O candidato do churrasco

O ano era mil novecentos e Araci de Almeida. No bairro da Casa Verde, Dr. Alberto Calvo se elegia vereador ano sim, outro também. Uma espécie de Fidel Castro da democracia. Hoje o mesmo Dr. Calvo concorre para a vaga de vereador, representando o povo da Casa Verde, Freguesia, Limão e – grande ironia – Pirituba.

Voltando a Casa Verde da era de ouro, a Casa Verde de vida simples. Crianças na rua, boteco na esquina, gol no portão da metalúrgica. A diversão da molecada era simples mas, como toda e qualquer diversão, precisava de um aporte estatal para acontecer. Foi então que surgiram alguns amigos da rua Atilio Piffer com uma proposta:

– QUEM DISTRIBUIR OS PAPELZINHO DO CALVO VAI GANHAR CHURRASCO NO SEICHO-NO-IE!

Vejam amigos, carne de graça em um centro religioso. Eu faria campanha para o Pol Pot em troca dessas carnes, pois não havia bom senso ou noção do perigo. E assim fui, com outros amigos da saudosa Rua Jaboatão, entregar santinhos do Dr. Calvo que sim, é careca. Missão dada é missão cumprida e acabamos com a papelada. Acredito que alguns jogaram os seus no esgoto, mas até entre as crianças existe a galera da banda podre. Tudo pronto, fomos para a porta do Seicho-no-ie que era a hora da maminha.

Vou divagar um pouco. Neste dia, uma grande lição política nos foi dada. Mais importante que a leitura de Maquiavel, mais necessária que conhecer os escritos de Tocqueville, foi saber desde criança que todo político, ou ao menos a grande maioria, é um filho da puta de marca maior. “Nossa Julio, mas você não acredita nas instituições?”. Amigos, eu fui enganado pela galera do Seicho-no-ie que prega a paz e o escambau. Quero que as instituições sejam erguidas em uma zona de guerra, problema delas.

Volto para contar que chegamos a porta do Seicho-no-ie famintos e com a sensação de dever cumprido. Na porta, o segurança nos olhou incrédulos e perguntou ao líder da molecada:

– Pois não?
– Nós viemos para o churrasco do Doutor Calvo.
– Hahahahahaha, tá bom.
– Nós entregamos os santinhos e prometeram o churrasco.
– Circulando, molecada.

Inflados pela revolta popular que a fome traz aos sofridos, formamos uma linha e começamos a cantar em uníssono:

– Ô CALVO, VIADO, CADÊ NOSSO CHURRASCO, Ô CALVO, VIADO, CADÊ NOSSO CHURRASCO!?

Vocês devem esperar que essa história se conclua com crianças presas pelo Doi-Codi ou que ao menos levaram umas borrachadas para ficarem espertos. Mas os tempos eram outros, mais inocentes. Fomos solenemente ignorados pela campanha do vereador, que certamente saboreava uma incrível picanha enquanto, do lado de fora, crianças trabalhadoras passavam fome. Desistimos depois de meia hora para fazer coisas mais importantes como empinar pipa, tocar campainhas e sair correndo ou descer a Rua Carandaí em cima de compensados de madeira.

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3 pensamentos sobre “O candidato do churrasco

  1. História tocante, Júlio. O pior é que tem trouxa que ainda vota nesse Calvo e também no Russomano.

  2. poxa manooo, o curintia vai cer canpiãu do mundo! nos não semo gambá semo da periferia manoo

  3. fornada disse:

    É aí que a gente descobre que o devemos fazer com as instituições não é acreditar nelas mas entender o seu funcionamento

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