Diário de um diploma de jornalismo

Você me ganhou, cara. Depois de quatro anos, você finalmente me ganhou. Depois dos cochilos nas aulas de filosofia, dos bares idos durante as aulas de semiótica, você finalmente me ganhou. Mas valeu a pena? Pensa bem, era isso mesmo que você queria? Eu sei que você se divertiu na faculdade, fez grandes amigos, alguns inimigos e um desses pode ser seu chefe no futuro. Bebeu todas as coisas possíveis, comeu mal, comeu bem e não comeu. Estudou, enrolou, acendeu e fumou. Mas de verdade, valeu a pena?

É aquilo, alguns dizem que sou só um pedaço de papel, que a nossa profissão não precisa de formação específica, como se jornalismo fosse uma pinta, uma mancha na coxa da Angélica: ou a gente já nasce com a bagaça ou então vai vender Barsa. Visto dessa forma, você me ganhou e eu tenho tanta importância quanto uma conta de luz paga há três anos. Mas pensa bem, cara: foram quatro anos da sua vida. Tem gente que não vive quatro anos. Tem time que não ganha títulos há quatro anos. É tempo pacaraleo amigão. Nem mulher você cobiça durante quatro anos, em uma luta incessante contra o frio, a fome, o sono, o saco cheio. Tem lá suas recompensas, quando rola um trabalho bem feito ou aquela prova que você imagina um zero e veio um seis e meio firmezaço. Mas tem as notas vermelhas, as frustrações, os trabalhos em grupo. Toda uma gama de imbecilidade que só quatro anos de faculdade pode nos oferecer.

Daí fica a pergunta: eu sou importante? Sua mãe me adora, seu pai até chora quando me vê. E eu sou entregue em festa né amigo, com você de beca e tal. Tenho meu ar solene, apesar de estar meio datado. Tipo a Rainha da Inglaterra. Daí você chega em casa, bêbado, me dá uma mirada e diz que amanhã vai me colocar em um quadro. O amanhã vira depois, que vira ano que vem que vai virar próxima vida. Quatro anos de luta para me colocar numa gaveta, do lado de inúteis como a Certidão de Nascimento e o Título de Eleitor, que ao menos de quatro em quatro anos vê a luz do sol e sente o couro da carteira. É amigo, eu valho a pena, mas sua alma é que é pequena.

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