Django

O Doutor Schultz (que talvez tenha parentesco com a finada Paula Schultz) é algo novo na filmografia do Tarantino. Porque se compararmos com o Coronel Hans Landa se Bastardos inglórios, ele é um bom homem, correto? Não.

Doutor Schultz é tão sangue frio quanto Landa quando o lance é sentar o dedo na galera. Claro que matar judeus difere e muito de caçar criminosos em uma época na qual a lei era na base da pólvora. Mas morte é morte e quem relativiza o tema é o Stálin. Mas, porém, contudo, adiante, todavia e Emerson Sheik, herr doctor é de uma humanidade incrível para a época e o local que ele está, enquanto Hans Landa é de uma crueldade estrondosa em outro espaço/tempo.

Se tem um filme do Tarantino que pode ser comparado com Django, esse é Bastardos inglórios. Temos a questão racial em pauta, os escravos americanos foram os judeus da segunda guerra. Porque sim, o mundo é racista, mas os EUA tem seus rincões onde ainda pode ser assombroso um negro andando a cavalo. E nessa comparação, Tarantino fez coisas incríveis.

Para essa comparação, tomemos o exemplo do Doutor Schultz. Ele é europeu, culto, sabido e um atirador da porra. Tudo aquilo que os senhores de escravos americanos gostariam de ser, mas abominam. Tarantino foi incrível ao colocar um alemão como defensor dos escravos, deixando claro que Schultz é contrário à barbárie. Ele mata não por prazer, mas pelo dinheiro, até o momento em que vê Calvin Candie soltar os cachorros em cima de um escravo. Literalmente. A partir daí o sempre sensato Doutor Schultz se humaniza e perde a calma peculiar de toda e qualquer situação de perigo.

Hans Landa é o contrário. Insano desde o princípio, tenta mais a frente um acordo para viver tranquilo na América. É sensato abandonar o Titanic de insanidade que foi o nazismo. Ambos momentos de sensatez são frustrados porque o Tarantino quer que o caos reine e foda-se a polícia, como dizem os gringos.

Mas quem melhor define o filme é o personagem de Samuel L. Jackson. Ele é o exemplo de que nosso negócio é ser desumano. Se pudesse, Stephen cavalgaria de capuz branco da Klu Klux Klan [motivo de uma piada incrível e que já vale o filme]. Se lhe fosse permitido, sairia a açoitar negros nos alvos campos de algodão do Mississipi.

E Stephen não demonstra em nenhum momento que gostaria de ser branco. Demonstra gostar de ser o que é, uma pessoa servil e – com o perdão do trocadilho – um ser vil. Ele não odeia negros pelos mesmos motivos estúpidos dos brancos, de hegemonia racial e outras babaquices. Ele odeia os negros por odiar. Seu racismo é diferente da ilusão absurda de que os cérebros dos negros são inferiores ao de Isaac Newton, por exemplo.

Esse novo Tarantino, que deixou de lado as tramas mais obscuras como o cinema dos anos 70, os gibis cheios de violência e os filmes chineses para recontar histórias mais universais, é tão incrível quanto aquele que fez de Kill Bill um dos melhores filmes do cinema. Usa, claro, de seus maneirismos de estilo e de suas referências já não tão obscuras afinal, sempre tem alguém que vai atrás da bibliografia. Mas ainda assim, sempre aparece com algo novo, ou reinventa um clássico. Desta vez, é o racista que odeia sua própria raça.

Não sei vocês, mas aguardo um filme notável do Tarantino sobre as Cruzadas.

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4 pensamentos sobre “Django

  1. Paulinho disse:

    to convencido do terceiro ato!
    sim, Stephen é o grande filho da puta do filme!

  2. S. Dreyfus disse:

    Também concordo que a “cereja do bolo” tenha sido o racista que odeia sua própria raça. Mas, preciso externar o tamanho do meu entusiasmo ao perder todo e qualquer asco pelo Christoph Waltz. Sim…a imagem dele como o Coronel Hans Landa me perturbava intensamente ao ponto de não suportar o ator. De fato, morte é morte, mas a humanidade dele para com a época e local, realmente destituiu toda a minha aversão ao ator, apesar de ver que os mesmos trejeitos do Landa faziam parte dos movimentos do Doutor Schultz. Bem, prefiro crer que Waltz leva os trejeitos dele, para os personagens. Enfim, a maneira como ele não se conforma com a morte do escravo pelos cães ou o momento em que ele pede a Django cautela e ao ser confrontado, ele se diz parafraseado, mostram muito mais apego ao homem do que ao dinheiro. Tenho vontade de rever o filme, toda vez que indico há alguém.

  3. Filipe Quintans disse:

    Que texto fraco, amg. Falou falou e não disse nada, vamos melhorar mais isso.

    Abs

  4. Leilson disse:

    I like the way you write, boy.

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