O ato de cozinhar

A água borbulha na panela, fervendo a batata. Penso se coloco orégano, se arrisco uma pimenta do reino, se tento algo diferente. Se devo deixar de pagar alguma conta no começo do mês que espreita pela porta. Separo a xícara de leite, deixo todos a postos para a revolução culinária que não vem; não é a Primavera do Purê, é só um ordinário purê de batatas, simples como todo e qualquer já feito.

Abaixo o fogo para a água não reduzir, tudo fica estático na panela. Penso nas mil horas que aquilo vai demorar para ficar no ponto, aumento o fogo e fico de novo cismado com a redução da água. Por que transformar o simples ato de cozinhar quatro batatas em uma odisséia de corar o Homero?

E ainda tem o ovo frito, na manteiga. E se eu errar? E se a parte de baixo tostar e assim estragar o purê, o jantar, a noite? Devo arriscar tirar o ovo antes da hora, a gema ainda mole pronta para romper a membrana como o Katrina rompeu os diques em Nova Orleans?

E a redução da água? Corro de volta para o fogão e vejo que tudo segue na mais perfeita ordem. Espeto a batata com um garfo, o soldado romano espetando Cristo em suas horas finais, todo o começo de uma nova religião que durará por dois mil anos e além. Está tudo bem com as batatas, por enquanto.

Mas e os ovos? Quais as consequências para o jantar de um ovo mal feito? Deveria ter ido de bife. Se a carne é fraca, a gema de um ovo é mais fraca ainda. Era só salgar e colocar na frigideira. Igual ao ovo, mas sem o demônio da gema.

A maldita água está reduzindo. Talvez seja hora de desistir, de correr para o restaurante mais próximo. Começo a pensar em pessoas que seguiram em frente por coisas bem menores que um purê de batatas. Mandela, Ghandi, Ali, esse pessoal. Meu purê de batatas deveria ser contado para o mundo, um exemplo para as próximas gerações. A Conferência de Potsdam dos purês de batatas, era isso que deveria aparecer na Wikipedia.

Espeto mais uma vez as batatas, já pensando se deveria ser julgado em Haia. E a maldita gema que não me sai da cabeça? E se ela estourar? Fukushima não é nada perto disso. Maldita gema!

O purê fica pronto. O ovo também. Ela come e diz que está ótimo, que está tudo bem. Reviro na cama, horas depois, pensando nas batatas que espetei, nas gemas de ovo que maltratei para ter sucesso no feitio do jantar. Um simples purê de batatas com ovo frito.

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Um pensamento sobre “O ato de cozinhar

  1. Tiba disse:

    Quem é ela ? a Tartaruga ? ou a vizinha?

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