Isadora, a nova princesa da paz

Vivemos na era das cores, certo? Na qual não temos mais o preto e o branco, o bem e o mal e de mais Batmans versus Coringas. Hoje tudo é relativo, até mesmo a relatividade. Mas por mais que tentemos ser uma sociedade que aceite tanto em RGB quanto em CMYK, ainda temos o clássico dois pesos e duas medidas.

Exemplo recente disso está na nova mártir das redes sociais, Isadora, 13 anos de idade e uma página revolucionária no Facebook que retrata as mazelas do ensino público no país. Isadora é a Ariana Huffington mirim, a Olguinha Benarinho. Com o poder da comunicação ela transforma a vida dos pobres alunos tiranizados por diretores despreparados e professores desmotivados. É exemplo para o país e o mundo de como uma criança pode vir a se tornar um exemplo de cidadão, quem sabe não estamos de frente a futura presidenta do país, quem sabe Isadora não é o MESSIAS QUE VEIO PARA NOS TIRAR DA ESCRAVIDÃO E NOS LEVAR A TERRA PROMETIDA.

Gosto de pensar na contraparte da Isadora. Lembram da Menina Pastora. Aquela lá do PRÍNCIPE DA PAAAAAAAAAZ e tal? Pois bem, me digam aí a principal diferença entre as duas? A bandeira que elas levantam, certo? Errado. Não há qualquer diferença entre as duas. Ambas se tornaram exemplo para seus pares na comunidade. São reconhecidas pelos seus como prodígios prontos para salvar um mundo povoado por crianças acéfalas que, ao invés de lerem as sagradas escrituras ou O contrato social, resolvem ir empinar pipa, jogar bola, videogame, ver filmes idiotas ou qualquer outra coisa que crianças aos treze anos devem fazer.

Porque aos treze anos nós devemos nos divertir. Aos treze não temos que ter a preocupação de um mundo louco no qual diretores se lixam para seus alunos, professores ensinam qualquer coisa para ir para casa mais cedo e pastores resolvem colocar na cabeça de uma criança que o mundo só será salvo para os justos. Isso fica para nossos pais, nossos tios, nossos avós. Estamos criando toda uma cultura de paranoia cada vez mais precoce, com crianças ,cada vez mais preocupadas em como mudar o mundo. Pelo amor, estamos aqui há dois mil anos com poucas crianças que quiseram mudar o mundo e tudo seguiu muito bem. Tirando Mozart – que por sinal teve de se divertir tardiamente – não temos dez mil exemplos de gênios que foram moldados desde a infância. Einstein era disléxico, Pelé foi recusado em peneiras. Não forcemos a barra com a criançada. Se nossa sociedade está cada vez mais paranoica hoje em dia, imagina quando começarmos desde meninos a torcermos o pepino?

 

PS: além do mais, a criação desse mito infantil nada mais é que a culpa por não termos feito nada de brilhante na nossa infância. Eu agradeço por ter lido meu primeiro livro aos 18. Se o tivesse feito aos 13 anos, com certeza acharia a literatura uma obrigação e não um prazer.

Anúncios

Um pensamento sobre “Isadora, a nova princesa da paz

  1. Texto sério, e muito bom, por aqui é raro. Digo de sério, ok. Boa Julius!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: