“É preciso que as coisas mudem para tudo continuar como está”

Canetas percorrem blocos de papel ferozmente. Click. Click. Click. Click. Click. Jornalistas, cineastas, aspirantes a algo, hipsters, cafonas, hipsters cafonas, gordos, magros, gostosas, barangas, gente que se conheceu no cinema, gente que pouco foi ao cinema, palmeirenses, corinthianos, eu.

Se não têm cinema, que assistam brioches!

Dois rapazes passam:

– E aí, vai assistir o filme?
– Vixe!

Daqueles “vixe” que soltaram na tsunami que atingiu o Japão, o famoso “deus me defenda”.

A recepção estava cheia. A fila para a Sala Oscar Niemeyer (que, ironia, é mal projetada) descia três lances de escada. O mofo das cadeiras do Belas Artes nunca viu tanta gente desde, vai saber, a pré-estreia de Ben-Hur? Pessoas gritavam “Tombamento já!”, “Vive Belas Artes!”, naquilo que parecia a revolução francesa, só que ao contrário. Na sala, antes do início da sessão, André Sturm apareceu para agradecer e, apesar de falar pouco, falou bonito:

– Foi (sic) momentos incríveis que tivemos aqui.

Fosse eu prefeito de São Paulo, tombaria o Belas Artes e o nomearia como Túmulo ao Hipócrita Desconhecido, pois somos tantos que nomear é para lá de díficil. Gritos de guerra no Coração valente urbano. O Belas Artes tem o quê, 70 anos, mas é tão comum ao dia-a-dia do paulistano quando o Teatro Municipal. Passamos pela porta, achamos até charmoso, mas embalar Mateus é outra história.

Arroz, feijão, batata e filmes do Kiarostami!

É o nosso cinema. Meu, seu, da moça que vende pipoca ruim e café bom. É uma afronta fechá-lo, assim como foi uma afronta fechar o Gemini. Cinema este que foi fechado sem choro nem vela, sem “Cinema sim, loja não”. Só que o Gemini não era “charmoso”, nem tinha “história”. Ele tinha a utilidade pública de passar filmes como Homem de Ferro quando estes saiam das duas mil e trezentas salas em que era exibido e apenas cinco incautos perderam a chance de assisti-lo. Se existe amor ao cinema, esse vinha do Gemini, que servia aos atrasados como quem serve aos que chegam primeiro.

“Mas o cinema não é só dinheiro, é arte”, diz o último romântico dos sarais desse Oceano Atlântico. Ninguém escreve de graça. Ninguém pinta o teto da Capela Sistina de graça. Tem o rapaz que rasga o tíquete, tem a moça da bilheteria, tem o pessoal que limpa a sala infestada de copos vazios e com pipoca ruim por todo o chão. Eles são dinheiro. Têm família, têm vale refeição, têm condução. Para eles, ars gratia arts é só uma frase no logo da MGM. E com razão.

Nós, os hipócritas, tratamos o Belas Artes como se fosse um panda. “Óun, ele é tão lindinho naquela jaula”. Agora ajudar o bicho a não entrar em extinção é outra história. Cá estamos, esperando que reabram o zoológico. Três quadras dali, na Augusta, outro cinema de rua estava cheio, rotina no finado Belas Artes.

Meu deus IBAGENS MUITO FORTES!

PS: falar que o dono do imóvel é mercenário fica muito fácil quando, na última sessão do Belas Artes na Consolação, você cobra R$ 18 pelo ingresso para exibir a primeira cópia de O Leopardo sem a remasterização de som e imagem. Cerca de 40% do filme foi sem legenda e tive de gastar meu italiano, composto por ma che, ma va, Forza Juve e fanculo, à toa. O audio era tenebroso, o que ajudou e muito no italiano fluente que falo. E a imagem era uma mistura de Planeta Terror com os cortes abruptos – por causa da tecnologia da época – de O encouraçado Potemkin.

PS2: o título desse texto é obra e graça de Tancredi Falconeri, sobrinho do Princípe de Salinas, o personagem principal de O leopardo.

PS3: Obrigado Luchino Visconti. Obrigado Lampedusa.

Anúncios

8 pensamentos sobre ““É preciso que as coisas mudem para tudo continuar como está”

  1. Fábio Vanzo disse:

    Gemini tinha pontos cegos que podiam propiciar até uma suruba durante a projeção.

    Lá pude ver Oldboy, após comer a pior coxinha da minha vida no Uno & Due, e me embriagar no Asterix após me deprimir com Hotel Ruanda.

    E foda-se, fecharam o Saci e o Cairo.

  2. Ricardo Mello disse:

    Tapa na cara da sociedade. Você está me saindo um belo revolucionariozinho hein, Julio. Cuidado que daqui a pouco o pessoal te denuncia pros milicos.

  3. George disse:

    passei em frente na volta do trabalho. quis entrar pra ver a movimentação, mas o cansaço não deixou. que tudo se resolva da melhor forma e o prédio não vire uma renner

  4. lekabel disse:

    caralho, julio, puta que pariu escreve um livro.

  5. zambinos disse:

    pavoro =)

  6. Lelê disse:

    Caraleo! Achei quem tava fazendo uma suruba comigo em Oldboy, no Gemini!

  7. Wandeko disse:

    FECHA FECHA FECHA FECHA! :-)

  8. Amberlee disse:

    Lindo post, Julio. Quase chorei.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: