrafos com o melhor rosto que tinha. Não era bom, mas fez o melhor que pode. Imaginou a rampa. Ia ficar no Alvorada ou no Torto? Pensava como seria ruim deixar São Paulo, acostumado que estava aos prédios velhos e aquela decadência saudosa do Centro. Deixou tudo isso de lado e tornou a pensar na rampa. “Estou velho demais para subir”, pensou.

O Rolls Royce dado pelo Roosevelt passou por uma população atônita. Todos ali tinham votado nele, mas não contavam que seus pares fariam o mesmo. Era o sentimento da nação: eu votei no Plínio, mas você votar nele também, que coisa. As pessoas se olhavam com um misto de vergonha e orgulho: juntos todos achavam que fizeram merda, mas a sós pensavam no seu poder de colocar o homem no topo da nação. O rosto espantado do Lula era mostra daquele cenário surreal onde um homem que tivera a cabeça afagada pelo Luis Carlos Prestes recebia agora a faixa presidencial.

Plínio vestira seu melhor suéter, mais um da coleção de roupas horrorosas. O choque do cerimonial foi tão grande que a segurança relaxou, aparentemente sonhando com um atentado ao presidente. Mas quem teria coragem de atirar naquele velhinho um tanto encurvado que se dirigia ao Palácio como quem vai para o calabouço? Não tínhamos essa pecha de facínoras que saem por aí atirando em presidentes. O único que morreu na bala fez questão de atirar em si próprio, porque somos meio preguiçosos, ainda bem. A gente mal pinta a cara, quem dirá atirar naquele senhor que poderia ser nosso avô.

O Lula passou a faixa e falou umas bobagens sobre a vitória da democracia. Plínio olhou para ele pensativo. “Como ele envelheceu nesses oito anos! O que vou fazer, envelhecer mais do que isso?”. Imaginou virando poeira durante uma Conferência na ONU, como se fosse um faraó egípcio que via aos poucos pequenos grãos enchendo o ar. Primeiro as mãos, pernas, troncos, cabeça. Parou de divagar quando chegou a hora do discurso de posse.

“É difícil discursar sobre o improvável. Há menos de um ano atrás eu estava participando de poucos debates e tinha pouco tempo de televisão. Agora estou aqui. Graças a vocês, graças ao voto de protesto, graças a sei lá o que. Vou ser sincero: não tenho plano de governo. Aliás, não tenho plano nenhum. Meu plano era ficar em uma posição confortável nessas eleições, gritar umas bravatas comunistas e, com sorte, ser uma espécie de novo Enéias. De repente vi que ganhei a eleição, que seria o homem a frente de toda uma nação. Eu venci, a democracia venceu e se tivéssemos uma bolsa de apostas para candidatos a presidência, alguém estaria milionário. Uma coisa eu prometo: farei de tudo para transformar o Brasil em um lugar melhor. Se vou conseguir, só Deus – vejam a ironia das coisas – sabe. Mas eu vou tentar”.

As pessoas queriam rir, mas não conseguiam. Fora engraçado – o Lula pensou naqueles que falavam que seus discursos beiravam a sandice – mas ao mesmo tempo fora de uma sinceridade que chegava a doer. Pela primeira vez alguém que efetivamente não contava em subir a rampa subiu. Encurvado, cansado, cheio de dúvidas.

[continua]

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