Um libelo desesperado em defesa do saudosismo – com comentários

Autor de onze livros, Carlos Cardoso é um desses escritores que surgem a cada alvorada de século, espécie de Maquiavel dois ponto zero. É quando a humanidade perde toda a esperança e alguém, caçando livros sobre Linux em uma biblioteca que é só destroços pós desastre nuclear exclama “IRMÃOS, EIS A LUZ!”. E aí está, eu como imperador que não sou, vou dar uma de Napoleão e comentar esse que é O Príncipe dos escritos na web. O esquema é o de sempre: Cardosão em negrito, eu na brancura.

Existe toda uma classe de pessoas que vive no passado. São versões reais do Vovô Simpson, sempre criticando o presente e temendo o futuro, sempre dizendo o quanto o passado que muitos sequer viveram era bem melhor.

Logo na aberura Cardoso destaca um tema importante. Na Alemanha, por exemplo, é comum o fenômeno da Ostalgie, onde a juventude alemã é piradona em produtos do tempo em que o Muro de Berlim não estava nas entranhas do Humberto Gessinger. É gente que não viveu as agruras do comunismo e agora está toda pimpona pavoneando que o comunismo era legal, uh-terêrê. Cardoso reclama de ser da Família Dinossauro da saudade, e nem é pelo sobre-peso, seus maldosos.

Eu gostaria de ser como eles, gostaria mesmo. Queria poder dizer que meu CP-200 com 16KB de memória era melhor do que meu Mac ou meu PC, ambos com 4GB.

Aqui Cardoso mostra parte da sua declaração do Imposto de Renda 2011. Um Mac e um PC. Check!

Queria ter a cara de pau desse pessoal, a visão seletiva de mundo que considera aquelas máquinas feitas de barro fofo e pedra lascada melhores pois “não travavam”- o que é mentira, aliás.

Cardoso – escritor de onze livros – esqueceu uma vírgula depois de “mundo”. Relevemos.

Queria ser saudosista e dizer que monstros com zíper eram melhores que os monstros atuais, ou que as cenas de combate da série clássica eram melhores que a magnífica batalha final contra o Dominion em Star Trek: Deep Space Nine, com milhares de naves na tela, em um conflito épico.

Espera, me confundi: existe um Deep Space Nine clássico. Ou falamos de uma mesma franquia, porém com outros personagens? Esse trecho é o Ulisses desse autor de onze livros.

Queria ser do grupo que defende cegamente a série original de Galactica (que amo profundamente) nem que para isso tenham que elogiar um garoto chato e um cachorro-robô, e fingir que o Comandante Adama de Edward James Olmos não é um líder que qualquer um seguiria até o Inferno.

Não curto Battlestar Galactica, mas quem sou eu senão o cara que nunca escreveu um livro.

Queria poder dizer que comprar revistas de péssima qualidade no jornaleiro conivente e sintonizar o TV Link do vizinho era uma forma mais conveniente de acessar pornografia do que a Internet, mas não consigo, até porque digitar com uma só mão é complicado.

BEHOLD que Maquiavel escreveu esse texto se masturbando, esse Cardoso é o rei da ironia.

Queria poder dizer que o mundo era mais pacífico, mas crescer à beira de uma Guerra Total Termonuclear me faz ver conflitos no Oriente Médio como no máximo briguinhas.

Isso está parecendo aquela música do Titãs, Epitáfio. Não está?

Queria poder dizer que a música de antigamente era melhor, mas boa parte da música boa de minha juventude já era velha. Ela se manteve, o que surgiu de bom continua e o descartável foi esquecido. Como sempre aconteceu.

Queria ter, arriscado mais, ter chorado mais, ter visto o sol se por.

Queria poder dizer que ouvir música era melhor, mas meus LPs vivam arranhando, minhas fitas K7 só me permitiam ouvir música na sequência e compartilhar música significava emprestar um LP, que geralmente não voltava.

Como conseguimos viver assim, como animais, não é mesmo?

Queria poder dizer que meu videocassete era superior ao DVD (sim, ouvi esse argumento) pois gravava, mas meu LP também não permitia gravação e nem por isso eu comprava meus álbuns em fita K7.

Tem um filme ótimo do Stalin, feito pela HBO e com o Robert Duvall no papel do bigode que eu nunca vi em DVD. E agora?

A primeira vez que liguei um DVD e comparei a imagem com uma fita de vídeo passei por uma experiência religiosa. Uma imagem FullHD dá a mesma sensação. Queria poder dizer que isso não importa.

São Videolar está morto, abençoado seja São Fox Film.

