Cartas de um ditador

Pensa na merda que é ser um ditador. O mundo inteiro te odeia e você vive de fazer social com a galera. Tem a parte legal, que é mandar no batatal e vestir todo mundo de cinza chumbo. Mas tem aqueles momentos nos quais você tem de abraçar o Hu Jintao, o Ronald Reagan, o Collor. Ou quando vem aquele monte de jornalistas falar em liberdade de expressão, em blogueiros, em sorvete de massa de manobra, essas coisas todas. Tudo que você quer é voltar para o seu país onde o povo chora por você, onde as portas se abrem, onde a grama é verde e as garotas são bonitas.

Toda vez que você vai na ONU é a mesma coisa. Levanta alguém do Brasil, da Índia, do Sudão. Sério mesmo, do Sudão? Pô companheiro, lá está a maior merda e você vem aqui na ONU perder seu tempo porque atirei dois traques em Pyongyang? Vai dar volta de mobilete, né camarada?

E quando você visita outra ditadura, aí o mundo delira. Todo mundo pensa que você e seu comparsa de governo despótico estão lá, peladões na piscina, vendo os dissidentes serem torturados com canções da Simone fora do Natal. Vejam a atrocidade que as pessoas imaginam: Simone fora do Natal! Mas não, você só está lá curtindo uma terapia em dupla e falando mal do resto do mundo.

– O Obama, velho, maior caô. Fica nessa de negão maravilha mas tá lá com Guantanámo!
– E é aqui do lado ainda. Nem posso fazer nada.

Sem contar que sempre tem um no seu país que está descontente. Você inventa toda sorte de mentiras para que o povo viva feliz, coloca trigo  do seu bolso e esses ingratos te pagam fugindo para a zona desmilitarizada e clamando para o mundo quão déspota você é. Companheiro, você chegou atrasado, o mundo já sabe disso.

Daí algum chefe de estado resolve te visitar porque né, você precisa fazer negócios com outros lojinhas, e a imprensa do país desse cara azucrina. “Tá visitando um ditador”, eles gritam nos jornais, como crianças ranhentas que trocaram o lápis de cor e o papel pelo jornal. “Tá lá macomunado com o capeta em forma de governo”. “Vai lá fazer o que, fechar negócio com esse genocida?”. Amigo, quem mata meio mundo compra carro e empina pipa. Ditador também é gente e ditadura também é querida. Se o meu povo escolheu isso, azar de vocês do  baixo clero que tem de votar. Tem meia dúzia descontente? Claro que tem, até em reunião de condomínio tem descontente. O azar deles é que eu sou o síndico que resolve.

Bem fez o César em ser esfaqueado no Senado porque olha, puta saco essa vida.

Abraço forte,

Kim Jong Il.

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Um pensamento sobre “Cartas de um ditador

  1. Por exemplo, meu avô que não para de fumar e contar os casos dele de quando ele era menino e amarrava o povo no poste.

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