És do Brasil, o Sócrates Brasileiro…

Era um sábado frio. Ou domingo, não lembro direito. Recordo que lá pelas seis da manhã encontrei a Leonor e partimos para Ribeirão Preto. No Terminal Tietê, o frio cortante desanimava uma viagem de cinco horas dentro do ônibus. Mas na outra ponta da viagem estava Doutor Sócrates, o mais filósofo dos jogadores. Ou o maior jogador dos filósofos, a ordem dos dribles não altera o gol.

Eu não vi o Sócrates jogar ao vivo. Comecei minha vida boleira nos anos 90, quando José Ferreira Neto destruía barreiras e zagueiros. Mas sabia do mito. Ouvi falar do Doutor, o cara que fez parte de uma seleção maior que a de 70, diziam uns. O cara que chegou no Corinthians e que fez do clube a imagem e semelhança da União Soviética nos idos de 1917. Só que sem o Stalin, apesar do Leão ter tentado.

Pois bem, o frio do Terminal Tietê foi substituído pelo calor de Ribeirão Preto. Impressiona, o lugar pede uma cerveja. E sendo Sócrates quem era, o nosso destino foi o Pinguim, tradicional bar da cidade. Fomos no do shopping Santa Ursula (se a memória não falha) e não no tradicional, localizado no centro da cidade. Pouco importava.

O motivo da ida era o nosso trabalho de conclusão de curso, um livro reportagem contando a história da Gaviões da Fiel. Já havíamos entrevistado o Neto, e a Leonor conversara com o Vladimir, Basílio e outros tantos jogadores e torcedores. Na entrevista com o Neto, por exemplo, o nervosismo nos consumiu, mas sabíamos o que perguntar. Acredito que a Leonor também tivesse na ponta da língua o que falar com os torcedores. Mas com o Sócrates pairava no ar a dúvida. Era um cara mais velho e muito mais esclarecido. Sem contar que era um pensador. De verdade, um cara que fazia jus ao nome que tinha. Alguns podem dizer que ele defendia um modelo de governo dado ao fracasso, outros que ele defendia tiranos como Castro. Pode ser. Mas ninguém pode negar que ele foi o mais democrata dos cubanos, o mais libertário dos comunistas.

Chegamos ao Pinguim e lá estava o Doutor. Ao lado, a tulipa de chopp. Sentamos, nervosos, sem saber nem ao menos como nos apresentar e sequer como dizer nossos nomes sem gaguejar. Ele nos olhou e, dividindo a atenção com a televisão, perguntou o que estávamos fazendo. A Leonor explicou que éramos estudantes de jornalismo e que nosso trabalho de conclusão era um livro reportagem contando a história da Gaviões da Fiel. Tudo explicado, Sócrates começou a conversa com uma frase inesquecível:

– Tá, deixa só terminar o Tour de France…

E voltou os olhos para a televisão. Vendo assim, a frase solta, parece arrogância. Do tipo “o que essa molecada veio fazer aqui, que puta encheção de saco”. Nas quase cinco horas de conversa que se seguiram, em nenhum momento Sócrates mostrou-se desapontado por ter aceitado o pedido de entrevista. Pelo contrário. Estava relaxado, culto sem ser pernóstico, boleiro sem ser clichê. Rechaçava nossos elogios com um palavrão amigo. Lembrava de detalhes mínimos da carreira como se tivesse acabado de sair do vestiário. Era um cara que curtia tudo aquilo. Curtia ser médico, curtia o saber, curtia jogar bola. E curtia chopp, pois as tulipas iam e vinham como os zagueiros que marcavam o Magrão.

Encerramos a entrevista que virou bate-papo com cerveja em dia quente. Saímos de lá com uma conta de R$ 110. Uma água na comanda, tomada pela esposa do Magrão, convidada surpresa da entrevista. O restante era chopp. Sócrates pôs a mão na carteira mas fizemos questão de pagar. Éramos duros como todo e qualquer estudante de jornalismo, mas a cerveja do Doutor tinha de ser nossa. Saímos do Pinguim mortos de fome e bêbados de cerveja. Mas revigorados de corinthianismo, de jornalismo e, porque não, de brasileirismo.  O livro seguiu seu caminho, a Leonor e eu também. Mas aquele dia em Ribeirão Preto ficou marcado, os chopps, o tour de France, a admiração pelos Gaviões, a experiência na Itália, a atuação política. Vicente Matheus agradeceu a Antartica pelas Brahminhas. Eu agradeço Sócrates. Pelos gols, pela entrevista, pela cerveja, pela vida.

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5 pensamentos sobre “És do Brasil, o Sócrates Brasileiro…

  1. Melhor texto que eu já li aqui. Sem zueira.

  2. […] para finalizar esse post do mais novo Pentacampeão Brasileiro, vocês deveriam ler esse texto que o Júlio postou no blog […]

  3. Bonilha disse:

    Fiquei curioso pelo livro… Só foi trabalho? Saiu? Pode ser que saia?

    De resto, puta texto, imaginei o bate-papo intercalado pelo chopp… Foda!

  4. Que belo texto…
    Na minha vida de corinthiano só me arrependo de uma coisa: Só ter visto o Sócrates jogar pela TV. Meu pai não gostava de ir aos estádios preferia o radinho de pinha e a TV, meu batismo corinthiano foi ao lado dele assistindo pela TV a final do Paulista de 1983.

    Obrigado Doutor…

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