Queria poder dizer que a fotografia digital banalizou a arte, mas eu lembro como era caro comprar filme, tirar fotos de momentos únicos sem saber se saiu ou não, esperar dias pela revelação e só então descobrir se a única lembrança do momento existiria apenas em nossas memórias.

Nessa concordo com o Cardoso, fotografia é algo muito do futuro. Parece até que rouba nossa alma, pelo menos foi o que o pajé me disse dia desses, no intervalo da dança da chuva.

Queria dizer que a Internet afasta as pessoas, as isola e as torna superficiais. Gostaria mesmo de repetir esse discurso fácil, mas minhas maiores amizades e meus maiores amores chegaram até mim por um fio na parede. Só quem fala essas coisas da Internet é gente que não entende que há gente de verdade do outro lado daquele fio.

“É gente que não entende que há gente” da gente, que vive a pegar no batente, com sol, com chuva doente, e sabe que tem que trabalhar. CARDOSO, Carlos. DE PAULA, Netinho. In Negritude Contraditória e Zumbis. Volume Único.

Queria dizer que era melhor pesquisar em enciclopédias “de verdade”, e que hoje as crianças fazem copy/paste, mas tenho a DECÊNCIA de lembrar que naquele tempo o principal objetivo era encontrar uma imagem recortável para ilustrar o trabalho, e o copy/paste era feito manualmente, copiávamos de forma autômata o conteúdo. NUNCA aprendi nada em trabalhos de colégio, que aliás nunca foram sequer discutidos em sala de aula.

Na minha época de escola, tinhamos a DECÊNCIA de copiar o trabalho em uma folha de almaço e, pelo pouco que sei do cérebro humano, se ele não curte o assunto tem a DECÊNCIA de pelo menos guardar aquilo para algum momento de inutilidade como “Cite dois afluentes do Amazonas e ganhe R$ 2 mil mariolas!”.

Uma vez eu tirei 7, SETE em um trabalho para Teoria da Percepção, na UFF. Meu trabalho? Uma foto da Luciana Vendramini em um cenário futurista, com esferas de computação gráfica ao fundo. Impresso em uma matricial Elgin Lady Nojenta, de um amigo.

Cardoso, a educação continua uma merda, estamos salvos. Quer dizer, graças aos seus onze livros, podemos ter ainda alguma fé na humanidade.

ISSO é o passado onde se aprendia com os trabalhos escolares?

Aprendemos mais agora no Youtube.

Eu queria também ser daqueles que odeiam o passado, mas adoro o meu. Aprendi muito com ele, aprendi que nossas maiores tragédias um dia se tornam História, que NADA é insuperável. É tudo uma questão de perspectiva. Um braço perdido 20 anos atrás ainda incomodará, mas você não passa 20 anos gritando de dor. Achar sua paz e viver com um braço só não diminui a dor da perda, não é essa a intenção. O tempo me ensinou que aceitar e viver com o que passou não é trivializar. É apenas a alternativa a enfiar uma bala no coco, atitude em geral nada recomendável.

A impressora era nojenta, a pornografia era uma merda, o VHS é um lixo, mas mesmo assim você ama o passado, Cardoso? Que bonito da sua parte.

Eu queria muito ser um repórter das antigas. Sério, queria mesmo. Clarke Kent pode inspirar mais que o Super Homem, se você gosta mais de escrever do que tentar ser mais forte que uma locomotiva. Queria, mas não posso. Hoje não existe mais “parem as máquinas”, hoje não existe mais a separação Imprensa / Mortais.

Repórter das antigas = cara que a qualquer hora pode sair voando da redação para apurar uma matéria. Literalmente.

Hoje eu não sou o Último Filho de Krypton (ou ao menos digo que não sou) mas minha voz tem alcance muito maior. Não dependo de Perry White ou Lex Luthor para determinar o que falo ou deixo de falar. Sou meu próprio Roberto Marinho, meu próprio Chatô, embora o Guilherme Fontes não tenha pedido dinheiro em meu nome (acho).

Filho de Krypton, taí um bloco que Caetano, Gal, Gil, Ivete, a nova e a velha geração poderia bolar para combater Ghandi, esse inescrupuloso.

Eu queria ter a certeza dos adolescentes e dos trolls da Internet, de que se algo dá errado na vida é culpa de todos menos de mim mesmo. Queria poder justificar com os pais, os professores e orientadoras. Queria poder dizer “fulano me persegue”, e fazer disso justificativa suficiente para não atingir meus objetivos.

Se algo acontece com os adolescente e os trolls é culpa sua, Cardoso? Onze livros, meu nobre. Onze livros.

