Nas ruas sagradas de Jesus

Não basta morar debaixo da melhor ponte de São Paulo, ter um paletó de tweed de no mínimo dez anos e sapatos com sola inteira, conseguir comer pelo menos um virado a paulista por semana e ser mais um mendigo do Brasil. Jesus agora quer duas caixas de papelão para ter a melhor habitação da Cidade Jardim.

Com nome de filho de Deus e herdeiro de uma miséria a perder de vista, Jesus Nazareno da Silva não é um mendigo comum. Primogênito de mãe fugida e pai desconhecido, o jovem senhor de 25 anos vive em um mundo bem próximo ao do seu homônimo famoso. “Cada dia é uma cruz que carrego, em forma de carroça de papelão”, conta. Amante das guimbas de cigarro, tem em sua coleção uma bituca de John Player Special, conseguida em 1998 e conservada. Quando quer badalar, aparece no sopão da Sé para confabular com amigos a alta do preço das bebidas e os eventos da cidade nos quais o ILC (Índice de Latinha por Cachaceiro) é tão alto quanto o Dow Jones em dias bons. E assim como Jesus Cristo, Nazareno exibe a forma física de um flagelado: o peso é desconhecido há tempos, mas não deve passar dos 60 quilos bem conservados graças às sobras de restaurantes, sem contar o bíceps de 20 centímetros construídos com o dia a dia de carroceiro. Tal silhueta – e a falta de patrimônio – lhe garante sucesso com mendigas, crackeiras e outras figuras únicas da noite paulistana. Com poucos prazeres ao alcance, o mendigo poderia simplesmente circular pela cidade frequentando as melhores bocas e os melhores muquifos. Mas ele quer mais.

A coroa de espinhos do príncipe da paz

Quando repousa sua cabeça na edição de setembro de 2009 do Financial Times – “encontrei na Paulista, os gringos são os melhores” – Jesus sonha em repetir o sucesso do seu homônimo no pós-vida. E a partir desse sábado ele começará seu novo empreendimento. “Arrumei umas pedrinhas e vou começar a distribuir, na míuda, aqui na Sul. O mercado está em alta, com demanda e pouca concorrência”, explica, como se fosse leitor diário do Valor Econômico. “Cresci ouvindo minha mãe dizer que eu era um vagabundo e isso serviu de estímulo para meu modo de vida”. “Sempre engolia seco quando ela dizia isso, mas hoje engulo com uma dose de Sapupara”.

A grande referência para Jesus é o Tolói, o primeiro mendigo que lhe deu ajuda na vida. “O Tóloi foi um grande amigo e um grande mestre. Desde como conseguir uma grana para a pinga até a melhor roda para a carroça, aprendi tudo com ele”. Desde menino, o acompanhava em mendicâncias na Rua XV de Novembro e na região da Sé. “Eu sempre estava com o Tolói até o dia que uns playboys queimaram ele. Nesse dia resolvi deixá-lo porque na rua é a lei do que mais corre. Mas o que me fascinava no Tolói era o espírito empreendedor dele. Ele foi um dos primeiros caras a entregar as latinhas já amassadas para os caras da reciclagem”.

Além da figura paterna de Tolói, outro ídolo para Jesus é o escritor Charles Bukowski. “Não conheço muito da obra do cara, porque não sei ler, né? Mas uma vez uma noinha que eu dava uns pegas me contou que o cara era tipo eu, mendigão estilo de vida e daí curti”. Mas essa aproximação com Bukowski rendeu a Jesus um preço alto. “Outro dia fui falar dele na rua, lá na Paulista, quando estava andando, daí um monte de moleque riquinho chegou achando que eu era todo intelectual perdido, deu maior merda e nem me pagaram um rabo de galo”.

Apesar de não cuidar muito da aparência, Jesus tem fama entre as mulheres. “Amigo, nessa caixa de papelão do Magazine Luiza já deitou muita princesa”, conta. A atual, Vanderléia, tem 27 anos e o cabelo mais sujo já visto pela humanidade. Sorri com a língua entre os dois dentes e sofre de uma luxação no pé direito, possivelmente causada pelo excesso de álcool. “Quando conheci a Van, foi amor a primeira vista”, recorda. “Estava tão apaixonado que quis fazer um agrado, mas não queria mostrar que eu estava bem de vida na rua. Então comprei meio pão com mortadela, por R$ 1,25, porque não queria ostentar”. Algumas semanas depois, já com o relacionamento consolidado, Jesus deu de presente um skate para ajudar na locomoção da amada. “Consegui com um nóia, que veio aqui e empenhou por R$ 4, uma fortuna, mas vale tudo para a princesa”.

O universo que Jesus gravita é, de fato, um mundo paralelo, onde a lógica tradicional se encontra em suspenso. Sua estreia no mundo dos negócios começou como catador de latas na Praça da Sé. “Achava a escola muito puxada, por isso decidi ir para a rua”, conta. Hoje empresário de sucesso no ramo de entorpecentes, Jesus não nega seu passado empreendedor. “Sonho um dia em reciclar as latinhas que eu pegava e transformar em cachimbos para a clientela. É o que é chamado de venda casada, não é?”.

Pobre, desdentado e aparentando ser mais velho do que realmente é, Jesus gosta de badalar. “Sempre dou um pulo com os amigos ali na Paulista para dar aquela dormida no Parque Trianon depois de umas vinte doses de cachaça”. Para locomoção, ele as vezes tomas o skate da namorada emprestado. “Enquanto ela fica na batalha dos pedidos, eu tô exercendo meu papel de macho alfa”. Sucessor direto de ninguém, Jesus tem um longo caminho pela frente. Aos que duvidam da sua capacidade e destreza de viver sem banho, sem comida e sem uma cueca limpa, é bom lembrar que Jesus de Nazaré também foi desacreditado. Nada impede que o representante de sabe-se lá quantos milhares de crucificados, com seu nome de salvador, seus músculos mirrados, sua falta de empenho e a falta de capital, seja um dia chacinado nas ruas de São Paulo por uma gangue de malucos ou por moços ricos e entediados. Mas, se bebesse menos e lesse mais, mesmo que fosse apenas biografias de grandes mendigos como Bukowski, Joe Gould e tantos outros, suas chances – e sua vagabundice – seriam ainda maiores.

PS: Esse texto é uma homenagem à aula magna de jornalismo que a Veja Rio deu com essa matéria. Vão com deus.

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5 pensamentos sobre “Nas ruas sagradas de Jesus

  1. pedro disse:

    Caralho velho muito loco as parada mano! hahahahaha

  2. Cara… sensacional.

    Deixei o site aberto no trabalho ontem por indicação de alguém no twitter… Eu li o texto duas vezes: a primeira porque achei legal mesmo e a segunda, depois de ler o texto do filho do Eike, finalmente percebendo a genialidade da alusão.

    Parabéns!

  3. Roney Gomes disse:

    Me pergunto, como diabos tu chegou a esse artigo da Veja?

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