Apocalipse humano

Capítulo 1 – O bar mais próximo

É desconhecido quando o primeiro zumbi virou humano. Sabe-se apenas que ele saiu a procura de um bar e, quando encontrou, bebeu cerveja vencida como se fosse recém fabricada.

O fato e que as coisas iam bem desde que o último humano teve o cérebro devorado e virou um ser que caminha como um bêbado em uma daquelas pontes dos filmes de Indiana Jones. Cerca de quatro anos após o ultimo ataque, os zumbis evoluíram e muito, criando escolas, centros de pesquisa e uma fábrica de cérebros com faturamento de fazer inveja a qualquer gigante de mercado quando os humanos ainda existiam. Isso sem contar, claro, a involução intelectual, responsável pelo fim dos dilemas, das religiões, das formas de pensar antagônicas e, principalmente, do fim da opinião. Esse retrocesso foi de suma importância para a, digamos, desumanidade, vez que sem divergências não há brigas e sem brigas a humanidade evolui pelo menos em qualidade de vida. Ou desumanidade, no caso em questão.

Pois bem, agora o motivo era para pânico. Se um virou humano assim, quase do nada, outros poderiam virar. Em pouco tempo voltariam os tiros na cabeça, as caçadas sem misericórdia, toda aquela histeria com aqueles que eram e que voltarão a ser “os mortos vivos”. Algo precisava ser feito. Rapidamente.

Antonio Mascarenhas vestiu seu terno puído, beijou o lado da face que ainda restava da esposa, coçou com cuidado parte do crânio exposto do filho mais novo e saiu para o trabalho. Saiu de casa e avistou a pilha de automóveis destruídos, as casas caindo aos pedaços. Encontrou o vizinho a porta, também de saída.

“Booooooooooooom diiiiiiiiiiiiiiaaaaaaaaaaaa”, disse sôfrego.

“Diiiiiiiiiiiiiiiiiiiaaaaaaaaaaaaaaa”, respondeu o vizinho, como se estivesse a beira da morte.

Antonio foi andando a passos lentos e nem um pouco decididos. Para ele era uma bela manhã. Ele só não sabia o que estava reservado naquele dia.

O Escritório de Assuntos Zumbis amanhecera agitado. Funcionários corriam, ou melhor, andavam lentamente de um lado para o outro, preparando documentos para a declaração oficial sobre a novidade: um humano acordara entre eles aquela manhã e isso só poderia ser ruim. Estagiários colhiam todos os documentos que não foram destruídos, advogados discutiam como bater de frente com a Liga dos Zumbis Pela Humanidade que, ao que parece, começaria de novo a atuar em defesa dos “vivos-vivos” como eram sarcasticamente chamados. A equipe de relacionamento de imprensa do presidente preparava um discurso para acalmar a população e o serviço secreto trabalhava para descobrir se era um fenômeno mundial. Antonio deu bom dia a todos em sua sala quando chegou, mas quase não foi ouvido.

Quando acordou de um sonho estranho, Carlos teve a sensação de que precisava ir ao banheiro. Não que necessidades fisiológicas fossem uma constante na vida de um zumbi. Ao contrário, por não se incomodarem com o cheiro podre que emanava do povo mais do que o poder da constituição, suprir esse tipo de necessidade estava fora de cogitação. Mas uma estranha e súbita sensação fez com que ele partisse em direção a privada fora de uso há anos e despejasse dentro dela toda a urina que estava em sua bexiga. Deu descarga e, mecanicamente, foi ao espelho mais próximo. Um escorregão, próximo a um desmaio, quase causou um acidente. Carlos não tinha mais a órbita do olho esquerdo inteiramente a mostra. A sua bochecha direita estava inteira, como era antes. E seu cabelo, apesar de ainda um pouco ralo, estava maior. Bem maior. Sentiu um cheiro nauseabundo, como se estivesse no meio da maior pilha de podridão que o homem fosse capaz de fazer. E estava.

Correu em direção a sala e olhou para rua. Viu o vizinho da frente, o Aristeu, devorando um cérebro brilhante, não no sentido einsteniano da coisa, mas sim brilhante como o luar, um diamante, um quindim bem preparado. Sentiu vontade de vomitar, mas guardou para si junto com um grito de horror. Seria imprudente e deselegante atrapalhar o  jantar de um morto-vivo.

Revirando as gavetas em busca de uma muda de roupa que não tivesse virado uma pilha de trapos fedorentos, Carlos encontrava fotos antigas. Via nelas o mesmo cara que viu no espelho minutos atrás, com um pouco mais de cabelo e uma cor melhor, mas ainda assim o mesmo cara. Precisava sair dali antes que fosse descoberto. Cérebro enlatado poderia ser bom, apesar da ânsia de vomito causada por sequer pensar em comer aquilo, porém um fresco, recém saído de uma caixa craniana era tão raro quanto um bife em uma situação como aquela. Pensou para onde poderia ir, se haveria mais alguém que tivesse passado pelo mesmo que ele passara há pouco, se haveria mais humanos. Riu quando se lembrou do termo “vivos-vivos”. Achou uma roupa decente e foi ao bar.

 

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4 pensamentos sobre “Apocalipse humano

  1. Robson Assis disse:

    Sensacional, pra deixar barato.

    Aguardo os próximos.

  2. Markinhos disse:

    ZOMBIES ARE BADASS!

  3. Kika disse:

    MUITO bom! Sou muito fã do gênero e adorei ver a situação invertida!

  4. João Pedro disse:

    aguardando a continuação

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