E o Oscar vai para…

Com oito anos de atraso, apareci na academia. Nunca tinha entrado em uma, não sabia a dinâmica da coisa. Tem toda cara de haver castas e tal. A gostosona. O marombado. O esforçado. A molecada do futebol. O gordo com uma camiseta da Nike 10k de 2008.

Dei aquele aperto de mão protocolar ao instrutor e fui avisado que o aquecimento seria feito com 15 minutos de bicicleta. “Tranquilo”, pensei. Sempre gostei de bicicleta e acho que sou o único gordo que pensa ser capaz de vencer o Tour de France dando o sprint final sem as mãos em uma BMX Superstar com CDs velhos presos à roda. Olho no Lance, Armstrong. Fiz os 15 minutos numa calma de low rider, eu e Peter Fonda curtindo a brisa da infinita highway.

Agora é hora de trabalhar braços e peito, escutei. Vamos aí filhão. Sentei na primeira máquina de tortura medieval que me foi apresentada, aquela que você fica com os braços formando um ângulo de 90 graus e puxa os pesos em direção ao peito. O cara foi bem claro: três sessões de 15, com 40 segundos de descanso. Só que as tais “sessões de 15” tratavam de 15 vezes e não 15 minutos como eu havia pensado. O matemático que mora em mim resolveu mudar para uma vizinhança melhor. Fiz dez pensando que em 15 minutos estaria com o braço maior que daquelas gordinhas que curtem Nightwish e tive um momento Eureka:

– SÃO QUINZE VEZES E NÃO QUINZE MINUTOS JULIO SUA BESTA!

Respirei aliviado e segui em frente.

O segundo instrumento utilizado para transformar bruxas em patê durante a Santa Inquisição é aquele que deve trabalhar o trapézio. Não sei, na verdade, mas achei bonito dizer isso. A dinâmica seguiu: 15, descansa, se der sorte rola até um cigarro, mais 15, mesmo esquema, mais 15. Esse foi mais tranquilo, já que no primeiro eu morria aos poucos.

Depois vieram os pesos e aquele lance meio ridículo de levantá-los na altura do ombro e tal. Achei bobo porque até que curto o lance das máquinas na academia. É tipo a Sigourney Weaver no Alien, quando ela pega aquela máquina de carregar coisas que vão em uma nave espacial prestes a se foder na mão de aliens malvados. Os pesos apenas são chatos e minha colocação corporal – se é que o termo é correto – é de uma foca.

Hora do terceiro aparelho, utilizado por Stalin em gente bronzeada que teimava em mostrar seu valor. Nesse eu tinha que ficar numa pose “ficando bandeira em Iwo Jima” enquanto erguia o peso da altura do cotovelo até a coxa. Tinha um que de “remando nas galés com Ben Hur”, mas sem chicote.

Mas o grad finale da noite foram as abdominais. Abomináveis, eu diria. Deveria ter filmado para virar hit no Youtube. Estava eu lá com a minha bola de pilates eterna, também conhecida como barriga, quando o instrutor mandou um “agora é a última: três sessões de 20, com descanso”. Fiz as contas e cheguei a 60 abomináveis (está certo, não é?). Nunca na minha vida fiz 60. Se fiz dez até hoje, estou no lucro. Ouvi outro dia que a Shakira faz mil por dia, aquela loca, loca, loca. Deitei naqueles colchões que lembram os tempos áureos da creche e mandei 20 abomináveis. Olhei para o céu procurando algo em que acreditar. Pensei no Batman, mas ele fez o que fez porque os pais morreram e os meus estão vivos. Pelo menos minha mãe está. Pensei no Ali, mas ele já nasceu foda, nem precisava daquilo. Pensei na vitória que será para todos os gordos do mundo se eu vencer o bolão do trabalho. Serei uma espécie de Jesse Owens da picanha com gordura, um Adriano Gabiru do rodízio de massas. Respirei fundo e fiz mais 20. Achei que não chegaria até o final, entoei o tema de Carruagens de fogo, cantarolei “Gonna fly now” e terminei as abomináveis. Estava tão contente comigo que andei mais dois quilômetros até chegar em casa, pensando que, assim que ganhar o bolão, a primeira coisa que vou fazer é ir em uma churrascaria.

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4 pensamentos sobre “E o Oscar vai para…

  1. Eric Franco disse:

    Foi o que eu fiz depois que o corri o Nike 10K

  2. Helê disse:

    Nossa, que divertido, não para não :-D

  3. Dani Torrezani disse:

    Muito bom. Irei aposentar minha camiseta da Nike 10.

  4. Isaac Kojima disse:

    Não esquenta, não. Depois de um tempo vicia…

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