Sobre a felicidade

Quando o avião começou a subir e descer e meu estômago resolveu que “atrás do trio elétrico só vai quem está prestes a morrer logo vamos dançar juntos essa valsa”, pensei de verdade que não haveria volta. Por dois segundos, claro, mas pensei. Porque não sou positivista, pelo contrário. Mas se tem algo que eu acredito é que, apesar do modo de vida meio calabresa meio retardado, eu vou longe enchendo o saco das pessoas com piadas ruins e atos piores ainda. Desde já, peço desculpas.

Pois bem, o avião pousou e não foi de forma forçada. A cidade era um daqueles fins de mundo longe demais das capitais. Mas tinha algo impressionante: a igreja. Aqui faço uma pausa. Minha relação com igrejas é mais ou menos a relação que tenho com o boxe. Explico: abomino o esporte, acho chato para diabo, exceto pelo Ali que era o Tom Wolfe da coisa toda. No mais, nem o Michael Tyson, que todo mundo descrevia como uma força da natureza, empolgava. Mas com os filmes, a coisa muda. Acho todos que vi brilhantes, desde Rocky 5 a Touro Indomável.

Com as igrejas ocorre o mesmo. Mal ae, deus, mas não curto essa sua força sobre humana. Você pode ser o cara e tal, mas sua biografia terá sempre como evento mais excitante uma mordida na orelha do Hollyfield. Ou a entrega das tábuas para Moisés, serve. Em contrapartida, acho arquitetura de igreja algo fantástico. Todo o esmero da galera com os símbolos, todo cuidado de ser mais perfeito que a ficção. E naquela cidade, não bastasse uma igreja muito bonita, ela era construída dentro de uma pedra enorme cheia de cavernas, grutas, o kit completo. Com tudo que esse kit tem direito: morcegos, água, aqueles caras do filme Abismo do medo e quiçá um dragão, já morto por São Jorge.

Ali, longe para diabo, vão os romeiros. Em busca de milagres, de sonhos, dos caras do filme Abismo do medo. E ali mora Clara, no meio de um bananal, um pouco mais a frente da cidade longe para diabo. Clara tinha um emprego com motorista, viagens, almoços bacanas e jantares mais bacanas ainda. E deixou tudo isso para trás. Sua casa é passando o primeiro bananal, o segundo, o terceiro. Tem um pé de um tipo de mamona diferente, tem um coqueiro que mais parece uma das torres do Senhor dos anéis (e que por sinal não deve ser um coqueiro), tem animais de todos os tipos e tem banana, claro. Dessa banana ela tira a fibra e, com isso, costura agendas, porta-copos, lustres e mais um monte de coisas que vendem em lojas de decoração. Clara tem o nariz adunco e chocante a primeira vista, como se fosse personagem de um conto de fadas do bananal. A casa dela parece sólida por fora e mais frágil que a situação no Oriente Médio por dentro. O cheiro de fibra, cola e suor do trabalho enche o ar e pede um pouco de ar do lado de fora. Nos moveis, na mesa, em cima do armário, para qualquer lugar que se olha, se vê fibra de banana.

E Clara diz que não se arrepende de ter largado tudo para viver da arte, sorrindo. Como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo. Sair de uma vida onde se tem grana, motorista, água, luz, telefone, arriscar tudo isso para fazer aquilo que sempre quis fazer. Independente da fome que as vezes batia e que hoje é coisa do passado. Independente de se estar longe de tudo. Independente de estar bem próxima dos caras do Abismo do medo.

Os nomes e os locais foram mudados porque assim eu quis, quero ver o povo na praça.

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2 pensamentos sobre “Sobre a felicidade

  1. Gueixa disse:

    Salve Imperador!
    Belíssimo seu texto.

  2. Renan Oliveira disse:

    Olha. gostei pra caramba do texto.

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