Eu não sou cicloativista

Segundo o Endomondo, pedalei 1.521 km em menos de um ano. Se mantiver essa média, em dez anos terei dado a volta na Terra. Tudo isso na cidade de São Paulo, indo da Paulista para o Tucuruvi, de Pirituba para Pinheiros. Usando calçada, pista da direita, corredor da pista da direita, ciclovias, ciclofaixas. E nesse quase um ano tendo a bicicleta como principal meio de transporte, acompanhei no mínimo três mortes e alguns acidentes graves divulgados pela mídia na Avenida Paulista.

É foda andar de bicicleta em SP. Todo mundo têm pressa, ciclistas e motoristas. Não sei dizer qual pressa é resultado de outra, mas ela está lá. Na Rebouças, por exemplo, me sinto obrigado a ir pela calçada por receio dessa pressa paulistana. É uma subida, e a minha velocidade deve ser de 10 km/h. Imagina aquele senhor no seu BMW tendo que aguentar o gordinho aqui pedalando. Baixa um Exu Vin Diesel no homem vindo das mais profundas trevas das videolocadoras e sites de torrent. E ele dá aquela acelerada, buzinada, roncada de motor alemão que dura toda uma eternidade.

Na Paulista, exceto aos domingos quando tem ciclofaixa, a direita é a melhor pedida. Dos ciclistas e dos ônibus. Alguns são legais, te dão espaço para passar e ficam atento às suas buzinadas. Outros encarnam o Piquet e são paus-nos-cus com ou sem o volante. Nela, eu costumo passar os faróis vermelhos para pedestres, porque temos ônibus, táxis e carros com pressa.

Na Faria Lima tem ciclovia. E tem aqueles que, quando vão fazer a conversão para a outra pista, insistem que é uma boa ideia parar em cima da faixa destinada às bicicletas e ali ficar, preso num trânsito dantesco, tendo os ciclistas como companheiros.

Em Pirituba tem a Raimundo Pereira de Magalhães. A prefeitura colocou uma faixa na curva: ATENÇÃO – CICLISTAS NA PISTA. O vento, as chuvas e mais outras mazelas derrubaram a faixa. Hoje não é necessário ter atenção.

Na Sumaré tem ciclovia. Quando a avenida está vazia, desço pela faixa das motos. Sou babaca de fazer isso? Claro que sim.

O lance é que é foda viver em comunidade. Vem aquilo do seu direito terminar onde começa o do outro. Ou algo assim, nunca acerto esse clichê. Se transportar numa cidade como São Paulo sempre será difícil. E alguns podem dizer “mas em NY não é assim”. Exato, mas essa Nova Iorque dos sonhos é uma ilha, e aqui as ilhas são os homens, já que estamos falando de clichês. Sempre haverá acidentes, tanto para gregos quanto para troianos.

Mas a partir do momento alguém atropela um ciclista e foge pelo menos 10 km com o braço dessa pessoa presa ao carro, passamos de todo esse blábláblá de cicloativismo, quem está certo e quem está errado e estamos longe de um mero acidente. Porque não bastasse o sangue frio de atropelar alguém e deixar a cena em fuga, a pessoa ainda consegue ter a coragem de retirar um braço de seu caro e jogá-lo em um córrego da Ricardo Jafet. O fato do ciclista atropelado depender do braço para trabalhar aumenta mais a história, mas pouco importa. E também importa menos ainda se o cara era trabalhador, talibiker, oficial nazista foragido. É para pensarmos como caralhos alguém anda dez quilômetros com um braço de uma pessoa preso ao carro e, quando o vê, acha por bem jogá-lo em um córrego?

Esse cara não só privou um trabalhador de exercer seu ofício, um pai de sustentar uma família. Ele traz a tona os instintos mais primitivos, como diria Roberto Jefferson, para a discussão de mobilidade na cidade. Num momento em que a cidade adota a bicicleta como alternativa para o trânsito macabro de sexta-feira passada, essa estupidez, essa ignorância ocorrida na madrugada de domingo acirra uma rivalidade que nem deveria existir. Pululam frases como LUGAR DE BICICLETA NÃO É NA PAULISTA e CARRO BOM É NA GARAGEM quando a única coisa que deveríamos pensar é: em que momento erramos para que pareça uma boa ideia atropelar alguém, fugir com seu braço por quilômetros e despejá-lo num córrego da cidade?

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3 pensamentos sobre “Eu não sou cicloativista

  1. H.92 disse:

    Mais um caso chocante…

  2. danilo disse:

    A pergunta mais cabida é: vc leitor do blog vai pra balada de carro ou de taxi/ônibus/etc?

    • Leonardo Cuevas disse:

      Sou Leitor do Blog.

      Não vou para balada, por que para um abstémio como eu, é programa de índio.

      Algumas vezes saí de noite, fui de ônibus e voltei de táxi.

      Leitores de Blogs nascimos pelados sem nenhuma roda nos pés nem motor sob as nádegas.

      Aquele que acha que andar de carro é o único meio de se locomover na cidade está tão errado quanto aquele que defende a exclusividade dos patins.

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