Adolf Hitler

Sabe lá por que cagada o pai do Adolf Hitler resolver dar a ele esse nome. Adolf Hitler da Silva. Ser Hitler era foda. Na infância era foda. As crianças da escola não ligavam o nome aos milhares de mortos, então Adolf ficou conhecido como o Peido. Aquele que com som sai tal e qual o nome do líder nazista, um leve suspiro do cu junto normalmente acompanhado de fritas, feijoadas e outras comidas de sabor incrível e cheiro não tão nobre. Adolffffffffffffffffffffffffff, dizia a molecada. Hitler dava de ombros.

A primeira namorada foi a Ester. O amor tem dessas. Ester nadava no Maccabi e o pai tinha “um lojinha”, como dizem seus pares do ramo religioso. Seu Saul enfureceu quando Hitler se anunciou em casa. Pensou no avô lá na Polônia, teve a mesma sensação. Lá estava Hitler, levando sua joinha. Enfureceu, gritou, proibiu, acendeu menorás e o que mais pudesse acender naquela casa. Mas Ester resistia como se estivesse em Stalingrado. O mundo é sempre cíclico.

A coisa com a Ester desandou, para alegria de Saul e dos amigos da família. Aquilo era um mau agouro do caralho, um desrespeito aos que se foram naquela guerra e em tantas outras. Chegou a faculdade e com ela os amigos babacas que riam porque Adolf Hitler militava com a turma da esquerda. Diziam que o nacional socialismo finalmente haveria de ser socialista. Hitler ficava na dele, como sempre fazem aqueles que carregam qualquer fardo. Pensava em mudar de nome, mas daí vem aquele momento de epifania que costuma foder a minha, a sua, a nossa vida. “E se eu fosse um Hitler do bem”, pensou. Ideia mais babaca não haveria de nascer nos próximos cem anos.

E lá foi Hitler concluir o curso de Ciências Sociais e militar pelos pobres na Somália, nas Filipinas, em Muzambinho e outros fins de mundo. Onde houvesse um pobre sofrendo, lá estava Adolf Hitler da Silva pronto para gritar que o povo não era bobo, abaixo a Rede Globo. Viajava de avião, de carro, de camelo, a pé. Onde houvesse injustiça social, lá estava o super Hitler pronto para combater o mal, com o perdão da rima pobre.

Os anos passaram e Adolf Hitler da Silva foi parar na ONU. O primeiro-ministro de Israel chiou, o da França riu. Pregando a paz, o fim do armamento nuclear e outras utopias, falando 17 dialetos e outras tantas línguas. A imprensa delirava, as organizações não governamentais ficavam confusas e a vida seguia. Sentia que as coisas mudavam. Que aquele nome, outrora sinal de intolerância, de maldade, de filha da putice sem fim, entraria para história agora como um anjo dos pobres, um santo dos desvalidos, a Madre Teresa que deixou o nazismo.

Até que Hitler morreu. Deixou esposa e dois filhos, João e Beatriz, porque essas coisas não são hereditárias. Os funcionários da ONU se juntaram no velório para lembrar o senhor amável que dava bom dia a todos. O premiê de Israel pediu que o nome não fosse mais citado na casa. O da França, riu. E alguns jornais, no dia seguinte, recordaram a história: “Morre Adolf Hitler. De novo.”.

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