Eu gostaria de querer isso tudo, mas sendo sincero eu só quero uma coisa, que inviabiliza todos esses quereres:

Vamos lá, agora é a melhor parte:

Quero ver o que vem adiante e o quê o Destino me reserva, e se não gostar, mudar, afinal de contas, “Destino Não Existe”, me ensinou Sarah Connor, no Exterminador do Futuro, no distante passado de 1991.

Carlos Cardoso, onze livros, não sabe que o acento circunflexo é usado no “que” somente quando acompanhado do ponto de interrogação, exclamação, etc e tal.

Anúncios

22 pensamentos sobre “Um libelo desesperado em defesa do saudosismo – com comentários

  1. tonkiel disse:

    ~curtir~

  2. leandrolopesp disse:

    Clarke Quente, Piter Parker, Bruce Ueine

  3. amanda disse:

    TROLLS NOJENTOS LIXOS DA INTERNET ~ luana, TULLA.

    sinceramente, nao entendi qualé do texto dele.
    te cuida aí, paulo coelho.

  4. Pensei que o Tonkiel ia mandar um first lá em cima. Chorei de rir com o nome do álbum do Negritude e da ideia dos filhos de Krypton. hahahah

  5. ISis H Flores disse:

    Emocionante, chorei sangue!

  6. Rasec disse:

    Pqp hahahahahah c num tem oq fazer né? AuhAUHAUHAHUhuA

  7. A Conclusão Final merece um “Oooohhhhhh” daqueles de música sacra, acompanhado de uma genuflexão de adoração.

    ahahahahahahhahaha

    Júlio, você é um besta. Mas é um besta foda.

    beijo!

  8. Matheus disse:

    Cardoso é um gênio a frente do nosso tempo.

  9. Quando começou o discurso “Queria…”, me deu uma leve nostalgia dos textos pré-adolescentes que eu escrevia: “Queria dizer sou feliz aqui, mas a única coisa que sei é que estou em um lugar que nunca vivi ou evitava viver”.

    Autor de onze livros e usa a técnica infantil do “Queria…” acompanhada do “mas…” depois, para formar o contraste da frase e parecer que pensa. É tipo uma bugiganga da redação, daquelas bem baratas.

  10. Ricardo Mello disse:

    Droga, demorei.
    Então, tô suando de dar risada aqui, meu caro. Pena que é calor mesmo.

  11. Obede Junior disse:

    Lendo isso tudo celebro o fato de mal conhecer Cardoso e todo o seu cardosismo.

    Ai ai, essa internets tem cada um, né?

    abs, emperor

  12. Pedro Amaral Peixoto disse:

    Quero ver o que vem adiante e o quê o Destino me reserva, e se não gostar, mudar, afinal de contas, “Pokémon forte. Pokémon fraco. Essa é a percepção egoísta dos outros. O verdadeiro treinador pokémon deve ganhar com os seus pokémons favoritos”, me ensinou Ash Ketchum, na Liga Johto, no distante passado de 1999.

  13. Uatafoc disse:

    ZZZZZZZZZZ pros dois. Juro até que tentei :P

  14. fransuel disse:

    tem gente q acha q é “perseguido” pq é inteligente, mas nao sabe q é “perseguido” pq é burro

  15. GraveHeart disse:

    Só queria comentar que já publiquei um livro (http://compare.buscape.com.br/samba-windows-e-linux-em-rede-col-academy-costa-paulo-henrique-alkmin-da-9788561024239.html) além de já ter publicado cinco artigos no começo da década passada em revistas como Herói e Herói Mangá, e também já tive um roteiro publicado numa revista dos Comborangers.

    Pelas minhas contas, mais um livro publicado e vou poder falar o que quiser do Cardoso, já que seremos IGUAIS e ele não poderá citar a falta de publicações como fator de ‘relevância’.

    Aguardem e confiem. :P

  16. DELAYNE disse:

    tem gente q acha q é “perseguido” pq é inteligente, mas nao sabe q é “perseguido” pq é burro ²

  17. Giselle disse:

    *rindo muito*

    Além de conseguir a façanha de ter um peitão maior que o da Daniele Winitz, Cardosão entregou 11 pérolas literárias para a humanidade.
    Q beleza, hein?

  18. elgroucho disse:

    isso aí é falta de deus no coração. TAMO CONTIGO CARDOSO! CONTINUE LINDO!

  19. vivian disse:

    velho do céu. e esse papo da fotografia digital? só quem desistiu da UFF mas tem 11 livros publicados tem DECENCIA de falar.

  20. vivian disse:

    velho do céu. e esse papo da fotografia digital? só quem desistiu da UFF mas tem 11 livros publicados tem DECÊNCIA de falar.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: